Um beijo em Paris: "Essa é a minha resposta aos terroristas"

O ilustrador francês Serge Bloch mostra os seus trabalhos na Ilustrarte, em Lisboa

A primeira vez que Serge Bloch esteve em Lisboa foi em 1974. "Tinha 18 anos, soube que tinha havido uma revolução na Europa e vim ver. Tinha que vir", conta o ilustrador francês, convidado especial desta edição da Ilustrarte. "Fiquei seis meses em Portugal, passeando e visitando, Lisboa estava uma loucura naquela altura. Fiquei numa comunidade de artistas que tinham ocupado uma casa. A cidade estava cheia de pinturas pós-modernas. E estava em Lisboa no 1º de maio, com muitas manifestações, os soldados com cravos. Foi lindo. Gosto muito de Lisboa e por isso fiquei muito feliz com o convite para esta exposição."

Serge Bloch estudou na Escola de Artes Decorativas de Estrasburgo com Claude Lapointe. Desenha regularmente para a imprensa (The Washington Post, Wall Street Journal, The New York Times, Time e New Yorker, entre outros). Recebeu a medalha de ouro da Society of illustrators. Vive em Paris com a sua mulher e filho, no qual se inspirou para criar a banda desenhada do super-herói Samsam. Em Portugal, a Bruáa editou O Tigre na Rua, com textos de vários editores, e Eu Espero, em colaboração com David Cali.

Os comissários da Ilustrarte, há muito que queriam apresentar o trabalho de Bloch. "Estão a ver Deus? Ele está lá ao lado dele", brinca Eduardo Filipe. A exposição Serge Bloch, pequena história de um grande traço mostra as várias facetas da sua obra. Das ilustrações feitas para livros ou para imprensa, às capas de revistas, a cartazes publicitários, desenhos que deram origem a animação. Uma das ilustrações, mostrando um par que se beija, foi feita recentemente, logo depois dos atentados de Paris, para uma revista francesa: "Tem um texto onde se diz que Paris será sempre Paris. Essa é a minha resposta ao terrorismo, manter a alegria, continuar com a nossa vida, e termos prazer em estar na nossa cidade."

E mais: chegado há dois dias a Lisboa, Serge Bloch fez questão de tornar o espaço do Museu da Eletricidade um pouco seu: numa parede, desenhou um homem gigante a passar por uma porta e a enquadrar uma das televisões; e produziu ainda uma instalação com dois conjuntos de cubos gigantes. "Comecei a fazer esse tipo de peças há cinco anos, numa exposição em Nova Iorque (sou um rapaz de sorte, costumo mostrar o meu trabalho entre Paris e Nova Iorque). E fiquei surpreendido porque muitas pessoas gostaram. Então, quando vi este espaço, tão grande, disse logo que queria tentar fazer uns blocos grandes. Gostava que fossem ainda maiores mas não foi possível."

Serge Bloch gosta sobretudo de desenhar pessoas. "Observo as pessoas e acho-as fascinantes, são todas as diferentes." Ao contrário de outros artistas, não traz um bloco no bolso nem tira anotações. "Passeio muito. Observo e imagino. Penso muito antes de começar a desenhar, mas quando o faço é muito rápido." Em Lisboa, mais uma vez, vai passear e ver a cidade, e talvez leve consigo algumas ideias para trabalhos futuros.

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