Será que La La Land vai bater o recorde de onze Óscares?

Serão os Óscares deste ano uma montra das clivagens da América de Donald Trump? Ironicamente, todas as previsões apontam no sentido de uma espetacular consagração de "La La Land", um filme que celebra a felicidade abstrata do género musical.

Quem vai ganhar os Óscares? A pergunta está longe de ser meramente cinéfila. Há quem a formule com calculadora na mão. As apostas nos prémios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não terão a mesma dimensão do futebol ou das corridas de cavalos, mas os números podem ser sugestivos.

Este ano, o contundente favoritismo de La La Land parece contrariar a possibilidade de grandes ganhos. Se consultarmos, por exemplo, o site britânico SkyBet (ligado à rede Sky de canais de televisão), ficamos a saber que o maior risco - e a maior vantagem - está do lado do filme de Denzel Washington, Vedações. Quem apostar dez libras na possibilidade de, na madrugada de domingo para segunda-feira, esse ser o consagrado como melhor filme de 2016, receberá nada mais nada menos que 1510 libras. O mesmo valor investido em La La Land terá como retorno só 11,43 libras.

Goste-se mais ou goste-se menos, este ficará como o ano de La La Land. Depois de várias décadas a ouvirmos muitos frequentadores regulares das salas escuras a proclamar que os musicais, com toda aquela gente a cantar e dançar, seriam uma coisa falsa e absurda, eis que o argumentista/realizador Damien Chazelle conseguiu resolver a quadratura do círculo: La La Land é, de uma só vez, um paradoxo cultural, um fenómeno de moda e um sólido sucesso comercial - as receitas globais já chegaram aos 350 milhões de dólares, feito tanto mais espetacular quanto o orçamento foi de apenas 30 milhões, valor abaixo dos gastos numa produção de rotina de um grande estúdio (um eventual Óscar de melhor filme deverá acrescentar, no mínimo, mais 100 milhões a estes números).

Com as suas 14 nomeações, La La Land conseguiu, para já, igualar um recorde da Academia. Até agora, apenas dois filmes tinham obtido esse número de candidaturas às estatuetas douradas: Eva (1950), de Joseph L. Mankiewicz, e Titanic (1997), de James Cameron. O segundo, com 11 Óscares, é um dos recordistas de prémios - apenas Ben-Hur (1959), de William Wyler, e O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei (2003), de Peter Jackson, conseguiram a mesma proeza. Ganhando em todas as categorias (hipótese em que, convenhamos, ninguém acredita) La La Land acumulará 13 Óscares (tem duas nomeações na categoria de melhor canção).

Como falar de Trump?

Há em tudo isto uma perversa ironia que, por certo, irá deliciar os futuros historiadores, não apenas de Hollywood, mas das dinâmicas sociais e políticas da própria América. De que falamos? Do fator Trump, como é óbvio.

A questão, entenda-se, não decorre apenas da tradicional especulação sobre o tom a adotar pelo apresentador da cerimónia. Ou seja: de que modo Jimmy Kimmel (estreante nestas funções) vai referir-se a Donald Trump? Sem esquecer, claro, que o presidente tem sido tema recorrente do seu show na ABC (Jimmy Kimmel Live!). Por exemplo, no dia seguinte à já lendária conferência de imprensa de Trump (com 77 minutos de duração), Kimmel fez notar que o seu tom era o mesmo do pai que "encontrou um maço de cigarros escondido no nosso colchão..."

A questão é saborosamente desconcertante: será que numa América todos os dias mais dividida perante as ações e decisões do seu presidente, os Óscares vão consagrar o ecumenismo musical e a felicidade abstrata de La La Land? Não se trata, entenda-se também, de lançar qualquer dúvida sobre a honestidade do trabalho de Damien Chazelle, muito menos sobre a legitimidade da sua eventual vitória (aliás, ele procurava financiamento para o seu argumento desde 2010). Trata-se, isso sim, de notar que a própria Academia, tão marcada nos últimos dois anos pelos dramas decorrentes da (falta de) representação dos afro-americanos nas nomeações, pode estar à beira de secundarizar todos os filmes que, finalmente, parecem atenuar tais clivagens.

A questão das audiências

Convém, por isso, lembrar que entre os nomeados para o Óscar de melhor filme encontramos três títulos que remetem, justamente, para temas e problemas da história dos cidadãos negros no interior da história mais geral dos EUA.

Elementos Secretos, mesmo se genericamente reconhecido como o mais convencional, lida com uma conjuntura de profundas ressonâncias simbólicas: as personagens centrais são mulheres afro-americanas que, através da sua formação científica, e apesar de segregadas no dia-a-dia, deram um contributo decisivo na planificação das missões espaciais da NASA no começo da década de 1960.

Há ainda Moonlight, de Barry Jenkins, encenando em três tempos (e com três atores diferentes) a evolução dramática de um jovem, e Vedações, a partir de uma peça clássica de August Wilson, centrada numa família afro-americana de Pittsburgh, na década de 1950, com Denzel Washington na dupla qualidade de ator e realizador.

Apesar de todos estes dados é provável que, do ponto de vista da Academia, o essencial tenha muito pouco que ver com quem vai ganhar (ou perder). Na verdade, em anos recentes, um dos problemas centrais da cerimónia dos Óscares tem sido a sua quebra de audiências televisivas nos EUA.

É certo que, entre as diversas cerimónias de prémios da indústria do entertainment, a dos Óscares continua a ser a mais vista pelos espectadores. Em todo o caso, nos últimos oito anos, tem havido uma baixa regular. Em 2016, por exemplo, o espetáculo apresentado por Chris Rock foi acompanhado em média por 34,3 milhões de pessoas (contra 36,6 no ano anterior); apesar disso, registou uma ligeira subida no setor dos 18-34 anos, também ele vital na vida comercial das salas escuras. Resta saber se a esperada consagração de La La Land poderá traduzir-se num triunfo para o mercado televisivo americano.

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