"Os jovens acham que as letras de canções são livros"

Estuário é um romance em que o protagonista quer avisar a humanidade e salvar o mundo. Para a autora, pretende ser um profeta. Um livro fascinante, que exige ao leitor um pacto para compreendê-lo por inteiro.

A história do novo romance de Lídia Jorge trata da história que tem passado ao lado da literatura nos últimos anos em Portugal. Tem que ver com a crise económica pós-2008, mas apenas ao nível da inspiração inicial, afinal os personagens de Estuário ficaram irreconhecíveis. Lídia Jorge confirma que o romance "nasce da crise portuguesa" mas nunca a refere na narrativa. São histórias que ficaram por contar ou que foram mortas pelo jornalismo, no entanto como a literatura "deve ter um papel de sedimentação" o que escreve é sobre "uma família em confronto com o Estado, sem capacidade de resposta e sem possibilidade de sobrevivência digna". Em fundo, estão vidas que Lídia Jorge soube terem "recusado levar um único objeto de casa quando os bancos a confiscaram e abalaram só com o que tinham nas mãos". Em rigor, diz, retrata uma "portugalidade imensa que revela o nosso carácter estoico e a honradez antiga". Daí que considere que o protagonista "só foi capaz de escrever sobre o longínquo quando sentiu compaixão pelo próximo".

O seu leitor não ficará chocado quando coloca Camões a comer um frango e a escrever um verso?

Não creio. Percebe que Camões a comer frangos é importante nesse contexto e mostra um certo desprezo pela tradição em que temos a tendência para divinizar o poeta e colocá-lo acima de uma situação carnal. Retirá-lo do pedestal não choca.

Há outro poeta que atravessa o livro, Fernando Pessoa. Hoje tende-se a colocá-lo como poeta superior a Camões. Concorda?

É impossível não dizer que por sensibilidade e modernidade Pessoa está próximo da nossa vida. Portanto, é natural que se sinta que é da nossa casa enquanto com Camões é preciso viajar para entender a sua grandeza. Fazer uma comparação é impossível, mas sou tentada a dizer que a Ode Marítima, de Pessoa, é o poema de que mais gosto da literatura portuguesa.

Os épicos estão fora de moda?

Pessoa fala para nós com outra dimensão, sobretudo traduz a melancolia moderna de outra forma e com outro dramatismo e interioridade, o que não acontece em Camões, onde há um heroísmo íntegro e redondo. Hoje, ninguém vê mais o homem assim, nem há sociedades heroicas. Se o são num segundo no seguinte já não, e essa mobilidade permanente do nosso olhar que fundamenta o relativismo da modernidade é traduzida por Pessoa e a sua proximidade.

Mas o seu protagonista não persegue essas figuras míticas do herói?

Procura e considera que há de haver alguém que se supere a si próprio para salvar o mundo. Ele ensaia em si mesmo um pouco dessa experiência, é aquele que quer levantar a Terra com a mão e fica sem uma parte do membro. Abatido, cria a imagem do herói moderno, o que não sendo capaz objetivamente de salvar o mundo pensa que o será através de uma ficção.

Decepa-lhe a mão o para dificultar a aprendizagem da escrita?

Porque ele só é levado a ter o objetivo da escrita e a perceber o mundo que o rodeia depois do sentimento de perda. Para mim, era fundamental que esse aprendiz da escrita sentisse uma perda com a mão que ensaia a escrita e assim, através de movimentos lentos, entrasse na profundidade do pensamento.

Pensou-o assim?

É uma segunda interpretação sobre uma figura que quando surgiu deixou-me presa a ela nas primeiras páginas, mas nessa altura não me apercebia do que poderia ser. Queria apenas que fosse um jovem sem mão completa e nessa atitude dolorosa capaz de perceber que poderia escrever de modo profundo.

O romance surge dessa visão?

Exatamente, dessa mão meio decepada. Quando alguém passa por uma perda vê o mundo de outra maneira e os objetos não ficam mais colocados sobre a mesa, pois esta estará sobre um estrado, este sobre a Terra, que tem uma parte arável e debaixo dela rocha, até chegar ao fogo da Terra. O que significa que podemos dizer que o objeto está sobre o fogo da Terra.

Este é um livro para ler devagar?

Admito que sim, que é um livro coral. Não só tem o peso dessa figura do Edmundo Galeano, como são várias a falar ao mesmo tempo. Tem muitas entradas que exigem uma paragem entre capítulos, mas entre os leitores que já o leram existem os que me disseram terem feito de uma assentada entre a tarde e a noite e há muito tempo que ninguém dizia isto sobre um livro meu. Ele é denso, no entanto despojado.

O cenário é o de uma família entrincheirada contra o Estado?

Diria antes vitimizada pelo Estado e contra ele. É uma das questões do mundo de hoje, em que todos podemos falar e protestar mas não há uma resposta que nos defenda - ao contrário do que se diz. Têm-me perguntado se é um livro sobre a crise que passámos, mas acho que é mais sobre a grande crise que estamos a viver, em que a voz do cidadão parece ser extraordinariamente ativa e se incita a que falem, mas acontece que o ensurdecimento das instâncias é tão grande que ninguém imagina hoje revoluções em parte nenhuma. Elas não são possíveis porque os elementos dissuasores são imensos.

Nem mesmo sendo uma família?

