"Paredes deixou um património grandioso". Mariana canta-o

Carlos Paredes e a sua guitarra são cantáveis? É possível adaptar canções como Verdes Anos a outros instrumentos? Mariana Abrunheiro fê-lo e mostra-o a partir de amanhã em três palcos lisboetas

Mariana Abrunheiro pede para nos encontrarmos numa sala interior da pastelaria Benard, no Chiado, porque ali o telemóvel não tem rede. E garantimos assim a quase ausência de interrupções enquanto a ouvimos falar do "mestre Carlos Paredes", como por vezes lhe chama. Esse Paredes e sua guitarra que canta ao lado do piano de Ruben Alves, e de convidados que vão de Carlos Bica e seu contrabaixo a Jon Luz e seu cavaquinho, ou de Pedro Carneiro com o vibrafone à concertina de Artur Fernandes.

Tudo isso está no álbum Cantar Paredes, editado em 2015, e levado agora a três palcos lisboetas. Começa amanhã no Teatro Meridional, no dia 8 de maio será no Conservatório Nacional de Música e, no dia 25, n"A Barraca.

"Havia música portuguesa em minha casa. O Carlos Paredes também era uma das bandas sonoras do dia-a-dia. Conheço bem, desde pequena..." Agora Mariana tem 38 anos. Começou a cantar em 1995. Quatro anos depois viria ainda o teatro n"A Barraca e o cinema. Em 2008 juntou-se aos Madredeus. Por falar neles, é de Pedro Ayres Magalhães a letra de Canto de Embalar.

Paredes canta-se?, perguntarão alguns. Canta-se. Recorde-se a voz de Carlos do Carmo em Fado Moliceiro, com letra de Ary dos Santos. Ou Verdes Anos, com letra de Pedro Tamen. Mariana Abrunheiro nem sempre precisa de letras. Muitas vezes, apenas vocaliza as canções, como se fossem cantigas de embalar.

O disco é também um livro com textos, de Gonçalo M. Tavares a Adelino Gomes, e fotografias, de Eduardo Gageiro a Duarte Belo. Na capa, ela aparece com um ramo de cravos na mão. A referência produz um efeito quase imediato. É uma homenagem, uma glosa, àquela fotografia de Serge Cohen em que Carlos Paredes, dentro do mar, segura um ramo de cravos e nos olha de frente. "Ele era muito empenhado socialmente. Está sempre com o propósito de perceber o dia-a-dia. Tinha uma vontade de comunicar. Os títulos revelam muito de quem ele era: Em Memória de Uma Camponesa Assassinada, Mudar de Vida..."

Fixemo-nos na primeira, feita por Carlos Paredes "em memória" de Catarina Eufémia, a camponesa de Baleizão que foi assassinada com três tiros nas costas por um GNR, durante uma revolta de assalariados - pedia "Trabalho e pão!", lembra Irene Pimental no livro-disco -, em 1954. Depois da voz sem entoar qualquer letra, ouvimos Mariana pronunciar as primeiras palavras de Cantar Alentejano, de Zeca Afonso, e depois entra também o Grupo Coral Estrelas do Sul, de Portel, e a harpa de Ana Isabel Dias. Continuam.

"Felizmente os artistas conseguem registar na sua obra ações muito importantes. É bom lembrar quem um dia perdeu a vida para nós hoje termos estas coisas. O Carlos Paredes e o Zeca Afonso fizeram isso", nota.

Carlos Paredes, diz a cantora, "deixou-nos um património grandioso". Ele mesmo, que hoje se "ouve pouco nas rádios". E ela, em homenagem, fez-lhe este "painel de azulejos" feito de músicos, da sua voz e do "ubíquo" (como lhe chama Miguel Castro Caldas) Ruben Alves ao piano.

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