Os Universalistas: a arquitetura portuguesa tratada por tu

Obras que marcaram meio século do país mostram-se na Casa da Arquitetura. Programa paralelo inclui debates e visitas

A fotografia dos arquitetos diante do Parthénon - Álvaro Siza de rabo-de-cavalo e sandálias, Alcino Soutinho de camisola de alças, Fernando Távora abrindo uma carta que se presume ser de Atenas - dá as boas vindas à exposição Os Universalistas, na Casa da Arquitetura em Matosinhos. E essa informalidade dá o tom do que o visitante vai poder observar a partir de amanhã: 50 anos de arquitetura portuguesa aberta ao mundo.

Esta é a mesma exposição que esteve patente em Paris na Cité de L"Architecture et du Patrimoine em 2016, organizada por alturas das comemorações dos 50 anos da Fundação Gulbenkian. Por sugestão do presidente da Fundação, Artur Santos Silva, expressada na altura da inauguração, a mostra foi trazida para Portugal para a Casa que estava então em construção e que faz agora fazer seis meses de vida (e 21 mil visitantes), nas antigas instalações da Real Vinícola. Acrescentada agora de um programa de atividades paralelas que inclui debates e vistas guiadas.

A mesma questão que se colocava então é a que surge agora: o que tem de particular a arquitetura portuguesa? Responde o comissário da exposição, Nuno Grande: "a relação com os lugares". "Os arquitetos portugueses têm em comum a capacidade de tornar seus os lugares e incorporá-los, conseguem ser holandeses na Holanda, berlinenses em Berlim, numa abordagem heterodoxa e descomplexada".

E assim a própria exposição é heterodoxa e descomplexada, ao mostrar 50 obras de autores portugueses ao mesmo tempo que "explica" estes 50 anos de Portugal pela palavra de Eduardo Lourenço, numa longa entrevista conduzida pelo próprio comissário e em outros textos deste pensador. Maquetes, fotografias e esquissos são postos em relação com opiniões de críticos de arquitetura, portugueses e estrangeiros, e com a realidade de meio século contada por cartoons de João Abel Manta e por fotografias do fotojornalista Alfredo Cunha. O filme Revolução de Ana Hatherly mostra em imagens e som o tempo da revolução de 1974/5.

São cinco os temas em que a exposição se constrói: o final da ditadura, o colonialismo, a revolução, a Europa e a globalização. Para cada um deles o visitante encontra obras que são a tradução desse tempo, desse contexto. A começar, a sede e o museu da Fundação Gulbenkian em Lisboa, o grande edifício modernista de Ruy Jervis d"Athouguia, Alberto Pessoa e Pedro Cid que, como explica o comissário, demorou tanto tempo a construir (1959-1969) que foi amadurecendo e se adaptou ao terreno, amável e acolhedor no seu betão tão visível.

O visitante vai talvez estranhar o facto de encontrar todos os textos em francês e inglês, tal como foram feitos para a exposição original de Paris. Em vez de traduzir o conteúdo dos painéis - o que corresponderia a construir uma nova exposição - o comissário e a Casa da Arquitetura optaram por editar um caderno com todos os textos em português, entregue na compra do bilhete de entrada (8 euros).

E é neste documento que o visitante há de levar para casa que está contada toda a história desta viagem pela arquitetura portuguesa dos últimos 50 anos, que termina com duas obras recentíssimas. Uma é o Centro de Artes Contemporâneas Arquipélago, de Ribeira Grande, na ilha açoriana de São Miguel, de João Mendes Ribeiro, Francisco Vieira de Campos e Cristina Guedes, e a outra o Centro de Criação Contemporânea Olivier Debré, na cidade francesa de Tours, projeto de Manuel e Francisco Aires Mateus.

Entre a sede da Gulbenkian e estes dois centros culturais, a viagem percorre Portugal, Angola, Moçambique, e alarga-se ao Brasil e à Europa com obras que, olhadas umas ao lado das outras, reforçam a ideia de que a arquitetura portuguesa se pauta pela capacidade de se integrar na paisagem sem perder identidade. A acentuar este dado, o designer da exposição, José Albergaria, explica com o seu sotaque micaelense ("este é mesmo o meu sotaque original, não nasceu em Paris", sublinha com um sorriso) : "A arquitetura e o cinema são as duas áreas em que os franceses respeitam os portugueses, sem espaço para piadas condescendentes". Albergaria tem em Paris o atelier de design Change is good, com um sócio holandês e outro francês.

Nuno Sampaio, o diretor executivo da Casa da Arquitetura, explica que metade das exposições a exibir aqui serão criadas por entidades exteriores, como é o caso desta. E faz notar que a mostra que se segue, a inaugurar em setembro, será sobre arquitetura brasileira.

Do programa de atividades paralelas organizadas por Nuno Grande para a exposição na Casa da Arquitetura destacam-se desde logo a sessão da inauguração - amanhã, às 21.00, com a participação de Alexandre Alves Costa e João Rodeia, e ainda um testemunho de Eduardo Lourenço. No dia 25 de Abril, às 18.30, haverá um debate subordinado ao tema "De Maio de 68 a Abril de 74: os anos que agitaram a Polis", com o deputado e dirigente estudantil da crise de 1969 Alberto Martins e os arquitetos e investigadores Pedro Bandeira, José António Bandeirinha e Sérgio Fernandez. Maio e junho terão debates com arquitetos de diferentes gerações, com o tema geral "Herdeiros ou heréticos? A relevância dos ateliers e coletivos na arquitetura portuguesa". E nos dias 27 de junho e 11 de julho será dada voz a críticos estrangeiros, sob o título simbólico "Sud-Express". Como recordou Nuno Grande, nos anos da emigração o comboio Sud- Express "era o cordão umbilical que ligava Portugal ao mundo". "Agora já não precisamos do Sud Express para chegarmos a todo o lado", acrescenta. E haverá visitas guiadas. A primeira é já no próximo sábado, guiada por Nuno Grande (tal como a de 7 de julho). Seguem-se visitas a 2 de maio com Manuel Graça Dias e a 9 de junho com Maria José Goulão. "E talvez visitas aos próprios edifícios", acrescenta Nuno Sampaio, que está ainda a organizar essa novidade.


Os Universalistas

Casa da Arquitetura, Matosinhos

De 13 de abril a 19 de agosto

Sexta-feira, das 10.00 às 24.00, entrada livre

Restantes dias 8 euros (inclui caderno)

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