"Ser escritor é fascinante mas inspira muita compaixão"

Fala como se estivesse sempre surpreendido com a realidade onde lhe aparecem personagens que "sinceramente, parecem saídos dos meus livros". Não dá gargalhadas sonoras, apenas um pequeno sorriso acentua este espanto

Conhece Portugal como poucos, graças a um grande amigo, o editor Hermínio Monteiro (1952-2001). Acaba de publicar Mac e o seu contratempo (Ed. Teodolito), que parte de uma situação inconveniente: um ventríloquo que tem apenas uma voz. Daí nasce mais uma obra de deambulações por Barcelona, entre a narrativa e o ensaio, onde entram episódios que viveu -como o delirante caso do pequeno pássaro que se enfiou num buraco da sua estante. Enrique Vila-Matas, nascido em 1948 em Barcelona, autor premiadíssimo de uma extensa obra literária, veio a Portugal para participar no Lisboa e Sintra Film Festival.

O escritor é um ventríloquo?

Normalmente sim. Ele quer criar as diferentes vozes das suas personagens e ao mesmo tempo ter uma voz própria. Mas todos somos ventríloquos, ao longo das 24 horas do dia. Montaigne foi um dos primeiros a ver isso. Somos muitas pessoas, pessoas que mudam, e não sabemos qual é a nossa verdadeira identidade. Fernando Pessoa parece ter sido o primeiro a dizê-lo deste modo. Somos complexos e passamos a vida a tentar saber quem somos, ou a não tentar porque nos faz medo. Não sei se seria muito interessante saber tudo.

O escritor tem de ter uma voz própria?

Escrevi este livro trabalhando sobre um outro que escrevi há 30 anos, chamado Una Casa para Siempre [1988].

Creio que não está publicado em Portugal.

Não está traduzido em português. Ria-me da ideia da voz própria a que os escritores aspiram. Para quê escrever se não se tem uma voz própria? Voz própria significa um estilo determinado, um mundo que se distingue dos demais, uma visão do mundo definitiva e muito própria. Talvez eu quisesse ridicularizar essa ideia porque ainda não a tinha. Então usei o caso deste ventríloquo que tem apenas a sua própria voz, o que para ele é um inconveniente. Tenho um livro chamado Perder teorias [2010, Teodolito] em que defendo que nenhuma teoria sobre a literatura é verdadeira. Há pessoas dogmáticas que defendem posições mas não há um dogma perfeito. Sempre que há uma verdade, há uma contra-verdade. Há sempre algo que desmente aquilo em que acreditávamos. Na ciência é o mesmo, nunca se chega uma conclusão.

Passados 30 anos, acha que tem uma voz própria?

Sim. Para o bem e para o mal. É um mundo próprio. Tenho trabalhado, quase desde o princípio, uma obra de autor. Um livro liga-se a outro e todos juntos formam uma espécie de tapeçaria. Disparo para vários lados mas as peças vão-se juntando e cada livro sai de um outro. É uma obra que gira em torno das minhas obsessões. Num livro como Mac e o seu contratempo há a repetição do tema. Esta repetição é um movimento para a frente, progressista, enquanto e a nostalgia é um movimento para trás. A história da literatura seria o que conta Mac e o seu contratempo, a repetição de um conto inicial. Alguém conta uma história e essa história vai-se modificando sem variar demasiado até chegar aos nossos dias, na forma de conto ou de romance, ou de soneto, mas é sempre a mesma que se vai repetindo. Todos somos obsessivos a repetir mundos. Leio muito autores obsessivos, são os que me interessam mais. Os mundos de Thomas Bernhardt, de Kafka, de Lobo Antunes, de Tavares...

Gonçalo M. Tavares?

Sim, leio-o muito, li-o desde o princípio. Tenho praticamente todos os livros, num corredor, e sempre que passo por lá vejo toda a obra dele. Impressiona-me muito. Há um caso parecido, o de César Aira, da Argentina. Também tem muitos livros acumulados e muito interessante como autor. É a fórmula de Simenon.

Qual é a fórmula de Simenon?

É fazer muitíssimos livros curtos. E toda a gente lhe dizia "és um génio, tens de escrever um romance". E ele dizia: "Não me compreendem, o romance é este que estou a fazer com os livros curtos, não faz falta o grande romance".

Como uma tapeçaria?

