"Há aqui documentos que vão mudar a História"

Na Livraria Ler Devagar há um imenso arquivo da história recente de Portugal em construção. Pacheco Pereira está, com um grupo de voluntários, a preservar a memória na sua Ephemera.

Quando se fala de José Pacheco Pereira vem logo à cabeça a sua biografia sobre Álvaro Cunhal, que já vai em quatro densos volumes e ainda terá um quinto. Depois, liga-se a pessoa que surge amiúde na televisão ao ex-politico do PSD e que agora se destaca mais no lugar de historiador que vive na aldeia da Marmeleira, onde num labirinto de casas interligadas entre si acondiciona milhares de livros e muitos mais de documentos. Mas um outro personagem está a afirmar-se a partir deste protagonista, aquele que fez nascer o projeto Ephemera. O que é? Comecemos pelo significado de efémero: "de curta duração, breve, passageiro, temporário; diferente de duradouro, permanente". Apesar do real significado do nome que escolheu, o que Pacheco Pereira pretende é o oposto para os milhares de documentos que retratam a vida social e política nacional e que anda a guardar no arquivo desde há anos.

E tem arquivado tantos documentos que o rumor espalhou-se e muitos portugueses - e alguns estrangeiros - fazem questão de lhe entregar espólios pessoais, de família e de organizações, que tiveram papel na vida portuguesa no último século. Ou seja, o Ephemera tornou-se duradouro. Daí que esta semana o historiador e alguns colaboradores tenham formalizado o que era virtual, pois está presente no site na Internet com 17 mil pastas repletas de documentos, em algo mais físico ao registar o Ephemera como associação cultural sem fins lucrativos para ter um instrumento jurídico que permita fazer protocolos com instituições.

Pacheco Pereira teria preferido ter uma fundação, mas as regras que as regem não lhe agradam e optou pelo que era possível. Os nomes dos outros entusiastas ainda não foram revelados mas somam várias dezenas. Número que não foi difícil perfazer pois a equipa do Ephemera cresce todos os dias com cada vez mais voluntários. Pessoas que têm vindo a colaborar em vários pontos do país além de Lisboa: Porto, Viana do Castelo ou Torres Vedras, entre outras sedes.

Na capital, o "escritório" da agora associação Ephemera situa-se no piso mais em cima da Livraria Ler Devagar na LX Factory, um vão meio escondido atrás de uma antiga rotativa que mesmo parada continua a atrair visitantes para saberem como aquilo funcionava. O vão onde está este polo do Ephemera é comprido, mas já lá não cabe a documentação que é doada. Tanto pode ser uma arca que estava debaixo de uma cama há décadas com uma biblioteca especializada nos primeiros tempos da República e da Maçonaria do início do século passado, como o gigantesco arquivo de um militar de Abril: Sousa e Castro. Que ofereceu o seu imenso espólio e que faz Pacheco Pereira suspirar pelo fim da limpeza destes documentos, etapa a que se seguirá a catalogação e análise do que está a ser separado por vários pastas segundo as temáticas. São muitas folhas com atas de reuniões do Conselho da Revolução, anotações do militar sobre acontecimentos daqueles anos da Revolução de Abril, bem como bastante material sobre a Extinção da PIDE, comissão de que Sousa e Castro foi responsável.

Pacheco Pereira sabe bem que dali sairão muitas revelações sobre uma época sempre por esclarecer e afirma: "Há aqui documentos que vão mudar a História". É verdade, quanto mais não seja clarificar o destino de muitas fichas que dizem ter sido surripiadas pelo PCP logo a seguir ao assalto à sede da polícia política criada por Salazar e que o historiador não comenta...

No vão da Ler Devagar onde se sobrepõem pilhas de caixas, envelopes, cartazes e tudo o mais a nível de documentação sobre as últimas décadas de História nacional não faltam também bons exemplos da História atual. É o caso de cartazes utilizados nas manifestações anti-troika durante o anterior Governo PSD/CDS e, mais recentes, de protestos contra Donald Trump. São coisas que entusiasmam o historiador, que as explica ao pormenor ao referir a operação 25 de Abril em curso: "Prevemos que sejam produzidos cerca de 100 mil coisas para este dia e nós queremos preservar pelo menos um terço." Essa quantidade já seria boa, assegura, estando para isso organizada uma operação de recolha de documentos, cartazes e tudo o mais que se refira à data.

Recolha sob o chapéu da FUR

Um número que não é gigante se comparado ao de há décadas para a mesma data mas que, sendo o ano de eleições autárquicas, deverá aumentar de norte a sul. Ou seja, dentro de dias chegarão aos vários polos do Ephemera para os voluntários arquivarem e preservarem mais uma parte da memória da história.

