Uma exposição, duas coleções: o ouro lusitano encontra-se com o ouro da Roménia

Duas dezenas de peças vindas de Bucareste encontram-se com a ourivesaria arcaica de Portugal no Museu de Arqueologia. Abre hoje ao público

O elmo principesco gravado é um dos objetos mais chamativos da exposição Ouro Antigo do Mar Negro ao Oceano Atlântico que hoje abre ao público no Museu Nacional de Arqueologia (MNA). As suas dimensões impressionam tanto quanto a sua história. Foi encontrado por uma criança, no início do século XX, "por acaso". "Serviu de brinquedo aos mais novos e também serviu para dar água às galinhas".

A história é contada por Ernest Oberländer-Tänoveau, diretor do Museu de História da Roménia, que empresta as peças que se podem ver no museu ao MNA até abril do próximo ano. A peça, datada do século IV a.C., chegou a estar "numa vedação" e foi "destruída mecanicamente". Retiraram-lhe o topo. Até que um antigo soldado da I Guerra Mundial reconheceu o seu valor e comprou-o por 30 mil leus romenos em 1929. "Embrulhou-o numa folha de jornal e pediu uma reunião no ministério da Educação e Cultura, em Bucareste. "O proprietário fez uma doação ao museu e ainda deu mais 5 mil leus para o cofre transparente onde devia ser exposto".

O objeto é ainda mais importante se pensarmos que a Roménia fica sem parte dos seus tesouros depois da guerra, confiscados pelos russos, anterior aliados, resume Gelu Savonea, diretor-adjunto do Instituto Cultural Romeno, uma das instituições que organizam a exposição. "Só começamos a recuperar as peças em 1956", lembra o diretor.

Ernest Oberländer-Tänoveau avança até outra vitrina para mostrar mais uma peça da coleção. Uma das 3 mil que estão nos tesouros do seu museu. Trata-se de uma tira de ouro, gravada. "É uma bandeira", revela o diretor, arqueólogo de formação. A peça devia ser aplicada em outro suporte e retrata três animais. Tem cara de javali, corpo de peixe e rabo de ave. Sobre ela uma peça para usar no arnês do cavalo. "A aristocracia sempre quis impressionar com ouro e pedras precisosas. Decoravam os cavalos e este é do arnês", refere o diretor romeno.

É muito fácil navegar pela exposição, garante Katia Moldoveanu, curadora do museu e arqueóloga. Basta procurar as vitrinas com uma águia e uma letra. São essas - de A a G - que contêm os 21 tesouros emprestados pelo Museu de História da Roménia, em Bucareste, ao Museu Nacional de Arqueologia. "Um espaço, duas coleções", diz, em jeito de resume, o diretor da casa, António Carvalho. A águia foi inspirada num das joias selecionadas para a exposição. É da segunda metade do século V e foi encontrada num túmulo. E o que surpreende é que a mesma técnica fosse usada do lado da Península Ibérica, como demonstram os botões encontrados em Portugal, sublinha Virgílio Correia, curador português da exposição, especialista em ourivesaria e diretor do Museu de Conímbriga.

Apesar da coleção romena ser mais chamativa e de as peças lusitanas nada terem que ver com as que têm vindo a ser encontradas na antiga Dácia, Virgílio mostra os casos em que existe contacto. Como é o caso das braceletes caneladas. "O [Museu] Soares dos Reis tem uma muito parecida", acrescenta a investigadora Ana Isabel Santos, junto da peça, dentro da primeira caixa de vidro da exposição. É aqui que estão os bens mais antigos que viajaram de Bucareste para Lisboa para esta exposição. Chegaram aos dias de hoje vindos do Neolítico.

Katia Moldoveanu chama a atenção para as mais pequenas de todas. "Têm seis mil anos de antiguidade", explica. E dos mais raros de todos os que estão nesta exposição e, por isso, "dos mais importantes". A arqueóloga sabe do que fala. Ela própria descobriu um destes pendentes numa escavação no sul da Roménia. "É o achado de uma vida", ri-se. Estes, em ouro, foram descobertos numa necrópole, o outro num povoado antigo.