Sim. Patrick Modiano faz o mesmo. Todos os livros são em torno de Paris, noutra época, e são sempre distintos. Outro autor catalão é Juan Marsé que também não se move do bairro onde se passam as suas histórias, nunca mudou de bairro. As pessoas pensam que não muda nada, mas em cada livro há mudanças enormes. Marsé contou-me que um dia ia num táxi, no México, e o taxista apontou para um anúncio que dizia: "A mesma cerveja mas diferente". Perguntou ao taxista o que significava aquilo, e ele respondeu: "É que é a mesma cerveja mas diferente". Na vida é assim: é sempre o mesmo mas, ao mesmo tempo, é diferente.

E a sua Barcelona mudou muito?

Conheci muitas barcelonas em diferentes períodos. Conheci a Barcelona dos anos 1950 e tenho muitas recordações, sou uma pessoa com memória. Era a Barcelona dura, pura e seca do pós-guerra. Uma vez vimos uma pessoa negra e outra vez vimos um japonês. Só havia um vagabundo, visível à saída da missa. Era um lugar mínimo, com poucas pessoas, muito católico. Tenho essa cidade muito presente. Os anos 1960 foram para mim a revolução, a realidade dos movimentos, a explosão da busca da liberdade. Enfim, cada década teve características próprias. Os anos 1980 foram a explosão dos Jogos Olímpicos. Eu estive sempre contra os Jogos Olímpicos, por espírito de contradição, nada mais.

Porquê?

Porque toda a cidade estava entusiasmada com o desporto e a mim isso parecia-me uma tonteira.

Mas a cidade mudou nesses anos.

Reconheço que as mudanças que vieram com os Jogos foram muito boas para a cidade. Mas começou a aparecer uma onda de turismo extraordinária e agora estamos a pagar isso, como acontece em Lisboa, com o desalojamento das pessoas dos bairros. Em frente ao mar, encontras montes de gente, como aqui em Alfama. É um escândalo. Uma vez, em Barcelona, o Hermínio Monteiro foi a Barcelona com uma comitiva portuguesa, com o Presidente da República e tudo. Foram lá para aprender como Barcelona tinha feito com os Jogos Olímpicos. Fui com eles a um cocktail e disse-lhes: se aprenderam alguma coisa vai ser um desastre como o nosso. Lembro-me de falar com o Presidente, o único presidente com quem falei em toda a vida.

Quem era?

Um intelectual, um senhor muito discreto.

Jorge Sampaio?

Sim. Eu estava a olhar para as pastas [doces típicos] e ele estava sozinho e ele perguntou-me quais eram as secas e as frescas. Nunca poderia imaginar que um presidente me faria uma pergunta destas. E eu não sabia responder e indiquei-lhe umas.

E era verdade?

Não. Foi muito estranho, estive a falar com o Presidente de Portugal sobre pastas. Fico contente por Lisboa também ter prosperado. Mas tudo tem a sua contrapartida e no caso de Barcelona o turismo é superior ao daqui. Em Barcelona quase não se pode viver em nenhum bairro, e não se pode falar contra porque muita gente vive do turismo. Eu vivi perto do Parque Güell e tive que deixar porque ao sair de casa tinha autocarros de turismo à porta, japoneses que fotografavam a casa.

As coisas banais, como as pastas, têm um papel na sua literatura.

Tudo é digno de ser narrado, tudo o que é autêntico é narrável. Mesmo quando se diz que não acontece nada, há sempre coisas que acontecem, continuamente, se uma pessoa quiser observar. Quando estou a escrever, saio à rua talvez uma vez a cada três dias e há tantas coisas que acontecem em cinco minutos que regresso imediatamente.

Porque é mais do que queria?

É mais do que queria, porque me encontro com muitas pessoas diferentes que me falam de muitas coisas diferentes. Volto a casa horrorizado porque saí só cinco minutos e que barbaridade! Dantes não me acontecia isto. Um dia destes saí e apareceu uma enfermeira que trabalha com o médico onde vou uma vez por ano e que vive muito longe, um companheiro do colégio e um comentador desportivo...

Todos?

E todos me falaram! Mac e o seu contratempo apresenta um bairro que faz parte da minha imaginação mas que é um bairro real, que com a crise foi invadido por uma série de personagens como os vagabundos, os sem-abrigo. Alguns falam muito comigo e parecem saídos dos meus livros, sinceramente.

