Shusaku Endo quis o seu museu na terra dos cristãos-escondidos

Sotome aparece no início de Silêncio, de Martin Scorsese, inspirado num romance homónimo do escritor japonês. Um litoral agreste que se transformou em local de peregrinação

Situado numa colina, o Museu Literário Shusaku Endo está virado para o mar de Goto, onde ficam as ilhas que serviram de refúgio para muitos cristãos durante a perseguição no século XVII. Para quem viu o filme Silêncio, estas são as paisagens da chegada dos dois jesuítas portugueses ao Japão em busca de Cristóvão Ferreira, o padre apóstata. Martin Scorsese filmou em Taiwan, mas foi aqui em Sotome que se inspirou, tal como antes dele o próprio Endo, autor do romance que serviu para o guião do realizador americano. Aliás, o local e a sua história, a 40 minutos de carro de Nagasáqui, impressionaram de tal forma o escritor que, apesar de nascido em Tóquio, cá foi instalado o museu que expõe os seus originais e outros pertences.

"Temos 30 mil peças doadas pela família, como manuscritos e até a secretária onde Shusaku Endo escrevia", explica a curadora Saori Kitamura, que acrescenta que o museu foi inaugurado em 2000, quatro anos após a morte do romancista, um dos nomes grandes da literatura japonesa mesmo sem ter recebido o Nobel como Yasunari Kawabata e Kenzaburo Oe.

Já parte de vários roteiros de peregrinação, sobretudo de turistas vindos da Coreia do Sul onde existe uma forte comunidade católica, o museu viu de repente o número de visitantes aumentar por causa de Silêncio, que está a ser exibido nos cinemas japoneses. "Em dezembro, os visitantes duplicaram em relação a dezembro de 2015. Em janeiro, quadruplicaram", conta Kitamura. E logo à entrada surgem cartazes sobre o filme de Scorsese, com uma palestra a estar anunciada para daqui a uns dias sobre o tema do Kakure Kirishitani, os "cristãos-escondidos", que mantiveram a sua fé nos dois séculos de isolamento do Japão ao mundo.

O museu tem apenas um piso, com um teto mais elevado ao centro, quase a lembrar uma igreja. Até a janela lá em cima recorre a vitrais. O catolicismo do escritor é evidente na exposição, pois entre as folhas originais de Silêncio e o violino que a mãe tocava, surgem uma Bíblia, um rosário, até uma imagem de Nossa Senhora. E entre as muitas fotografias com personalidades, uma é com João Paulo II.

Shusaku Endo nasceu em Tóquio em 1923. Pertencia a uma família abastada e acompanhou os pais quando estes se instalaram na Manchúria, parte da China então ocupada pelo Japão. Quando os pais se divorciaram, veio com a mãe viver junto de uma tia em Kobe. Terá sido essa tia a influenciar a conversão tanto da mãe como do adolescente ao catolicismo, que então se tornara parte da vida japonesa, como mostravam as novas igrejas construídas um pouco por todo o país. É o caso da de Oura, em Nagasáqui, a cidade que no século XVI tinha chegado a ser administrada pela Companhia de Jesus.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Shusaku Endo teve de suspender os estudos universitários e trabalhar numa fábrica de munições. As duas bombas atómicas americanas, que terminaram a Segunda Guerra Mundial em 1945, abalaram a sua fé, até por coincidências trágicas como a destruição da catedral de Urakami com a explosão de 9 de agosto em Nagasáqui. Essas dúvidas estão de certa forma expressas em Silêncio, livro de 1966, que teve em 1971 uma primeira adaptação cinematográfica pelo japonês Shinoda Masahiro, também relembrado neste museu, onde uma televisão passa excertos da película. O realizador português João Mário Grilo, em Os Olhos da Ásia, de 1996, também abordou a história de Cristóvão Ferreira, interpretado agora no filme de Scorsese pelo irlandês Liam Neeson.

O filme americano, ignorado pelos Óscares, deu nova popularidade a Silêncio no Japão, apesar de muita gente recordar-se de o ler na juventude, mesmo sem ser parte do currículo escolar. Mihoko Oka, professora na Universidade de Tóquio, confirma o renovado interesse, que não sabe se é "verdadeiro ou apenas moda". Segundo esta historiadora, conhecedora da presença pioneira portuguesa na Japão, "vai--se agora a qualquer livraria e encontra-se um espaço reservado só a Silêncio e a livros com a temática dos cristãos perseguidos e da presença europeia a partir de 1543".

"É um filme que em geral respeita a verdade histórica e que mostra como foi preciso muita repressão para acabar com uma fé que chegou a ter centenas de milhares de seguidores no Japão", conta o padre Renzo de Luca, o jesuíta argentino que dirige o museu do Santuário dos 26 Mártires de Nagasáqui, que recorda a chegada do cristianismo com São Francisco Xavier em 1549. Esta colina, onde a 5 de fevereiro de 1597 foram crucificados 26 cristãos, é um dos locais que mais impressionam quem conhece a história da perseguição feita pelos xóguns em nome da unidade japonesa. Shusaku Endo não terá sido exceção, mesmo que a ele, como a outros, servisse um pouco de consolação que Nagasáqui tenha hoje umas dezenas de milhares de cristãos que vivem em paz com os compatriotas xintoístas e budistas.

O DN viajou a convite do MNE do Japão

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