É nesta altura que António Carvalho, diretor do MNA entra na conversa. Faz esta terça-feira 37 anos que esta galeria abriu as suas portas ao público. Ficou para a história como o último local inaugurado oficialmente por Francisco Sá Carneiro antes da sua morte, uma semana depois. Hoje reabre com nova cara. "Aproveitámos a vinda da exposição para reprogramar a atualizar a sala. Esta é uma autoestrada de dois sentidos. Selecionamos as peças do Museu de História da Roménia, mas procuramos o diálogo. São duas exposições dentro uma espaço", diz. A informação foi traduzida, contextualizada, e, nesse caminho, fez-se uma nova classificação e análise das peças da coleção e é assim que a sala conhece uma nova vida.

É o caso da taça em forma de concha que Virgílio Correia trouxe para a exposição. Seria de "uso especial, simbólico. Entraram no museu nos anos 80, a proveniência é desconhecida e tudo indica que são da Idade do Ferro, mas o facto de não existirem outras para comparação nem ser uma tipologia usual tornam a sua presença na exposição uma decisão arriscada, mas elogiada por Ana Isabel Santos. "O comissário está disponível para o escrutínio".

Ouro Antigo: Do Mar Negro ao Oceano Atlântico

Museu Nacional de Arqueologia, Praça do Império
De 28 de novembro a 29 de abril de 2018, de terça a domingo, das 10.00 às 18.00
Bilhetes: 5 euros; entrada gratuita até aos 12 anos e aos domingos e feriados até às 14.00; 2,5 euros para estudantes e maiores de 65 anos

Ler mais

Exclusivos

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

As culpas de Sánchez no crescimento do Vox

resultado eleitoral do Vox, um partido por muitos classificado como de extrema-direita, foi amplamente noticiado em Portugal: de repente, na Andaluzia, a mais socialista das comunidades autónomas, apareceu meio milhão de fascistas. É normal o destaque dado aos resultados dessas eleições, até pelo que têm de inédito. Pela primeira vez a esquerda perdeu a maioria e os socialistas não formarão governo. Nem quando surgiu o escândalo ERE, envolvendo socialistas em corrupção, isso sucedera.

Premium

João Taborda da Gama

Nunca é só isso

Estou meses sem ir a Coimbra e numa semana fui duas vezes a Coimbra. Até parece uma anedota que havia, muito ordinária, que acabava numa carruagem de comboio com um senhor a dizer vamos todos para Coimbra, vamos todos para Coimbra, mas também não me lembro bem e não é o melhor sítio para a contar mesmo que me lembrasse. Dizia que fui duas vezes a Coimbra numa semana, e das duas encontrei pessoas conhecidas de que não estava à espera, no comboio, no café, na rua. Duas coisas que acontecem cada vez menos, as pessoas contarem anedotas umas às outras, muito menos ordinárias, que não se pode, e encontrarem-se por acaso, que não acontece. E não se encontram por acaso, porque mais dificilmente se desencontram. Para encontrar é preciso desencontrar, e quando o contacto é constante, quando a aparência de acompanhamento da vida do outro rodeia tudo o que fazemos, é difícil sentir o desencontro.

