Três séculos de história nas paredes da cervejaria

O edifício viu as ordens religiosas serem extintas, a burguesia enriquecer e o Estado Novo afirmar os valores nacionais. O restaurante mais antigo de Lisboa fez 182 anos

As mesas da Cervejaria Trindade, no coração de Lisboa, estão postas para o almoço mas ainda não se ouve o tilintar dos pratos ou o bruá dos clientes. Sobressaem (ainda mais) os painéis de azulejo do restaurante, exemplares do final do século XIX, encomenda de Manuel Moreira Garcia, o homem que criou a fábrica de cerveja Trindade em 1832. Fez nos primeiros dias de janeiro 182 anos que o restaurante abriu as portas à clientela. A história, porém, começa muito antes e para a conhecer é preciso enfrentar o frio, pede Anísio Franco, historiador, conservador do Museu Nacional de Arte Antiga e autor de livros sobre Lisboa, que conduz a visita àquele que se diz o mais antigo restaurante da capital.

Na rua, observando os azulejos azuis e brancos que forram a fachada, Anísio Franco chama a atenção para os desenhos e as diferentes tonalidades de azul destes exemplares setecentistas. "Nenhum assentador de azulejos do século XVIII faria este trabalho assim", afirma. O "patchwork", como lhe chama, veio do interior do Convento da Trindade, velho de 1294 e alvo de inúmeras alterações. Aqui viveram quatro séculos os frades Trinos, encarregues de resgatar prisioneiros cristãos cativos pelos mouros no norte de África.

O edifício, que ocupava um quarteirão, foi destruído três vezes: num incêndio em 1704, no terramoto em 1755 e num novo incêndio, quando se reerguia em 1756. Sobreviveu. Mas não a tudo. "O maior abalo que os conventos sofreram não foi o terramoto nem foram as invasões francesas. Foi a extinção das ordens religiosas em 1834", afirma Anísio Franco. Sobreviveu um retábulo que está no Museu de Arte Antiga.

Sobre os azulejos da fachada, Anísio Franco conta que foi Moreira Garcia quem decidiu trazê-los para ali, fruto da sua vontade de "se afirmar". Usa-os também na fachada do palacete onde mora, algumas portas abaixo, na mesma Rua Nova da Trindade, que ganha o nome após reorganização urbanística. O empresário pertence a uma nova burguesia endinheirada que começa a sobressair em Lisboa. O sucesso é "crescente". "Em 1854, D. Fernando II, que era regente [em nome do filho, D. Pedro V] atribui-lhe a chancela de fornecedor da Casa Real".

A bebida é novidade na capital, comenta o historiador. "Esta ideia de aliar a cerveja a um convento é muito inteligente em termos de marketing, pré-marketing, porque é nos conventos que nascem as grandes marcas de cerveja alemã".

"O sucesso vai ter tão grande que a pequena cervejaria já não é suficiente e 10 anos volvidos tem que se entrar para a zona do refeitório". A antiga zona de refeição dos trinos serve para ampliar a fábrica.

A conversa continua no interior. "Este homem está feliz com o seu sucesso, que encomenda uma nova decoração". Anísio Franco detém-se para notar que a meados de século XIX a tradição azulejar está a desaparecer. "Ela tinha uma função muito particular, ornamentar casas conventuais e grandes casas da nobreza". Ambas desaparecem após a guerra liberal. "Grande parte da nobreza tinha seguido com a família real para o Brasil e quando volta está pouco abonada". Isto significa, continua, que "os grandes clientes das oficinas azulejares estavam sem clientes". "É esta burguesia que vai retomar a tradição, com um senhor chamado Lamego, e particularmente a sua viúva".

A burguesia endinheirada leva os azulejos para os estabelecimentos comerciais. "O homem que vai pintar estes azulejos, Luís Ferreira, era chamado em Lisboa de "o Ferreirinha das tabuletas", porque a sua função primeira era fazer reclames em azulejos, que se espalham pela capital", conta.

A primeira sala é feita em função da hierarquia da loja maçónica. "O comitente, Moreira Garcia, quer mostrar uma vontade indómita de ser integrado na maçonaria". No entanto, não há qualquer regista de que tenha pertencido a este grupo. Na primeira sala, além dos patronos (comércio e indústria),estão os painéis dos quatro elementos, que "já eram da iconografia antiga e da tradição histórica azulejar". Aqui, "tem a ver também com o calendário maçónico", refere.

Domingos Moreira Garcia, filho do fundador, herda o negócio e leva-o até 1920. Depois, "a cervejaria é doada aos seus empregados". O capitalista Rovisco Pais adquire essas quotas. Quando morre, o restaurante fica para a Misericórdia que a vende em hasta pública à Central de Cervejas, dona da Portugália (que se autonomiza, mas já no século XXI recompra o restaurante). Nos anos 40, o restaurante volta a "comer" o espaço da fábrica. Nos anos 40, abre o luxuoso Folclore. "Estamos num período do Estado Novo de assunção dos valores nacionais etnográficos e, reparem, todo este espaço é pensado nesse sentido", conta, desde a plataforma elevada que fazia de palco nesta altura para apresentações de folclore aos estrangeiros.

A reforma é do arquiteto Francisco Keil do Amaral e da sua mulher, Maria, que trabalha os vários painéis usando a técnica da calçado e desenho modernistas.

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