Pianos e fantasmas que voam enquanto dormimos

"Nocturno", espetáculo criado pela pianista Joana Gama e o coreógrafo Victor Hugo Pontes, é um dos destaques do Big Bang, festival de música para jovens, hoje e amanhã no CCB.

O que acontece quando a luz se apaga à noite? O que acontece enquanto dormimos? E se acordares a meio da noite será que tens medo de ir à casa de banho sozinho? Estas foram algumas das perguntas que o coreógrafo Victor Hugo Pontes e a pianista Joana Gama fizeram aos alunos de quatro escolas do Porto com que se encontraram durante o processo criação de Nocturno. As respostas que receberam - em forma de textos e desenhos - revelaram-se surpreendentes. "A realidade é muito mais aterrorizadora do que poderíamos imaginar", contam.

A história deste Nocturno começou há um ano quando Susana Duarte, programadora da secção "Mais Novos" do Teatro São Luiz, em Lisboa, convidou Joana Gama a criar um novo espetáculo para a infância. "Deu-me carta branca para fazer o que quisesse", lembra aquela que em 2008 venceu o prémio Jovens Músicos na categoria de piano e que desde então não tem parado de surpreender, trabalhando com coreógrafos e realizadores, e que no ano passado andou pelo país a celebrar os 150 anos do nascimento do compositor Erik Satie. "Tinha visto um espetáculo do Victor Hugo Pontes de que tinha gostado muito, Fall, e tive a intuição de que nos íamos dar bem, por isso decidi desafiá-lo."

Victor Hugo Pontes é também ele um criador que gosta de se desafiar - licenciado em artes plásticas, fez vários cursos de teatro e trabalha habitualmente como intérprete e coreógrafo em projetos que tanto podem incluir bailarinos da Companhia Nacional de Bailado (O Carnaval dos Animais) como atores não profissionais (como Todo o Mundo é um Palco, o espetáculo que Beatriz Batarda e Marco Martins estão a criar para os 150 anos do Teatro da Trindade, com estreia marcada para 17 de novembro).

Do encontro destes dois criadores poderia resultar qualquer coisa. "Sabia que tinha a Joana e um piano, mas não sabia mais nada", conta Victor Hugo Pontes, que tem a mania de começar os seus espetáculos pelo título. "Começámos à procura de palavras que tivessem a ver com música mas que também tivessem outros níveis de leitura e facilmente chegámos à palavra nocturno." O nocturno, explica Joana Gama, "é uma composição musical que ficou muito ligada ao Chopin. São as peças melancólicas do século XIX. Além disso, é uma palavra muito bonita e que tem leitura em várias línguas por isso é muito universal".

E foi com esta palavra e algumas ideias muito básicas que se apresentaram nas escolas para perguntar aos miúdos como é que são as suas noites: "Queríamos fazer um espetáculo sobre o que se passa à noite, mas não queríamos falar do lado bonito da noite, dos sonhos, mas antes do lado do terror, dos medos, o que é que se passa à noite que pode ser assustador".

À criação juntaram-se, entre outros, o bailarino Paulo Mota e o compositor João Godinho, autor de toda a música que é tocada ao piano neste espetáculo. E a partir daí foi sendo construída a história de um rapaz que acorda a meio da noite e que, na escuridão do seu quarto, se confronta com sombras e luzes, fantasmas e monstros. Os mais atentos encontrarão ali uma série de referências - desde o triciclo de Shining, o filme de Kubrick, até à faca ao bom estilo de Psycho, de Hitchock, passando pelos fantasmas parecidos com Casper , ou até pelo Calvin, dos comics de Bill Waterson, que acreditava mesmo que "há monstros debaixo da cama". Há aranhas gigantes e um esqueleto que parece mexer-se sozinho e acaba por ser mais engraçado do que assustador. Até porque o objetivo não é meter medo a ninguém, diz Joana Gama: "Queríamos falar do medo mas ao mesmo tempo mostrar que é a brincar. A manipulação é visível, nós revelamos como a ilusão é feita".

E o piano? O piano está lá, a princípio escondido, mas sempre a ser tocado pela Joana Gama, que tanto toca um verdadeiro piano de cauda como um piano de brincar, toca com luvas e até sem ver as teclas, porque ela é, como diz Victor Hugo Pontes, "uma pianista todo-o-terreno". "Acho que é interessante, principalmente para as crianças, que ainda não têm aquela ideia tão formal do que é um recital, mostrar-lhes que há várias possibilidades e que se pode tocar sentado no chão com os braços no ar, ou que se pode tocar nas cordas", explica ela.

Depois da estreia, em março, no São Luiz, Nocturno tem andado em digressão pelo país e é apresentado hoje e amanhã no festival Big Bang - Festival Europeu de Música e Aventura para um público jovem, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Amanhã, será também apresentada um livro-disco com a banda sonora e as partituras do espetáculo (da editora MPMP).

A programação da oitava edição do Big Bang aposta na continuidade. Regressam a francesa Zonzo Compagnie, Filipe Faria, que no ano passado já tinha vindo apresentar o seu projeto de diálogo entre a música antiga e contemporânea, e o projeto Sonoscopia também já é um velho amigo dos espectadores do Big Bang. Todos os espetáculos têm entre 30 e 45 minutos e são pensados para um público familiar.

PROGRAMA BIG BANG

Nocturno - Joana Gama e Victor Hugo Pontes (6 anos). Hoje e amanhã, 10.30 e 13.45.

Futurina - Sonoscopia. Uma viagem entre a música e a arte futurista com a participação de alunos do Conservatório de Sintra (6 anos) Hoje e amanhã, 11.45 e 15.00.

3Ach - A Stairway to Heaven - Zonzo Compagnie. Dois violinistas levam-nos ao mundo de Bach (6 anos). Hoje e amanhã, 10.30, 13.30 e 16.00.

Quarto da Joana - Joana Guerra. Voz e violoncelo (4 anos). Hoje e amanhã, 10.45, 13.30 e 15.30.

Extension - Vincent Martial. Performance musical com flauta, percussão e pequenas esculturas robóticas (6 anos). Hoje e amanhã, 11.45, 14.40 e 16.30.

Como dormirão meus olhos - Filipe Faria e Pedro Castro/ Arte das Musas. A partir de Diego Ortiz (sec. XVI), espetáculo com textos e flautas, oboé, ukelele, gaita de foles, berimbau e muito mais (5 anos). Hoje e amanhã, 11.45, 13.30 e 16.00.

Tocá Rufar - Percussão (Todos). Hoje e amanhã, 13.30 e 17.00, na praça do CCB. Entrada livre.

Jukebox/ Caixa de ressonância - Ofício das Artes. Oficinas de exploração dos sons (4 anos). Hoje e amanhã, 10.30, 13.00 e 14.00. Entrada livre.

Bilhetes:

Hoje: 2euro cada atividade

Amanhã: 4euro cada atividade

Todo o programa no site oficial do Big Bang.

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