Coisas dessas acontecem na sua vida e nos seus livros constantemente?

Se as procuro, não acontecem, mas se não as procuram acontecem muito. Se saio à rua para comprar pão e um jornal, acontecem coisas.

E está atento a esses pormenores?

Sim, dou muita importância, se não não as contaria. O Mario Levrero [1940-2004], um escritor uruguaio, conta num livro uma coisa muito interessante. Diz que houve uma época em que escrevia contos e não os publicava porque lhe parecia que tinham sido escritos por outro. Pensava que outro tinha escrito e ele tinha copiado sem saber. E então escreveu um conto em que sai à rua, uma espécie de plateau de cinema, e tudo está organizado. O carpinteiro fala com ele mas ele nota que é tudo uma construção fictícia montada por alguém para ele. Ele não sabe o que eu conto, porque já morreu e não me leu, mas a mim acontece-me o mesmo. Ele dá até um nome ao autor do conto, diz mesmo "não fui eu que escrevi este conto". Há um filme americano precisamente sobre uma pessoa que vive num cenário, num concurso de televisão [The Truman Show, 1998, dir. Peter Weir, com Jim Carey]. Ele tinha razão em pensar que o conto já tinha sido escrito, porque cada um de nós pode escrever o conto que quiser mas a sensação é a mesma, a sensação de que algumas coisas estão preparadas por alguém que dirige a obra e tu andas pelo bairro sabendo que te vão aparecer os personagens mais insólitos e não tens de achar estranho.

Essa é uma das suas obsessões?

Há uns dias estava sentado na livraria do meu bairro e entrou um miúdo chinês que vai lá todos os dias às quatro da tarde para ler. Tem 14 anos e gosta muito de ler. A diretora da livraria perguntou-lhe: conheces este escritor que escreveu muitos livros? E ele respondeu: não, não creio que seja escritor. E eu pensei, que insolente. Conheces algum escritor? Conheço César Aira. A diretora perguntou-me o que pensava daquilo, e eu disse-lhe que parecia saído de um conto meu, percebo muito bem como ele fala. No fim dei-lhe um livro meu para confirmar que era escritor. Ele olhou para a foto e disse: aqui tinha mais cabelo. A diretora pensava que isso me incomodava, mas ele fez aquilo com toda a naturalidade. Estou habituado a coisas destas, depois chego a casa e escrevo e é assim mesmo. Por exemplo, há um episódio em Mac, quando um pássaro entra na minha casa.

O episódio é real?

É um episódio totalmente real. Entrou, caiu num buraco da estante e foi parar ao chão, lá no fundo. Parece uma história de Borges, um pássaro que vai morrer a uma biblioteca. A minha mulher disse que não podia morrer ali, que era um horror ter um pássaro a decompor-se dentro de casa. Aí começam as minhas chamadas para a polícia urbana. Primeiro pensaram que queriam tirar-lhes a pistola, olhavam sempre para trás. Depois subiram e começaram a chamar o pássaro com sons, para ele subir. Havia um guarda mais velho pendurado no teto. Não conseguiram. Fomos procurando e finalmente veio alguém da câmara que gostava muito de pássaros e esteve quase a desistir porque era muito difícil. Usou um cesto para resgatá-lo, esperou que se colocasse a jeito e conseguiu tirá-lo, ao fim de 80 minutos. Enquanto o pássaro estava no buraco - esteve lá um dia inteiro - eu escrevia. Eu estava entre a estante e a janela, e o pássaro comunicava com os pássaros lá fora, e eu a escrever no meio. Acabei por ficar com carinho por ele, notava a sua ausência quando se foi embora. É uma história louca. Mas o que é estranho é que para que a história acontecesse ele tinha de cair por um buraco mínimo que havia lá em cima e que eu nunca tinha visto. O meu irmão é que tinha montado as estantes disse-me que era preciso desmontar tudo, era essa a solução, mas isso é porque ele se dedica aos negócios e queria mostrar que aquilo estava bem feito. Em todo o caso, foi melhor tirá-lo de lá. O especialista em animais dizia que ele não conseguiria sair sozinho, a não ser que aparecesse uma ratazana e se assustasse, porque quando os pássaros estão confortáveis não se mexem.

É um pouco angustiante.

