Os fãs sem-bilhete fazem a festa no Terreiro do Paço

Na Eurovision Village juntam-se fãs de todos os países. Quem vai ganhar esta noite? Chipre é o nome mais ouvido, mas todos concordam que o concurso está renhido.

Na saia de Varena cabem todos os "seus" países: a Alemanha, onde nasceu; a Inglaterra onde mora; Portugal que é o país anfitrião da Eurovisão este ano; Grécia porque um do seus amigos é grego; Bulgária por causa dos amigos búlgaros; e assim por diante. Varena é alemã mas mora em Londres, no Reino Unido, e está em Portugal esta semana, de férias, com um grupo de seis amigos ingleses propositadamente por causa do Festival Eurovisão da Canção. Desde a universidade que ela e os amigos organizam uma "festa da Eurovisão" e vêem juntos o festival. "Combinámos que ao fim de dez anos, se ainda fizéssemos essa festa, iríamos ao país onde se realizasse a Eurovisão. Este é o 10º ano e o festival é em Lisboa, por isso cá estamos", conta Varena.

Como não têm bilhetes para a final, esta noite na Altice Arena, estão na Eurovision Village, no Terreiro do Paço. O acesso é gratuito mas o espaço é fechado e, para entrar, é preciso estar na fila e passar a segurança. Lá dentro, para além das barraquinhas de comidas e bebidas, há alguns passatempos e um animado espaço de karaoke e discoteca, que é, durante a tarde, a tenda mais concorrida, pondo toda a gente a cantar temas como o Wannabe das Spice Girls ou o Despacito de Luis Fonsi. Ao final da tarde e à noite, as atenções voltam-se para o palco, por onde já passaram nomes como Capicua, Banda do Mar, Blaya, Ana Bacalhau e muitos outros músicos, entre os quais alguns dos anteriores vencedores e atuais concorrentes da Eurovisão. Mas esta noite não haverá concertos. No grande ecrã será transmitida a final da Eurovisão e é esse o principal motivo porque tanta gente já está ali a meio da tarde.

É fácil identificar os fãs de cada país pelas bandeiras e pela maneira como estão vestidos. Por exemplo, Nayron e Sasha, vestidos de amarelo e com um capacete viking na cabeça só podem vir da Suécia. Vieram num grupo de seis amigos: para Sasha já é a sétima vez que viaja para ver a Eurovisão; no caso de Nayron é a primeira vez. Para além de Lisboa, já visitaram Sintra e Cascais e dizem que "a semana tem sido ótima". Infelizmente, não conseguiram bilhetes para a final mas assistiram às meias-finais na Altice Arena e confirmam: "A atmosfera na Arena é fantástica. Foi absolutamente maravilhoso estar lá", diz Nayron, de 30 anos. "É difícil dizer quem vai ganhar, a competição está muito renhida, mas gostava que fosse o Chipre para poder ir lá de férias no próximo ano", ri-se.

Lesley Sim também não consegue eleger uma favorita. "Gosto da Lituânia mas também adoro Portugal, a Moldávia é tão divertida, a canção da Bulgária é adorável, a Alemanha faz-me chorar, a do Reino Unido é a melhor cantora e adoro os vikings da Dinamarca...", vai enumerando esta fã inglesa enquanto olha para as unhas das mãos, cada uma pintada com a bandeira de um dos seus países favoritos nesta Eurovisão. Além das unhas pintadas, Lesley também faz pulseiras e tricotou um chapéu com as bandeiras dos vários concorrentes.

"Sou tão antiga que me lembro de ver a Sandy Shaw a cantar o Puppet on a String", diz, a rir. A primeira vez que assistiu ao vivo a um festival foi em 1998, em Birmingham, porque era perto de casa. Em 2004 foi a Instambul e de então para cá esta já é a nona vez que viaja para ver a Eurovisão. "Não consegui comprar bilhetes para a final mas estive ontem no espetáculo para o júri e foi ótimo." O festival é uma oportunidade para viajar e para fazer amigos em diferentes países: "Toda a atmosfera é fenomenal. Há uma ligação entre as pessoas", conta. "Ainda por cima eu adoro Lisboa, já cá tinha estado e irei certamente voltar."

Para Varena e os seus amigos é a primeira vez na cidade: "Tem sido fantástico, é uma cidade linda e histórica e tão limpa", comenta Michaela. "Temos apanhado sol." Elise acrescenta que nos passeios que têm feito têm encontrado muitos fãs da Eurovisão e o ambiente entre todos é ótimo. "E aproveitamos para fazer um trabalho de relações públicas pela Inglaterra, depois do Brexit", brinca Michaela. Quanto ao festival, Varena não tem dúvidas: "Este ano é o melhor, definitivamente, porque nós estamos cá." Varena espera que o seu país, a Alemanha, ganhe, mas Michaela preferia que fosse a Austrália: "Porque toda a gente os odeia e isso seria divertido. E se a Austrália ganhasse o festival seria em Inglaterra, obviamente."

Talvez não seja assim tão fácil dizer de onde vêm os fãs, concluímos após algumas conversas. Gabe tem um Pikachu na cabeça e uma bandeira de Israel aos ombros mas na verdade vem do Reino Unido. Apresenta-nos os amigos: Henny que vem da Suécia, Marisa do Canadá, Molly, Kieram e Lydia que vêm dos Estados Unidos. Marcaram encontro em Lisboa para vir à Eurovisão e aqui estão eles a aproveitar ao máximo estas mini-férias. "É a primeira vez que fazemos isto mas estamos a divertir-nos tanto que estamos a pensar repetir no próximo ano", explica Molly.

E onde será esse reencontro? "Eu gostaria que fosse em Israel, porque somos judeus", diz, Gabe. E está explicada a bandeira. Mas as opiniões dividem-se. Ontem, quando estavam na primeira fila do espetáculo para o júri ficaram fascinados com a quantidade de boas canções que há este ano. "Cada vez que ouvíamos uma canção dizíamos: é esta que vai ganhar", conta Molly. Lydia gosta bastande da canção portuguesa, há quem preferira a Itália, a Albânia ou a Hungria. E para a fotografia mostram as várias bandeiras que têm consigo: "Não importa quem ganha, na verdade."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

Premium

Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.