Posters de artistas voltam a tomar conta de Marvila

Entre barracões vazios, restaurantes e ateliês de artistas, a nova zona quente da cidade, Marvila, transforma-se em galeria de arte, de 25 artistas diferentes, entre os quais Sérgio Godinho.

"Achamos que o Facebook é bom, mas um poster continua a ter mais gente a ver", dispara, em jeito de provocação, Bruno Pereira, a pessoa por trás da mostra de arte pública Poster, que a partir de hoje, e durante um mês, se pode ver nas paredes de Marvila, a nova zona quente de Lisboa.

Esta é a segunda edição e Bruno Pereira, da agência criativa Departamento, resume-a assim para quem precisar de legenda: "Poster é uma mostra multidisciplinar de músicos, arquitetos, ilustradores, fotógrafos, designers, gente da publicidade..." Foram convidados 20 nomes, e selecionados mais cinco entre os 40 que responderam à Open Call. Entre eles está o músico Sérgio Godinho.

"Ele tem uma atividade plástica muito interessante, fotografa bué, até para capas de discos, mas não faz questão de que se saiba", refere Bruno Pereira. O seu trabalho pode ser visto numa das paredes da Rua Capitão Leitão - a fotografia de um pescoço de mulher, de costas, sob uma frase ambígua "Quem é ELA é Quem". Na mesma parede está Jessica Walsh, uma das artistas internacionais que participam no Poster. "Pensamos que os estrangeiros vão ser difíceis, mas são os primeiros a dizer que sim. Foi, explica, o que aconteceu com a designer do ateliê Sagmeister & Walsh e com os israelitas Broken Fingaz Crew.

O poster feito a partir de uma fotografia de Sérgio Godinho

Ao longo da Capitão Leitão, pode apreciar-se o trabalho do músico e ilustrador Pedro Lourenço, da artista e escritora Cláudia R. Sampaio, de Violeta Santos Moura ou dos arquitetos do Coletivo Warehouse, autores de um trabalho de post-its com várias informações e uma frase: "Participation is the new green." A participação é o novo verde.

O arquiteto Rúben Teodoro, membro do coletivo Warehouse, explica esta chamada de atenção. "Houve uma altura em que tudo era verde, agora tudo é participado, mas o que vemos é que depois não é assim tão participado. Lançamos a questão e devolvemo-la. Nós [Warehouse] fazemos processos participativos e fazemos esta questão a nós próprios", resume. Outro coletivo de arquitetos, Ateliermob, traz a crítica para a parede com uma frase: "Gentrifica-me mais à frente."

Pela Rua Capitão Leitão, em forma de U, Bruno Pereira, curador artístico do projeto ou, como ele prefere designar-se, "amplificador cultural", lidera a visita pelo bairro, barracões vazios que convivem com ateliês de artistas, restaurantes e galerias. O ateliê de Tomaz Hipólito e da arquiteta Helena Coelho são um desses locais que entraram como parceiro do Poster. Na fachada está o trabalho de Anna Balecho, um pouco mais à frente, a galeria Baginsky expõe o contributo do Museu Nacional de Arte Contemporânea, uma obra de Adriano Sousa Lopes.

Bruno Pereira conta que "queria explorar o vazio de Marvila". "Apaixonei-me um bocado por esta zona e também sentimos que a população vê e chega mais perto de nós." Neste ano, explica, os posters são maiores ("quase três metros e na parede parecem A3") e foram pendurados mais alto do que em 2016. "Houve um poster do mesmo gajo que tive de repor três vezes", conta Bruno Pereira. Neste ano, "vamos ver". "Se roubarem...", começa por dizer para logo corrigir: "Se retirarem, retiraram."

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