Património que depois de tratado pode seguir diretamente para a Marmeleira e dele resultar um livro como o que Pacheco Pereira acabou de publicar em coautoria com Júlio Sequeira: Autocolantes das Organizações da FUR (Frente de Unidade Revolucionária). É o segundo de uma série dedicada aos autocolantes políticos, o primeiro foi Autocolantes do PPD - Catálogo 1974-1976, material de propaganda política que tem a particularidade de ser uma tradição muito portuguesa pós-25 de Abril. A sigla FUR está bem distante da atualidade política e a sua tipificação surge logo ao início do volume: "Uma aliança constituída num período muito turbulento da "revolução portuguesa" que tinha como objetivo apoiar o V Governo Provisório". Seguem-se os capítulos dedicados a cada uma das organizações políticas que compuseram a FUR: a FSP, o MES, a LUAR, o PRP-BR e a LCI. Pacheco ressalva: "Houve duas outras forças políticas, o PCP, que só permaneceu durante três dias, e o MDP-CDE, que durou mais e implicará um catálogo próprio", refere. Acrescenta: "Agrupámos as organizações pelo denominador comum de terem feito parte da FUR no que respeita à iconografia do autocolante."

Reunir as centenas de autocolantes não foi fácil: "Vimos dezenas de coleções em bibliotecas privadas, catálogos e até de amigos espanhóis, que são grandes colecionadores, para fazer uma amostra completa." Para Pacheco Pereira, o autocolante é uma forma de propaganda menos estudada que o cartaz político da mesma época mas um elemento muito importante da Revolução, tanto que há várias dezenas de milhares de imagens diferentes de autocolantes." Não deixa de alertar para o facto: "Ao estudar esta iconografia descobrimos muita coisa pouco conhecida, como a origem da seta da Luar ser a mesma das do PSD: na Alemanha nazi, anos 1930, eram desenhadas sobre a cruz gamada."

Não faltam informações que enquadrem o autocolante e a época. Seja a história dos gráficos, Robin Fior por exemplo, mesmo que a maioria seja desconhecida; a influência do Maio de 68, ou a despreocupação com a participação da mulher. Em resumo, diz: "Não é um mero catálogo de autocolantes, antes um estudo sobre a iconografia da revolução."

Autocolantes das Organizações da FUR

José Pacheco Pereira e Júlio Sequeira

Editora Tinta da China

134 páginas

PVP: 18,90

Reedição e três novidades para contar o 25 de Abril

A grande novidade literária a propósito do 43º aniversário do 25 de Abril é a edição do primeiro volume do Dicionário de História de Portugal que trata da Revolução. São 366 páginas repletas de verbetes [cerca de 800] assinados por dezenas de especialistas - historiadores, sociólogos e "intervenientes". O objetivo deste Dicionário é, segundo os coordenadores António Reis, Maria Inácia Rezola e Paula Borges Santos, "sistematizar com rigor científico toda a informação sobre instituições políticas, sociais e económicas, bem como partidos políticos, biografias de políticos, militares, culturais e religiosos, os principais movimentos sociais, as ideologias", trabalho que levou quatro anos a preparar. Para os responsáveis, este primeiro volume justifica-se pela "necessidade de se elaborar um estudo profundo sobre os vários aspetos da transição democrática portuguesa" e irá "colmatar uma lacuna no plano académico e editorial". O modelo desta obra segue os propósitos iniciais do seu fundador, Joel Serrão.

Outra das lacunas do dia 25 de Abril e dos dias seguintes é a localização e a cronologia dos eventos revolucionários. José Mateus, Raquel Varela e Susana Gaudêncio puseram mãos à obra e realizaram "uma viagem pelos lugares que marcaram a Revolução", com uma cobertura fotográfica que regista esses momentos fundamentais, bem como infografias e documentos que, visualmente, focam a perceção do leitor. O volume tem uma particularidade, a de recuperar várias vozes da época, pois quando se explica o papel do Quartel da Pontinha segue-se o depoimento de um dos intervenientes, Otelo Saraiva de Carvalho; quando é a Escola Prática de Cavalaria de Santarém recupera-se uma entrevista de Salgueiro Maia. Na segunda parte, intitulada Reflexões, estão bastantes depoimentos de muitos dos protagonistas. É o caso de Vasco Lourenço a contar "Como se formou o MFA" ou "O 25 de Abril em Moçambique" por Carlos Matos Gomes, entre outros.

Intitulado Mulheres da Clandestinidade, a antropóloga Vanessa de Almeida recupera a história de muitas mulheres que participaram da oposição ao Estado Novo, correndo riscos de vida e tendo-a alterada pela prática de uma atuação política durante décadas. O volume inicia-se com um ensaio, seguindo-se a análise da questão feminina dentro do Partido Comunista Português. A partir daí explicam-se os passos da clandestinidade feminina através de depoimentos cruciais das protagonistas ainda vivas.

Não sendo novidade, a reedição de O Canto e as Armas de Manuel Alegre por altura dos cinquenta anos do seu lançamento é um dos acontecimentos literários do ano, afinal é o livro que marca a oposição poética, muitas vezes feita canto, ao Estado Novo. Entre as particularidades de O Canto e as Armas está o facto de muitos dos seus poemas terem sido proibidos pela censura na altura mas chegarem ao conhecimento dos portugueses através da circulação clandestina e da interpretação em lugares públicos à revelia das autoridades. Refira-se que alguns destes poemas serão lidos no dia 25 de Abril nos Jardins de São Bento, durante a evocação da Revolução dos Cravos.

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