Trane, a locomotiva do jazz contemporâneo partiu há 50 anos

John Coltrane

Numa viagem de duas décadas, John Coltrane tira os espartilhos ao jazz e faz do saxofone um instrumento de demanda espiritual. Morreu com 40 anos, faz hoje meio século

Com John Coltrane é tudo muito rápido. Entrou no hospital de Huntington, Long Island, no domingo, 16 de julho de 1967, e poucas horas depois morreu. A sua música entranha-se no ouvinte com a velocidade de um sopro. E ninguém lhe fica indiferente - os que o acusaram de fazer antijazz ou os que o têm como uma inspiração.

Quando a pianista Alice McLoud o ouviu pela primeira vez, em disco, deu conta de que do saxofone saíram muito mais do que notas musicais. "Enquanto escutava senti que havia algo além do terreno musical. Era uma sensação que ultrapassava a experiência musical, era como uma experiência onírica", ouve-se no documentário The World According to John Coltrane. Alice Coltrane - curiosamente, o mesmo nome da mãe de John - acabou por conhecer aquele músico, juntou-se ao seu quarteto e à sua vida nos últimos quatro anos do saxofonista. Tiveram três filhos (um deles o também saxofonista Ravi Coltrane, cujo nome foi dado em homenagem ao instrumentista de sitar Ravi Shankar) e, após 1967, aprofundou os estudos musicais e espirituais de Trane (como lhe chamavam os amigos) sobre o Oriente, até à sua morte, em 2007.

Que tinha a sua composição e técnica de especial? "Tocava saxofone como se não fosse saxofone. Fazia looping e outras coisas como os pianistas e os violinistas. Tinha uma grande facilidade em fazê-lo", diz no citado documentário o saxofonista Wayne Shorter. É no final de 1959, quando grava Giant Steps e Coltrane Jazz, e em 1960, quando John Coltrane sai em definitivo da banda de Miles Davis, que começa a segunda fase da carreira. Com um quarteto em seu nome formado por McCoy Tiyner ao piano, Steve Davis no contrabaixo e Elvin Jones na bateria (entre outros), desenvolve um estilo único, composto de camadas de som, a exploração das possibilidades de cada acorde em solos, como fez com o tema que o levou à popularidade, a versão de My Favorite Things (do filme Música no Coração).

É neste período que vai até 1962, tão breve quanto prolífico, que o músico nascido na Carolina do Norte começa a explorar o saxofone soprano em alternativa ao tenor. E grava pela Atlantic Records Bags & Trane, Giant Steps, Plays the Blues, Olé Coltrane, My Favorite Things, Coltrane Jazz, Coltrane Sound (publicado em 1964, quando há dois anos os seus discos eram publicados na Impulse!) e The Avant-Garde (1967). No ano passado, foi lançado The Atlantic Years: in Mono, tendo reunido numa caixa seis destes álbuns (um incêndio destruiu as gravações originais em mono dos restantes). Um ano volvido, a mesma editora lança-se num exercício de equilibrismo: uma compilação, em menos de 47 minutos, destas gravações. É um ponto de partida válido para o universo de Coltrane. Que nos anos seguintes irá abraçar as correntes do free jazz, com Alice Coltrane ao piano, os colegas de instrumento Pharoah Sanders e Archie Shepp e o baterista Rashied Ali - num passo que o afastou outra vez da unanimidade. No entanto, é hoje, sem contestação, um dos nomes maiores do jazz e talvez o que tenha influenciado mais artistas, dentro e fora do género musical.

Uma dor persistente no estômago incomodou-o durante semanas. Quando procurou ajuda médica era tarde demais. Tinha um cancro no fígado. Ficou por cumprir o sonho de viajar pelo mundo e de tocar com os gurus de outras culturas. "Eu quero ser uma força do bem. Por outras palavras, existem forças más, forças que trazem sofrimento e desgraça ao mundo, mas eu quero ser a força oposta, quero ser a força que é verdadeiramente do bem", disse meses antes de morrer. Uma força que está pronta a ser (re)descoberta, em cada audição.

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