"Uma obra fascista que a democracia está a destruir"

O Estádio Nacional, projeto do primeiro paisagista português aguarda que o pedido de classificação seja aceita na Direção Geral do Património Cultural há vários anos. Antecipando o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, que se assinala esta segunda-feira, retrato de um edifício criado para legitimar o Estado Novo, inaugurado em 1944.

Pensado em 1933, só foi inaugurado em agosto de 1944. Pretendia "legitimar o regime". A frase, do arquiteto José Manuel Fernandes, resume o que foi o projeto do Estádio Nacional, no Vale do Jamor, e ecoa nas palavras de Margarida Gonçalves Novo, jurista e membro da Liga dos Amigos do Jamor, uma associação criada para defender o complexo desportivo que pertence à câmara de Oeiras. "É uma obra fascista que está a ser destruída pela democracia", diz ao DN.

O princípio foi tão conturbado como o tempo político que se vivia. Carlos Ramos, Luís Cristino da Silva e Jorge Segurado apresentam projetos para o complexo desportivo encomendado por Salazar. Os três previam a construção em locais planos (atuais campos de ténis). "Quando estão quase a selecionar", conta José Manuel Fernandes, professor da Faculdade de Arquitetura de Lisboa, entra em cena Francisco Caldeira Cabral, acabado de chegar da Alemanha.

Agrónomo, Caldeira Cabral regressa a Portugal em 1939 com uma formação, inédita, em arquitetura paisagística, especialização sem história no Portugal da altura. As suas ideias chegam a Raul Lino, arquiteto influente do regime, contra os planos de Duarte Pacheco, a sua ideia é a que será posta em prática. Um estádio "inserido na paisagem, à grega". Inspirado, cita Margarida Gonçalves Novo, no antigo Estádio Olímpico de Berlim.

Havia outro argumento definitivo, explica José Manuel Fernandes: "Era muito mais barato do que um edifício que se constrói num terreno plano". Neste, a bancada foi "escavada na rocha". "Não se fez verdadeiramente nenhum edifício". O caso valeu-lhe "inimizades".

Caldeira Cabral trabalha com um arquiteto alemão, Konrad Wiesner, e, mais tarde, entra em cena Miguel Jacobetty Rosa, autor da tribuna de honra, e, entre outros pormenores, das bilheteiras. "É um arquiteto mais ligado às formas monumentais", situa José Manuel Fernandes, lembrando que é ele o autor do edifício da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), sobre o qual falará na segunda-feira, na própria faculdade, entre as 14.00 e as 18.00, também no âmbito do Dia dos Monumentos e Sítios.

Pedido de classificação

José Manuel Fernandes sublinha "a simbiose incrível com a paisagem", árida quando esta construção aqui chegou, e considera que este é um dos três melhores exemplos de arquitetura de desporto em Portugal, ao lado dos estádios do Restelo e de Braga, de Souto de Moura. Concorda que "tem limitações, claro". "Instalaram-se cadeiras de plástico e um sistema de iluminação, mas mais do que isso não se pode fazer", acredita, mas "é um edifício histórico, a caminho do século."

O valor é reconhecido pela Liga dos Amigos do Jamor. Foi esta associação que apresentou o projeto de classificação dos 230 hectares do Complexo Desportivo do Jamor, também conhecido como Complexo do Estádio Nacional, à Direção Geral do Património Cultural (DGPC). Duas vezes, frisa Margarida Gonçalves Novo. De ambas (2012 e 2014), sem resposta. Ao DN, o organismo que tutela monumentos e museus, disse que o processo se encontra "em fase de estudo". Isto é, o dossier será analisado pela diretora, Paula Silva, e caso se considere que preenche requisitos para vir a ser classificado avança-se então com a abertura do processo.

"Existem muitos interesses imobiliários em construir e privatizar o Estádio Nacional", contextualiza Margarida Gonçalves Novo. "Todos os anos somos surpreendidos com mais uma vedação e uma concessão", explica. Primeiro um campo de golfe, agora a Cidade do Futebol (recentemente inaugurada e patrocinada pela Federação Portuguesa de Futebol) e já se fala num campo de tiro.

Margarida Novo Gonçalves explica que o Complexo Desportivo nasceu para que os cidadãos tivessem um local para fazer desporto e estar ao livre. "O projeto inicial era prolongar até ao rio, e estava no PDM [plano diretor municipal] da câmara [de Oeiras] até ao ano passado". Nunca tinha sido concluído porque havia fábricas em atividade, mas estes locais estão desativados "há mais de uma década". "E a câmara resolveu transformar o terreno em local de construção". Um dos planos é erguer torres, concretiza a jurista ao DN.

Enquanto espera resposta, o Estádio Nacional continuará a ser aquele edifício lembrado, sobretudo, por alturas da Taça de Portugal, o grande evento desportivo que alberga (esta época um FC Porto-SC Braga marcado para 22 de maio). Mas este ano entra mais cedo no radar: é ao desporto que é dedicado o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, assinalado oficialmente na segunda-feira, dia 18. Está marcado um passeio de BTT por vários edifícios de desporto do complexo e uma conferência, a 23 de abril, das 11.30 às 15.00, organizada pela APAP - Associação Portuguesa de Arquitetos Paisagistas sobre o polémico projeto.

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