Senhoras e senhores, Nick Cave. Are you ready?!

O DN viu e ouviu em Londres aquilo que o australiano e os Bad Seeds podem apresentar hoje no Porto. Só Kylie Minogue (sim, ela) deve faltar à chamada

No regresso ao anfiteatro mágico do Parque da Cidade, no Porto, este sábado à noite para o Nos Primavera Sound, o público espera que Nick Cave traga na bagagem o seu mais recente trabalho com a sua band seeds que é Skeleton Tree, álbum no qual o australiano que há anos reside no Reino Unido faz a expiação a morte do filho Arthur, no verão de 2015.

Este Skeleton Tree só aparentemente é o pretexto imediato nos concertos de 2018 (e o do Porto é o quarto, depois de Barcelona, Londres e Dublin): nas 14, 15 canções que Nick Cave levou ao palco, o seu último álbum tem dividido as atenções com Let Love In, do já longínquo ano de 1994.

Não sendo uma liturgia festiva, mas antes um espanto permanente pelo sobressalto que é cada uma das canções do álbum de 2016, Nick Cave and The Bad Seeds trazem-nos uma celebração emotiva e elétrica, com descargas sucessivas de adrenalina num equilíbrio perfeito entre a solenidade de "Jesus Alone", que abre Skeleton Tree e o concerto, ou a ferocidade de Stagger Lee, de Murder Ballads (1996) - pelo menos a avaliar pelo concerto a que o DN assistiu no domingo passado no Victoria Park, na zona leste de Londres, no encerramento do festival All Points East.

De fato preto e camisa branca, com o sol de um início de noite londrino ainda a banhar o palco (a pontualidade britânica não é apenas mania, mesmo num festival de música, com o concerto a começar rigorosamente às 20.55), Nick Cave abriu com Jesus Alone e Magneto, canções maiores do seu mais recente trabalho, e mostrando logo aí ao que ia como mestre de cerimónia: o corpo a acompanhar as palavras, as mãos a guiarem o coro de vozes dos milhares que o aguardavam e sistematicamente a procurar o contacto com todos os que estavam nas filas da frente. "With my voice/ I am calling you", comandou.

Com uma carreira já de 34 anos, com os Bad Seeds, matéria não falta a Nick Cave, cuja maior a dificuldade será essa de construir o alinhamento de cada concerto. Por isso, logo à terceira canção em Victoria Park, a banda mergulha no passado, primeiro com Do You Love Me? - a primeira da noite que se ouve do álbum Let Love In - e depois From Her to Eternity, do álbum inaugural de 1984. "Vou falar-vos de uma rapariga", antecipou Nick Cave, frase que já funciona como senha para antecipar os acordes pesados desta canção, que ganhou também uma nova dimensão orquestral com a condução discreta de Warren Ellis, que se dividia entre o piano e um violino demoníaco.

Curiosamente Ellis, responsável pela direção musical de Skeleton Tree, começou a colaborar com Nick Cave na gravação de Let Love In, e desde então tem ganho preponderância na definição do som do australiano e da sua banda. Não é de estranhar, pois, que no alinhamento londrino a adrenalina se tenha mantido com dois temas do mesmo álbum de 1994, Loverman (que andava ausente dos palcos desde 1999) e Red Right Hand, numa versão a roçar a perfeição.

Come Into My Sleep, uma surpresa que surgiu no alinhamento, talvez explicada por ser "a canção preferida de Susie", a sua mulher, como explicou o próprio, encaixou bem com outro tema do cânone "caveano" como Into My Arms e Girl in Amber. Uma trilogia que antecipou uma segunda parte eletrizante do concerto de Victoria Park, e onde Jubilee Street (extraordinária canção de Push The Sky Away, de 2012) foi a certeira antecâmara quase catártica para os temas alinhados para o final da hora e meia de espetáculo, com Deanna, Stagger Lee e Push the Sky Away.

Em Deanna, Nick Cave - que se aproximou durante todo o concerto do público, deixando-se tocar e tocando - começou a chamar os espectadores da frente para o palco, c'mon, c'mon, insistia ele, venham, venham, e dezenas foram para uma versão de Stagger Lee em que o diabo andou à solta, enquanto provocava o público. "Are you ready?!". "Then in came the devil, he had a pitchfork in his hand, said, "I've come to take you down", Mr. Stagger Lee", cantou Cave enquanto envolvia uma jovem.

Como antes tinha envolvido outra mulher, "ladies and gentlemen, Kylie Minogue", ela mesmo, de passagem por Londres, proporcionando assim uma interpretação rara ao vivo de Where The Wild Roses Grow, que empolgou um público sem preconceitos. "I should be so lucky", brincou na despedida Nick Cave, citando um dos hits descaradamente pop da australiana. Tivemos todos sorte. Hoje no Porto, será provavelmente a ausência que mais se lamentará. Mas Cave enche o palco com tudo o que importa: as canções. Are you ready?!

Outros nomes no cartaz do Porto

Antes de Nick Cave e os Bad Seeds subirem ao palco, é possível ouvir o r'n'b fresco de Kelela (palco Super Bock, 18.50) ou um dos novos representantes das palavras cantadas em português, Luís Severo, que exercita deliciosos autorretratos de amores e malandragens (palco Seat, 17.00). Neste palco, mas já bem mais tarde, quando provavelmente Nick Cave fechar a sua cerimónia, sobem ao palco os War on Drugs (23.40), para apresentarem as paisagens de A Deeper Understanding.

Madrugada fora haverá Mogwai (palco Nos, 00.45), em mais uma presença em palcos portugueses, mas talvez o mais acertado seja esperar pelo som de Arca (palco Pitchfork, 2.30), o produtor que Björk não dispensa e trouxe em 2017 um dos grandes álbuns do ano.

* em Londres

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