Pássaros e beijos na utopia cantada por Björk

A islandesa regressa a Portugal em agosto

O regresso da islandesa é um disco otimista que viaja entre as paisagens do seu país e as florestas venezuelanas. Mas também há sons que chegam do espaço num dos melhores álbuns do ano que será apresentado ao vivo em Paredes de Coura no próximo ano. Utopia é uma viagem ao futuro em 72 minutos

Entre as paisagens geladas da Islândia, as florestas densas de humidade e verde da Venezuela ou a improvável imensidão galáctica da Guerra das Estrelas, Björk traz-nos uma polifonia utópica de vozes, flautas, cantos de pássaros, cordas e eletrónicas que tornam este Utopia uma viagem em que o futuro se entranha em cada um dos seus 72 minutos.

E é das entranhas sempre que se deve falar dos álbuns da cantora islandesa, físicos, viscerais, orgânicos, numa pop que desde Biophilia recusa mediatismos e espartilhos. Prova disso é The Gate, o single de apresentação deste Utopia, que estilhaça a linguagem pop e nos faz planar por entre uma voz cada vez única, brilhantemente única, no universo musical atual.

Para trás ficaram os sons tão sombrios quanto poderosos do anterior Vulnicura (2015), história vivida e fresca da separação intempestiva de Björk e do seu então companheiro, Matthew Barney (episodicamente evocada em Sue Me). Com Utopia, é a própria intérprete-cantora-compositora que recupera o amor, no último verso cantado no álbum, pedindo Hold fort for love forever. Ou como cantava momentos antes nessa mesma canção (que tem um dos títulos mais otimistas do ano, Future Forever): "You say I mirror peoples' missions at them/ Now you mirror at me who I used to be/ What I gave to the world/ You've giving back at me."

O que Björk continua a dar ao mundo é este espanto feito música. A inspiração chegou também de álbuns antigos que ela e o seu companheiro desta viagem (que já tinha colaborado em Vulnicura), o produtor venezuelano Arca, ouviram no processo de criação de Utopia. "Eu queria que o álbum fosse como o ar, por isso há ar por todo o lado, nas letras, na minha voz, nas flautas, e onde as flautas mudam para sintetizadores e os sintetizadores para as flautas", explica à revista britânica Uncut.

Estas flautas estão por todo o lado (e na capa também há uma) como os pássaros. "Há pássaros no álbum que nunca ouvi e que soam como techno, e há também pássaros islandeses, corvos e himbrimi, mobelhas-grandes, que vivem junto à minha cabana" na Islândia, junta Björk na mesma conversa.

Noutra entrevista, à New Musical Express, a islandesa conta que também usou um álbum de vinil de música venezuelana, que tem na sua coleção, Hekura-Yanomamo Shamanism From Southern Venezuela, gravado nos anos 1970, com pássaros venezuelanos. "Os pássaros soam completamente diferentes", diz. "Eles soam como o R2-D2, ou techno", acrescenta, invocando o pequeno robô da saga de George Lucas. Os pássaros, insiste Björk, parecem-se com sintetizadores analógicos dos anos 1970. "É um dos meus ruídos favoritos de todos os tempos", entusiasma-se a islandesa, falando do álbum de xamanismo dos Yanomami. "Pode realmente ouvir-se os arranhões do vinil nos pássaros. É uma afinidade em camadas para mim."

Björk entra em The Gate para explicar que "há um som bonito" que termina no início dessa canção, "uma gravação de pássaros que os venezuelanos acreditam serem fantasmas de fetos. Se eles têm nados-mortos ou crianças pequenas que morrem, eles pensam que vão para a selva e fazem esses sons".

Não há nada de macabro nestas leituras da islandesa. Estes sons são oníricos e líricos, uma poesia que respira amor. Na descoberta de sons e no diálogo com Arca, Björk escreveu um arranjo para harpa que remeteu para o produtor. "Na altura não tinha consciência disso, mas acho que provavelmente estava a realizar um dos momentos mais festivos e ampliando-o numa canção sobre um beijo. São como cíclicos fogos-de-artifício em redor da boca de alguém que se está a beijar pela primeira vez. Aquelas faíscas que voam quando duas bocas se encontram." É Arisen My Senses, a canção de abertura de Utopia.

Nos tempos que se vivem é urgente definir uma utopia, aponta a autora. Body Memory estende-se nos seus quase dez minutos por entre coros e a voz sempre distinta de Björk e Losss parece convocar lá longe, no tempo, aquela mulher de óculos grossos que iniciava uma estranha dança por entre máquinas e o ritmo sincopado industrial com uma letra que explicava que também isto é música: "Clatter, crash, clack/ Racket, bang, thump/ Rattle, clang, crack, thud, whack, bam!/ It's music/ Now dance." Era Selmasongs, o álbum de canções que ilustravam na perfeição as imagens do filme Dancer in the Dark.

A obra de Björk não é estanque, faísca entre passado e presente (uma das referências assumidas pela islandesa é um velho "lado b" seu, Batabid), como duas bocas que se encontram e beijam e criam algo de novo.

Precipitaram-se pois as publicações da especialidade ao publicarem as suas listas dos melhores do ano antes de novembro se finar, não incluindo nessas listas Utopia (que a islandesa trará em 18 de agosto a Paredes de Coura e foi já lançado a 24 de novembro). Ultrapassada a fealdade quase repulsiva da capa, este novo álbum é um dos mais belos trabalhos de 2017. E cheio de amor.

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