Um Sol de Março que nos traz as histórias de um homem comum

O novo álbum de Medeiros/Lucas rasga o isolamento das ilhas, bebe nas margens do Mediterrâneo, tem uma lança em África, flirta com o tropicalismo, para contar num modo muito próprio as histórias de um homem comum.

Esqueçam as ilhas de bruma, os Açores que se inscrevem na origem do bilhete de identidade de Pedro Lucas e Carlos Medeiros. As geografias por onde se movem Medeiros/Lucas são outras, rasgam o isolamento das ilhas, bebem nas margens do Mediterrâneo. Por entre os Balcãs e o Médio Oriente, pontuado pelo electro chaabi egípcio, muita música do Magrebe e do Sara e o minimalismo de Steve Reich, Terry Riley ou as canções de Big Science de Laurie Anderson.

Sol de Março, o novo álbum de Medeiros/Lucas que chegou sexta-feira às lojas, cola todas estas geografias, que Pedro Lucas descreveu ao DN, para nos apresentar as histórias de um homem comum. Esta conversa decorreu num dia em que o sol de março rompeu por entre bátegas de água, num café de Campo de Ourique, o bairro de Lisboa para onde se mudou depois de anos radicado em Copenhaga.

O processo de composição passou muito por Pedro Lucas, neste terceiro trabalho da dupla, depois de Mar aberto (2015) e Terra do Corpo (2016), fosse em Lisboa ou nuns dias que passaram na ilha do Pico. A canção Elena Poena, por exemplo, "surge numa das sestas do Carlos", contou Pedro. "O primeiro disco tinha muito do imaginário marítimo, do nosso imaginário dos Açores, os baleeiros, e também tem muita coisa ibérica. E a partir daí somos cada vez menos ancorados nos Açores."

Não é um álbum de uma latitude só este Sol de Março, já se entranhou. Há o tropicalismo, uns Mutantes que se passeiam no Caribe, reminiscências de Graceland, a lança em África de Paul Simon. "A primeira ideia era fazer uma coisa muito Graceland, africana, por causa do refrão", disse, enquanto o trauteava. "Depois aquele ritmo surgiu a trabalhar com o baterista, no estúdio, e até se misturou com uma coisa que é uma brincadeira de percussão entre a bateria e a guitarra que eu vou roubar aos Fantoches de Kissinger, do Zeca Afonso".

Ao processo de composição mais individual, somou-se um trabalho coletivo. "Quase todos os temas foram gravados ao mesmo tempo, voz, bateria e guitarra. É o disco mais coletivo de todos, o que demorou mais tempo a ser feito, foi pensado para ser assim, onde há mais colaboração de toda a gente, não na composição, mais nos arranjos", descreveu Pedro Lucas.

Como Mar aberto e Terra do Corpo, este Sol de Março também teve "um desafio diferente", que é o da "voz do Carlos subir um bocadinho, subir um tom, para a voz ficar menos grave, mais melodiosa. O Carlos tem aquela voz de marinheiro, de um contador de histórias, é o instrumento que ele tem, e há uma intenção em fazer funcionar as músicas que nós temos, as histórias que nós temos na voz dele, mas não de lhe dar uma geografia diferente".

Basta ir por ali pelo meio do álbum, de Os Pássaros a Galgar, passando por Elena Poena e O Trapezista, para se perceber como Pedro ouve a voz de Carlos e como olha para as histórias que as letras de João Pedro Porto contam (depois da colaboração iniciada em Terra do Corpo). "Este álbum é mais individualista, tem a ver com a condição pessoal, o querer controlar, querer perceber. A primeira frase do disco é "deixa-me ver", a última é "escapar à escuridão" - é muito uma procura de luz, na qual a metáfora mais óbvia é a luz do iluminismo e da razão, mas com uma consciência plena de que a luz também queima, seca tudo à volta." Pedro insiste na sua leitura. "É uma apologia, mais óbvia, da procura do equilíbrio, do meio-termo, de saber que é preciso procurar a luz, mas que a luz precisa da sombra, com um conflito muito interior. Daí também ter muita influência de música minimalista, sequencial, sobretudo americana, o cérebro aqui a martelar, tic tic tic."

Sol de Março "sugere a ideia da razão", como apontou o letrista João Pedro Porto. "Fazia todo o sentido", notou Pedro Lucas, depois do primeiro álbum sobre a emoção e o segundo sobre o corpo. "O primeiro disco é de uma ideia do Carlos, de uma coisa muito quixoteana, baseada na figura de um nobre, D. Quixote, uma personagem muito original, muito louca, de lutar contra moinhos", apontou. Já "o segundo disco é mais político e vem com a ideia do corpo: há uma ideia do João Pedro de criar o contraste, ir do mar para a terra, daí surge uma coisa muito mais física, a terra do corpo".

Este trabalho joga-se entre a sombra e a luz. Lampejos, a canção de abertura, "é uma coisa muito sofrida, começa com essa sofreguidão, "deixa-me ver, deixa-me ver", é quase um fado muito negro". "Havendo uma personagem nesta trilogia é uma personagem muito normal. Quando abordamos a razão ou a emoção, ou o corpo, nunca é num extremo, é sempre uma personagem normal, um homem comum, que tenta ser mais ou menos equilibrado, mas que tem que lidar com o corpo, e às vezes o corpo manda mais. Nunca chega a ser um dom quixote, uma besta racional, uma máquina, uma besta ascética, é sempre uma pessoa normal."

Talvez por isso também se ouça com humor o aviso que antecipa Elena Poena: "Caros ouvintes, interrompemos agora para um breve momento lúdico." Sol de Março é prova de um equilíbrio que se ouve com o prazer de uma geografia muito própria.

Sol de Março
Medeiros/Lucas
ed. Lovers & Lollypops
CD, vinil, streaming
PVP: 15 (Bandcamp)

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