Precisamos de novos sonhos. Os U2 fazem-no com canções de 1987

O palco tem um ecrã panorâmico gigante que projeta imagens filmadas em Zabriskie Point e no parque de Joshua

Banda irlandesa chegou à Europa com a digressão comemorativa dos 30 anos do álbum "The Joshua Tree", um olhar que Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. atualizam sem ponta de nostalgia. É a América e o mundo de hoje que são projetados no imenso ecrã e nas palavras e sons de canções que são também manifestos políticos.

O ato é de celebração, as palavras são conhecidas e os gestos já muito ensaiados, mas há algo de refrescante no que ali se festeja: os U2 chegaram à Europa com a sua digressão que comemora os 30 anos do álbum The Joshua Tree e percebe-se que - retirada a carga nostálgica de recuperar um dos melhores discos dos irlandeses - faz sentido ouvir de novo Where the Streets Have No Name ou Bullet the Blue Sky. Uma e outra vez.

Estes tempos, antecipava a banda antes da digressão, parecem completar um círculo regressando ao período de Ronald Reagan/Margaret Thatcher com diferentes personagens. "The Joshua Tree assemelha-se de alguma forma a um espelho das mudanças que estavam a acontecer no mundo", dizia o baixista Adam Clayton. O ato é, pois, também político: os U2 nunca esconderam que olham de forma crítica para o mundo - e este álbum trintão conta-o por todas as espiras.

Em palco, em Londres (as duas primeiras datas europeias aconteceram no passado fim de semana na capital britânica), nas quase duas horas e meia de concerto, a banda também faz da encenação uma forma de luta: um ecrã panorâmico gigante projeta curtas-metragens realizadas por Anton Corbijn (responsável pelas fotos que acompanham o álbum de 1987) e filmadas nos californianos parque de Joshua Tree e Zabriskie Point, no vale da Morte.

Metáforas para estes dias. Em Where the Streets Have No Name, as ruas sem nome são uma longa reta que rasga o deserto com migrantes a caminharem sob o sol (e ali projetado com o sol ainda a fazer-se ver no Twickenham Stadium). Estes filmes são sobre "como pôr The Joshua Tree na América de hoje", explicou Corbijn à revista Mojo.

As quatro canções com que arranca o concerto - Sunday Bloody Sunday, New Year's Day, Bad e Pride (In the Name of Love) - são tocadas num palco mais pequeno, uma árvore de Joshua que entra pelo relvado de Twickenham, sem imagens no ecrã, remetendo assim para 1987, quando os espetáculos em estádios ainda não usavam a capacidade cénica de hoje. Apresentadas cronologicamente, estas canções de War e The Unforgettable Fire antecipam o álbum de 1987, mas também se inserem na linhagem política da banda irlandesa.

Larry Mullen Jr. é o primeiro a entrar para a bateria, pegando em The Whole of the Moon dos Waterboys (palavra-passe para o início do concerto), e marcando os ritmos com a abertura sincopada de Sunday Bloody Sunday, que serve para os elementos da banda irem chegando ao palco, mas que também serve, como explicou The Edge, "para deixar claro que banda é esta".

Quando arranca a interpretação na íntegra de The Joshua Tree, o ecrã do espetáculo concebido por Willie Williams assume também protagonismo no palco, transportando os cerca de 55 mil presentes para a América de hoje. "É importante para nós que isto não dependa de nenhum tipo de nostalgia. É um olhar fresco sobre estas canções, uma nova forma de as apresentar e aproveitar uma qualquer qualidade intemporal que tenham. Elas parecem ter ganho uma nova vida agora", confessava o guitarrista The Edge à Mojo.

Se ao longo destes 30 anos as canções de Joshua Tree foram ganhando outros contextos e mantendo um olhar fresco sobre a América e o mundo, basta chegar a Bullet the Blue Sky, que nasceu de uma viagem de Bono e da mulher à América Central das guerras civis violentas e dos esquadrões da morte dos anos 80 e que hoje podia ser cantada sobre a Síria.

"A música falava sobre os tempos e sobre o que estava a acontecer na cultura, de uma maneira que não se faz agora. Talvez no hip-hop haja um pouco mais", apontou o guitarrista nas páginas da Q. Ouvindo The Edge, é mais fácil de perceber o que se passa no concerto: Exit e Mothers of the Disappeared são retratos de um mundo que está ainda presente. Ou Miss Sarajevo, já a abrir um encore com sete temas mais recentes dos U2, que acaba por ser uma Miss Síria, Omaima, a jovem refugiada de 15 anos do campo jordano de Zaatari.

Há um verso em In God's Country que ajudou Bono a explicar este Joshua Tree tocado agora na íntegra nos palcos. "We need new dreams tonight." Precisamos de novos sonhos nos tempos que vivemos. Na terça-feira a digressão chega a Barcelona. Nesta noite e amanhã é a vez de Roma sonhar.

Em Londres

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