Quatro artistas para um cineasta. O regresso de João Botelho

Um olhar sobre a arte de dois pares de irmãos, artistas plásticos: João Queiroz, Jorge Queiroz, Pedro Tropa e Francisco Tropa

A arte não se filma, tateia-se. João Botelho sabe disso há muito e quando se propôs filmar quatro artistas contemporâneos não quis fazer um estado das artes plásticas dos dias de hoje nem quatro meros retratos. Quis fazer retratos de cinema. Quis e conseguiu. Quatro é um pequeno feito de cumplicidades artísticas. Um documentário com aquele sortilégio de viagem. Porque o cinema vai até onde a alma nos leva.

Os artistas em questão são os irmãos Queiroz, João e Jorge, e os irmãos Tropa, Francisco e Pedro. Com João partimos para a floresta e a câmara faz-nos sentir o toque das folhas. Arvo Part e Wagner ajudam-nos a perceber que é no bosque que as lições das formas tomam peso e medida. Jorge é um universo à parte, misturado por ópera e Miles Davis. Estamos no terreno da instalação de uma exposição, o lado B da arte antes de ser vista pelas pessoas. Enquanto isso, Pedro Tropa dá boleia a Botelho até ao cume das montanhas brancas. O fotógrafo é sobretudo um alpinista que inventa imagens e desejos. Com neve, com vertigem, com a materialidade dos sentidos. Em Gaia e Veneza (Murano), há bronze e vidro para Francisco criar e moldar. Partilha da arte mais ancestral, quase secreta.

Quatro é um filme aberto aos elementos da natureza e com uma infinita paciência tão cândida... O banho de imersão de arte leva uma duração justa e uma respiração própria em cada número. Botelho tem a perenidade de não querer explicar nem bisbilhotar a essência das obras de arte.

Montanha das ideias

Nota-se que há toda uma envolvência subtil nesse olhar de fora. Ainda assim, Pedro Tropa, um dos retratados, disse ao DN que um olhar de um outro artista é sempre desconfortável e explica porque quis levar João Botelho para as montanhas de Urriellu: "as montanhas são lugares mecânicos, operativos e circulares, assim as vejo há anos, são o motor para o trabalho de ateliê e é onde eu invento quase tudo. Levei - como se fosse um guia - o João e a sua equipa a dormir num abrigo de montanha onde a cozinha e os dormitórios são comunitários, foi lá também que eles inventaram o filme." O resultado soa a peregrinação transcendente.

Para o seu irmão Francisco, a regra do jogo era a câmara não o acompanhar para o ateliê. A ideia do artista a trabalhar no ateliê era algo que não o atraía mesmo... "o que é interessante é que a câmara do João nunca é invasiva. Mas em todos os filmes é óbvio que está lá o olhar do cineasta, sobre nós, sobre o nosso trabalho. No meu caso, é sempre uma surpresa ver o meu trabalho em diferido, mas agradou-me muito ele ter filmado mais as coisas da fundição em Gaia e dos mestres do vidro em Murano. Tenho um enorme fascínio pelos métiers, sobretudo pelos mais antigos - aprendo imenso a ver todos aqueles processos."

Jorge Queiroz fala em cumplicidade, em processo a dois: "...mas não deixou de ser algo estranho. Tinha de o ser...Foi uma surpresa pois o João Botelho tinha esse processo todo muito bem feito e tudo vem do olhar dele, de como ele vê a minha arte...Claro que muito nasceu de coisas que se foram fazendo mas diria que a base passou por um diálogo entre nós e de ideias de ambos. De qualquer das maneiras está ali o registo de um tempo, neste caso a feitura de uma exposição".

O cineasta e o artista

O seu irmão mais velho, João, não vai tanto pela cumplicidade. Diz--nos que tudo saiu da cabeça de Botelho: "ele conhece-me bem e à minha pintura e, por isso, levou--me para a floresta... Mas olho para o resultado e não deixo de ter sentimentos mistos... É sempre desconfortável ver-me ali... Seja como for, o processo foi muito engraçado, sobretudo no sentido de eu perceber como se constrói um filme destes que não é um documentário mas sim um ensaio cinematográfico, ou seja, não documenta. Foi fundamental que se deixasse que isto fosse uma visão de um cineasta sem nenhuma interferência da minha parte. Para mim, o filme é uma visão de um artista de um outro meio sobre o trabalho de outros artistas."

Quatro está em exibição no Cinema Ideal, em Lisboa, diariamente na sessão das 19.00.

Ler mais

Exclusivos