Veneza aplaude a conquista da montanha de Salaviza

Montanha, de João Salaviza, é um dos títulos que contam em Veneza. É de ir aos píncaros. Neste fim de semana, descobriu-se um prodígio para além das curtas-metragens

Ontem Veneza ficou congelada. Esse é o termo, congelada. A escalada de João Salaviza pelos socalcos da montanha da adolescência é do melhor cinema que o festival tem visto. É também dos mais belos e comoventes filmes portugueses dos últimos anos, a confirmação de um grande cineasta. Quem o apanhou, a ele e este Montanha, recusado em Cannes, foi a Semana da Crítica de Veneza, talvez a mais preciosa das secções paralelas.

Num ano em que há também As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes, surge agora outro monumento do jovem cinema português. 2015, então mesmo o ano do cinema e não do audiovisual português. Um ano em estado de graça. Montanha faz a câmara de 35 mm deambular sobre o corpo de um adolescente de 14 anos ("quase 15, faço no final do mês", diz com ar ameaçador), David (interpretado por um rapaz descoberto por Salaviza chamado David Mourato, talvez o rosto com mais cinema em muitos anos), encafuado entre o apartamento escuro dos Olivais e as ruas de uma Lisboa de verão quente com sons de doença urbana. Lá fora, tem o avô doente, uma mãe quase ausente e um triângulo amoroso com o melhor amigo, Rafa (precisamente o Rafa de Rafa, a curta de Salaviza que lhe deu o Urso de Ouro em Berlim) e uma vizinha, a Paulinha.

São corpos entre o sol e a escuridão, corpos em movimento. David está naquela última etapa da adolescência. E dispara para todos os lados, ninguém o controla. Salaviza não está preocupado em construir o armamento narrativo com peripécias e princípio, meio e fim. É como se as sequências se construíssem sem mais nem menos, como se aqueles putos fizessem eles próprios a coreografia do plano. Há mil e uma ideias de cinema que dão planos milagrosos, quase na ordem do transe - ninguém filma concertos daquela maneira, ninguém filma a tensão sexual daquela maneira.

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João Gobern

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