A pessoa da câmara era toda ecologista, pelos direitos dos animais, e eu tive de passar por defensor dos direitos dos animais, dizia-lhe que não estava certo que o pássaro sofresse ali. Tive de fingir que era muito animalista.

E não é?

Sim, mas apenas ao nível do correto. Era um papagaio argentino (cotorra), vêm da Argentina. Os argentinos têm fama de falar muito, como os papagaios, falam sem parar. Isto foi um facto casual que se tornou num relato. Mas não tive de acrescentar nada, foi mesmo assim.

Porque a realidade é muito criativa?

Sim, e a irrealidade não.

Cita no livro a frase "a criatividade é a inteligência a divertir-se".

Sim, não podia estar mais de acordo. A frase é de Einstein.

Tem um tesouro extraordinário de citações.

Há amigos meus que acham que eu tenho um dicionário de citações, mas não. Estou a escrever sobre um personagem que tem um arquivo de citações. É um subordinado do autor literário, trabalha para um autor para lhe dar citações e está desvalorizado porque tem um salário baixo, muito barato, porque é um intertextual. É um emprego que não é reconhecido, não há sindicato de distribuidores de citações.

Tem um arquivo pessoal, mental, de citações?

Há muitas frases que, como toda a gente, sublinho e depois copio-as para um documento word, um cemitério de frases porque não as utilizo, vou colocando ali. Uma vez publiquei esse cemitério de frases, um texto que se chama Lo descartado, na revista Granta. Disseram-me: Não podias dar-nos algo mais teu e não aquilo que descartas? Respondi: Mas a graça está nisso, em dar importância ao que jamais cumprirá a sua função. Pensaram que lhes tinha dado uma coisa depreciativa, o que me sobra, porque ainda por cima enviei-lhes o título com um caixote do lixo. Ele dá-nos o que põe no lixo...

Cita oura frase, creio que de Malamud: "Saber como continua ou não é indiferente".

Sim, é de Malamud. É quando ele está acabado como escritor e diz isso a Philip Roth.

Para si é indiferente saber como continua um livro, como termina?

Prefiro saber como continuar. Mas no caso de Malamud é uma circunstância concreta contada por Philip Roth, com muita má vontade, porque conta isso para mostrar que ele é um escritor acabado, quer provar que ele falha porque já não pode escrever.

A má vontade está em contá-lo?

Sim, em contá-lo. Porque é mais jovem e ele é o seu mestre que lhe mostra uma folha e não sabe como continuar e diz que não interessa como continuar.

Portugal está muito presente na sua obra. Conhece bem o país, incluindo a Madeira...

... e os Açores.

...Porto, Lisboa, Évora. Vem cá muitas vezes?

Houve uma época muito importante da minha vida em que vim muito a Portugal, Agora também venho, mas nessa época vim por razões editoriais e pela minha amizade com o Hermínio Monteiro, um apaixonado por Portugal. Estava tão empenhado em mostrar-me o país que numa noite estávamos na foz do Douro, no Porto e eu dizia-lhe: percebo que gostas muito de Portugal mas eu neste momento não vejo nada. Tinha tanto entusiasmo! Um dia fomos a Amarante, visitar a casa de Pascoaes. No livro em que estou a trabalhar, do homem das citações, falo da casa de Pascoaes onde há um jardim com uma espécie de cabine telefónica onde Pascoaes se metia nas noites de tempestade para escrever poemas trágicos. Isso ficou-me gravado para sempre, e situei aí uma ação deste livro. Utilizo-a para dizer que se perdeu o sentido da tragédia, já não se escreve poemas trágicos no meio da tempestade. Antes, a relação do homem com Deus era muito atormentada, mas também era muito densa e desbragadamente trágica e se foi banalizando. Tal como a autoridade dos pais tem a ver com a ausência de deus. Não se educa os filhos na autoridade. Um filho tem de odiar o pai, é muito importante que o filho odeie o pai para que, depois de se separarem, esse ódio acabe e continuem a vida.

O que escreve é romance ou ensaio?

Conta menos a trama, contam mais as reflexões, a parte ensaística. A minha voz é mais de ensaísta que de narrador. Por isso faço muitas citações, porque introduzi a reflexão através de uma voz ensaísta, e assim o relato não tem de ser completamente verosímil. Um distribuidor de citações é um pouco inverosímil. O autor contrata-o para comprar o seu silêncio.