Premium

Ruy Castro

Uma multidão de corruptos injusta e pessoalmente perseguidos

Nenhum agente público no Brasil, nem mesmo o presidente da República, pode ganhar acima de 33 mil reais por mês. Isso equivale a pouco mais de oito mil euros - o que, para as responsabilidades de certas funções, pode ser considerado um salário modesto. Mas você ficaria surpreso ao ver como, no Brasil, esse valor ganha uma extraordinária elasticidade e consegue adquirir coisas que, em outros países, custariam muito mais dinheiro. Com ele, nossos políticos compram, por exemplo, redes inteiras de estações de rádio e televisão, prédios de 20 ou mais andares em regiões de proteção ambiental e edificação proibida e extensões de terra maiores do que a área de certos países europeus. É um fenómeno. Mais surpreendente ainda foi o que descobrimos esta semana. O governador do estado do Rio - cuja capital é a infeliz cidade do Rio de Janeiro -, Luiz Fernando Pezão, fez apenas 11 saques em suas contas bancárias de 2007 a 2014. Alguns desses saques eram no valor de três euros, o que lhe permitiria comprar no máximo um saco de pipocas, e nenhum acima de oitocentos euros. Por mais que Pezão pareça um sujeito humilde e desapegado, como se pode viver com tão pouco? Talvez tivesse dinheiro em espécie acumulado em algum lugar - quem sabe um cofre em sua casa ou mesmo o seu próprio colchão -, do qual fosse retirando apenas o suficiente para seus alfinetes. Não por acaso, a Polícia Federal prendeu-o na semana passada, acusando-o de ter recebido o equivalente a dez milhões de euros de propina, naquele período em que ele era vice-governador do então titular Sérgio Cabral - que, por sua vez, está condenado por enquanto a 197 anos de prisão por corrupção, formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Cabral é acusado também de ter cerca de 85 milhões de euros em depósitos fora do Brasil. Onde estarão os milhões de Pezão? E Michel Temer, dentro de 20 dias a contar de hoje, deixará de ser presidente do Brasil. No dia 1 de janeiro, uma terça-feira, passará a faixa presidencial a seu sucessor e perderá a imunidade que o impede de ser condenado por atividades ilícitas anteriores ao seu mandato. É quase certo que, já no dia seguinte, agentes da Polícia Federal baterão à sua porta em São Paulo, para levá-lo a explicar-se sobre as atividades ilícitas praticadas antes e durante o mandato. Explicações que ele terá dificuldade para dar, já que os investigadores parecem ter provas robustas de suas trampolinagens. E não se pense que tudo nessa turma se refere a milhões - uma inocente obra de reparos na casa de uma filha de Temer em São Paulo, "oferecida" por um empresário, indica um gesto de gratidão desse empresário por certa obra de vulto em que Temer, como presidente, o favoreceu. Nem toda a corrupção tem o dinheiro como fim. Ele pode ser também um meio - para se chegar ao mesmo fim. No caso do Brasil, foi o que prevaleceu nos últimos 15 anos: o desvio de dinheiro público para a manutenção do poder político, eternizando o desvio de dinheiro público. É uma equação diabólica, principalmente se maquiada de uma tintura ideológica - práticas de direita com um discurso de esquerda. E não se pense também que isso envolveu apenas os políticos. A Operação Lava-Jato, que está botando para fora os podres do país, condenou até agora 65 pessoas à prisão, das quais somente 13 políticos, num total de quase duzentas em fase de investigação ou já denunciadas. Entre estas, contam-se doleiros, operadores de câmbio, publicitários, lobistas, pecuaristas, irmãos, cunhados, ex-mulheres e "amigos" de políticos e carregadores de malas de dinheiro, além de funcionários, gerentes de serviço, executivos, tesoureiros, diretores, sócios-proprietários e presidentes de grandes empresas. Entre os presos ou investigados, estão também um ex-presidente da Câmara dos Deputados, um ex-presidente do Senado, vários ex-ministros de Estado (dos quais três ex-ministros da Fazenda), três ex-tesoureiros do Partido dos Trabalhadores, meia dúzia de altos funcionários da Petrobras, o ex-presidente do banco de desenvolvimento nacional, seis ex-governadores estaduais, os presidentes das quatro maiores empresas de construção civil do Brasil e quatro ex-presidentes da República. Um deles, Luiz Inácio Lula da Silva. Portanto, quando lhe falarem que o querido Lula está sofrendo uma perseguição pessoal e injusta, pense nos citados acima, tão injusta e pessoalmente perseguidos quanto ele.

Premium

Marisa Matias

O Christian, a Rosa e a rua

Quero falar-vos do Christian Georgescu, uma daquelas pessoas que a vida nos dá o privilégio de conhecer. Falo-vos com nome e apelido porque a história dele é pública. Nasceu em Bucareste, na Roménia, tem 40 anos e encontrou casa no Porto. Trabalhou desde cedo até que um dia lhe faltou comida na mesa. A crise no início dos anos 2000 e a necessidade de dar de comer à filha fizeram que decidisse entrar num mundo paralelo. A juntar a isso, começou a consumir drogas e foi preso. Quando saiu percebeu que tinha de ir para longe para mudar e veio para o Porto.