Esta é uma família enclausurada na crise que houve e está a haver porque ainda não passou nem deixámos de estar debaixo do impacto dela por todo o lado. Aquilo que se ouve dizer nas ruas de Lisboa ouve--se também nas de Bogotá, de Santiago do Chile ou nas do Rio de Janeiro, cidades onde estive há pouco tempo. Ou o que se ouve dizer sobre, por exemplo, a Uber em Montreal. São os mesmos protestos daqui e com a mesma impotência das pessoas. Esta família tem um problema português, o do mar, que é uma das maiores catástrofes porque o navio é um símbolo português e chegámos a não ter nenhum com a nossa bandeira. É uma família que se tranca dentro de uma casa, que é um espaço do regresso dos filhos à casa paterna devido à crise e com uma disputa do território.

É uma realidade só portuguesa?

Foi mais brutal na crise grega e mais visível, mesmo que cá acontecessem suicídios. Esta família tem uma incapacidade de falar porque fomos quase masoquistas. Existe uma espécie de honra antiga em quem não quis falar da própria dor. Comecei a escrever o livro quando publiquei Os Memoráveis, que falava de uma resistência de figuras conhecidas, por isso achei importante falar de uma família em que os seus elementos era fortes mas desfaziam--se sem queixume.

Ele tem a perspetiva de que é pelas histórias que o mundo se salva?

Tinha a ideia de que a história dos grande coletivos e espaços era aquela que contaria melhor o que ele pretendia, depois percebe que se não compreendesse também aquilo que lhe estava próximo tudo resultaria abstrato. É a grande lição que tira, mesmo após ter passado pelos campos de refugiados e por muita tragédia humana, sem nunca ver as pessoas como parentes ou os que amava. Só se apercebeu do significado das tragédias dos outros quando lhe bateram à porta e viu o que aconteceu à família. Ao sentir esta compaixão pelo próximo compreende que poderia escrever sobre o longínquo.

Entre as personagens está Charlote, uma mulher que se vai despindo para ficar mais forte!

Exato. Os que se despojam muito recebem uma força reveladora em relação aos outros. Vai-se despindo, mas não o faz por erotismo. Acha que quanto mais a sua pele estiver à vista mais forte será. Expõe a vulnerabilidade como quem diz "não tenho medo de nada".

Há um casal que atira ao mar uma mensagem numa garrafa!

É uma crença que as pessoas têm pois existe em nós um pensamento mágico que se reprime constantemente. Nos momentos de adversidade surge o recurso a um processo de magia comum nas pessoas, só que evitam revelar o que fazem com tal recurso ao irracional porque as envergonha. Os escritores, no entanto, perdem o pudor de falar sobre o que as pessoas escondem.

Edmundo escreve quatro páginas e deita-as ao lixo. Como é consigo?

Este livro foi escrito há quatro anos, no verão de 2014, e estive três sem o ler. Depois, passei seis meses a refazer e a reescrever e isso nota-se. A figura de arranque já era o Edmundo mas sem o peso que veio a ter ao perceber que era fundamental. Foi um livro em que não corrigi a repetição porque gosto de escrever como se fosse uma balada antiga. O mais curioso foi que me esqueci de que tinha inventado uma situação, a de que os jovens acham que as letras de canções são livros e quando voltei ao romance é que reparei que dois anos antes de ter sido atribuído o Prémio Nobel a um cantor eu tinha pensado isso de uma outra forma. Encontrara a explicação que, passado pouco tempo, aconteceria na realidade quando o Nobel é dado a um letrista. De certa forma, estes personagens estavam à espera de que isso acontecesse. Eles eram uma espécie de Bob Dylan.

Deduzo que a atribuição do Nobel a Dylan não lhe agradou.

Não achei correto e à distância, vendo o que está acontecendo na Academia, percebe-se que aquilo tenha sido uma grande palhaçada. Na altura alguém disse que "os académicos de Estocolmo já não tinham tempo para ler um livro e por isso têm de premiar letras de canções". A literatura é alguma coisa com outra dimensão e suporte, porque se não houvesse o Kundera ou Adonis, entre nós Lobo Antunes, pergunto como é que era. Vamos supor que Saramago não tinha tido o Nobel! O caso do Kundera é chocante para mim pois escreveu livros que influenciaram a alteração do mundo europeu; ele está na base da queda do Muro de Berlim e de muitos outros muros. Está vivo e não lhe dão o Nobel, o que é uma injustiça.

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João Gobern

Há pessoas estranhas. E depois há David Lynch

Ganha-se balanço para o livro - Espaço para Sonhar, coassinado por David Lynch e Kristine McKenna, ed. Elsinore - em nome das melhores recordações, como Blue Velvet (Veludo Azul) ou Mulholland Drive, como essa singular série de TV, com princípio e sempre sem fim, que é Twin Peaks. Ou até em função de "objetos" estranhos e ainda à procura de descodificação definitiva, como Eraserhead ou Inland Empire, manifestos da peculiaridade do cineasta e criador biografado. Um dos primeiros elogios que ganha corpo é de que este longo percurso, dividido entre o relato clássico construído sobretudo a partir de entrevistas a terceiros próximos e envolvidos, por um lado, e as memórias do próprio David Lynch, por outro, nunca se torna pesado, fastidioso ou redundante - algo que merece ser sublinhado se pensarmos que se trata de um volume de 700 páginas, que acompanha o "visado" desde a infância até aos dias de hoje.