Há alguma ligação entre o seu universo e o de Cortázar?

Sim, é possível. O júri do Prémio Juan Rulfo de 2015 disse que eu era herdeiro de Cervantes, Laurence Sterne e Cortázar. Confesso que como disseram Cervantes e Sterne eu estava entusiasmado e quando ouvi Cortázar pareceu-me menos...

Porque não gosta?

Sim, mas ao lado de Cervantes e Sterne... Gostei muito de Cortázar quando comecei a escrever. É um escritor para gente jovem. Escreve de uma maneira que parece fácil, porque o estilo é muito coloquial. É dificílimo. Ele tem um ritmo da frase muito quotidiano, muito próximo, e isso é ideal para gente jovem. O meu primeiro livro parecia-se um pouco com o mundo de Cortázar no estilo. O meu editor, que foi o homem que publicou Cem Anos de Solidão, o homem que descobriu García Márquez - que começou por ser recusado em Espanha - sempre me disse que me considerava um escritor mais sul-americano do que espanhol, porque tinha este mundo de literatura fantástica sem ser fantástica. Dizia que eu era melhor compreendido no Rio de la Plata, como Bioy Casares ou Cortázar, do que no mundo em que eu me movia, o mundo hispânico. Há a ideia de jogo em Cortázar, que também está em [Georges] Perec. Eu sinto-me mais próximo de Perec mas pertenço a este tipo de escrita em que me sinto muito feliz, não o faço sempre assim mas sim, sinto-me à vontade aí.

Escreve todos os dias?

Se não escrevo tenho um problema de vazio e de angústia. De alguma forma, dá sentido à minha vida. O amor e o trabalho são as duas coisas que aguentam todo o edifício vital. Não fazer nada, ou fazer apenas artigos e não escrever um livro, dá-me angústia ao fim de uns meses. Tenho de pegar noutro, nem que seja para eu saber que estou a fazê-lo. Mesmo que o livro depois não venha a sê-lo, preciso de saber que tenho um projeto. Porque se tens uma ideia pela frente, uma visão de futuro, é muito diferente de não teres. Não sei viver sem projetos, sem algo pela frente além do dia-a-dia.

Poderia ter sido outra coisa que não escritor?

Não se saberá nunca. Em criança não se vislumbrava nada, nem mesmo escrever. Não se pode dizer que a escrita é inata em mim. Creio que encontrei uma forma de poder ficar sozinho no verão. A minha família ia para a praia e para mim era muito pesado ficar quatro horas a apanhar sol, e meter-me dentro de água e sair, entre a água e o sol. Então inventei que queria ler e tinha sempre um livro, mesmo que não lesse, mas isso permitia-me afastar-me da família. Ficava sozinho com as minhas coisas, a ler, a pensar, a escrever algo. Isto com 14 ou 16 anos. Então pensei que os escritores se afastam da família mundial, do mundo, para escrever precisamente sobre o mundo que deixaram. São horas de solidão. Creio que escrevemos para nos afastarmos do mundo e poder comentá-lo. Mas precisamos de conhecer o mundo para poder comentá-lo, e isso obriga-me a sair dos retiros para continuar ligado ao mundo real. É um trabalho estranho. Paul Auster disse-me que escrevo muito sobre escritores porque tenho compaixão por eles. E desde então tenho andado às voltas com esta ideia. Porque sei que ser escritor pode ser fascinante mas também inspira muita compaixão. É um trabalho muito solitário, muito difícil e daí que sinta curiosidade por saber como os outros ou as outras resolvem isso, como fazem. E então espio-os, sempre que sejam interessantes.

Espia?

Leio muito as entrevistas de fundo que lhes fazem, na The Paris Review, por exemplo, essas entrevistas onde se explica tudo, os momentos de dúvida. Tenho aqui uma entrevista do Emmanuel Carrère ao El País que me interessa muito. Ele diz que passou por um momento difícil em que não tinha nenhum projeto, o que tem a ver com aquilo de que falámos. Impressiona-me muito porque tem uma obra impressionante. E é verdade, isso acontece, há momentos em que não se passa nada. Uma pessoa não tem que escrever sempre. Interessa-me muito saber como é, quando corre bem e quando corre mal.

O que pensa do que se está a passar na Catalunha?

Faça-me uma pergunta mais concreta.

Acha que a independência é realmente um projeto que pode avançar? E pode avançar com Puigdemont?

Tudo consiste em ter o poder e os votos. Na Catalunha encontraram um sistema em que conseguiam muitos votos se fossem muito catalães. E em Madrid encontraram um sistema em que conseguiam os votos de Espanha se estivessem bem com todos menos com os catalães. Dois partidos muito corruptos, um em Madrid e outro em Barcelona. A Convergencia em Barcelona e o PP em Madrid estão há oito anos no poder, com esta discussão entre eles - Catalunha/Espanha - e continuam a ser os que têm os votos. São sistemas para conseguir votos. Desde que começou esta discussão, não se mexeram da mesma casa, têm os mesmos ponto.s Antes Madrid fazia-o com a ETA e com o País Basco, havia terrorismo e eles tinham os votos do resto da Espanha contra o terrorismo. Agora Madrid fez o mesmo. Na Catalunha ganharam porque disseram que se conseguiria facilmente a aprovação da Europa. Quando perguntava: "Mas a Europa vai aceitar?", diziam - "esse é o discurso do medo". São as velhas histórias do poder. Não se pode sintetizar este problema político. Encontraram um sistema para ter sempre os votos fieis e conservar os seus postos de trabalho. Gente bastante inepta, de um lado e do outro. Perguntam-me: é independentista ou não? É uma pergunta terrível porque é como se me perguntassem "gostas deste piano ou não?" Não tenho de definir-me sobre isto. Tenho de pensar. É incómodo porque provoca uma divisão numa sociedade que foi sempre muito interessante e a divisão chega até às famílias, aos vizinhos. Devemos pedir responsabilidades tanto aos políticos de Madrid como aos da Catalunha, a todos, por isto. Porque todos pagamos impostos para que nos facilitem uma vida que já é difícil e eles complicaram-na muito. E perversamente. É muito difícil discutir com alguém que tem uma ideia separatista, porque não muda nada. O contrário não é ser espanholista, é simplesmente estar no meio. E é muito difícil estar no meio porque te insultam por não estares num lado nem no outro.

Acha que é, então, uma questão artificial?

Foi só para se manterem no poder. Mas isso ninguém diz porque os políticos, como todos querem o mesmo, não podem acusar o outro de fazer isso. Fizeram para manterem os seus postos de trabalho. Dirão que isto é um pouco frívolo, mas não, porque o que se tentou com a declaração de independência falsa foi que o estado espanhol se enganasse e reprimisse muito mais, e então ganhar mais votos e cada vez mais para manter o poder. Essa foi a estratégia, usando as pessoas como escudos humanos. É difícil falar disto porque é muito complexo. Em Espanha agora começamos a saber o que se passou, embora pouco. O momento em que tudo muda é quando Artur Mas, presidente da Catalunha, teve de descer de helicóptero para ir ao Parlamento, porque o Parlamento estava rodeado pelos Indignados. Começa aí. Os catalães partidários de Artur Mas dizem que começou antes, quando o Partido Popular cortou o estatuto. Há sempre um antes, claro. Mas enquanto se fala do tema catalão não se fala de outros temas, da corrupção de Madrid nem da corrupção da Catalunha, porque também estes estão por julgar, os mais escandalosos. E não se fala da situação económica das pessoas, isso não aparece nos jornais.

Há uma cortina de fumo?

Sim. É como quando dizias mal de Franco e portanto eras contra a Espanha. E quando dizes mal do presidente do Barça, estás a ser contra o Barça. O tema não é a independência, está muito longe disso. O tema é o dinheiro e o poder, sobre a independência já não se fala. Eu não tenho nada de não catalão, isso é claríssimo para mim. Nas manifestações de Barcelona vi pessoas enroladas em bandeiras espanholas e isso vai aparecer no livro que estou a escrever. Dei por mim numa situação muito significativa e simbólica. Eu tinha ficado num sítio central da cidade, onde a minha avó tinha vivido, era um lugar familiar, e estava rodeado de gente com bandeiras espanholas. Nunca tinha visto uma coisa assim. Jamais na época de Franco havia bandeiras espanholas. Nunca. Não estou de acordo com o movimento catalão, mas também não estava nada contente com estas pessoas que estavam à minha volta. Há um ano se estivesses com uma bandeira espanhola tiravam-ta e matavam-te.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".