Olhem para as mãos e ouvirão a voz de Benjamin Clementine

Benjamin Clementine no Festival de Paredes de Coura, em agosto

Com o novo disco "I Tell A Fly", Benjamin Clementine parece querer dar a volta ao texto, ainda que as roupas que veste pareçam as mesmas do muito aclamado álbum de estreia "At Least for Now". As suas palavras desenham um mapa de conflitos e questões sociais entrecortadas com um humor inesperado.

Olhem para as mãos, reparem bem nas mãos longas, as veias dos dedos esguios, as linhas das palmas dessas mãos naquele corpo magro e alto. Olhem para as mãos e entenderão a voz: esguia, linda, forte, grave, aguda, sussurrada, de trejeitos operáticos, por vezes aparentando ser jocosos.

Há um piano, um cravo, a percussão, aqui e ali presenças eletrónicas, instrumentos subservientes às mãos, aos dedos, soltando os tons fortes que fazem da voz (e que instrumento é esta voz, senhores!), que fazem da voz, dizíamos, um templo, santuário de um homem de quem os deuses se esqueceram. "Eu lembro-me de onde vim, eu vim do nada" - contou ele uma vez no Coliseu de Lisboa - até ao dia em que alguém ouviu como aquela voz falava de Deus, aquele que tem amor no nome.

Benjamin Clementine é esta voz, e mãos e dedos e corpo, quase despojado como quando vivia nas ruas agarrado a um piano que o agarrou à vida. O sapatinho desta cinderela no masculino foi esse piano onde Clementine tocava e compunha as canções que explodiram com At Least for Now (2015). Nesse álbum e nas apresentações ao vivo que se seguiram, a voz e o piano eram acompanhados por uma percussão, forte e sincopada, a fazer dançar as histórias que Benjamin Clementine canta, mas também cordas que não se limitam a um papel decorativo, ajudando também elas a formar o corpo de cada canção.

Agora, em I Tell a Fly (à venda a 29 de setembro), Benjamin Clementine parece querer dar a volta ao texto, não se agarrando a uma personagem de maneirismos, ainda que as roupas que veste (ele é hoje um homem chamado para desfiles de moda) pareçam as mesmas de At Least for Now.

Não são. As palavras deste contador de histórias britânico, nascido em Crystal Palace, parecem desenhar um mapa de conflitos internacionais e questões sociais e são entrecortadas com um humor inesperado (que já se notava nas prestações ao vivo).

As selvas de Londres e Calais

É o próprio quem o admitiu em conversa com o jornal inglês The Guardian, sobre o tema God Save the Jungle: "Eu tentei usar humor negro para dar aos ouvintes um espaço para adivinharem. As minhas experiências são pequenas, mas afetaram-me por muitos anos. Para as crianças, em Inglaterra, o bullying é o problema número um. Elas podem assistir ao telejornal e ver um bombardeamento, mas parece bastante longe. E devemos trazê-lo para casa. Eu falo de Calais, mas estou realmente a falar de Londres."

Calais é então a selva, numa referência ao acampamento desmantelado em 2016 naquela cidade portuária francesa, onde se acotovelavam migrantes e refugiados à espera de uma aberta para fugirem para as Ilhas Britânicas - e o título da canção, God Save the Jungle, que remete para o hino britânico, só pode ser lido com doses elevadas de ironia. "Welcome to jungle, dear/ Where tensions do amount and kids must grow as quick as possible/Welcome to jungle, dear/ Risk it on a tooth or bone as you travel along, come and run run to the roads", canta o britânico. E os extremismos nacionalistas franceses, ali ao lado, como os que dá voz em Paris Cor Blimey: "Paris"s friend got her little Pen from her daddy before he left."

Londres é a outra selva de que fala Benjamin Clementine, como em Phantom of Aleppoville que cruza as experiências de crianças na guerra e as vítimas de bullying na escola. "For me the difference between love and hate/ Weighs the same difference between risotto and rice pudding/ And the difference between a dog and a stranger/ Weighs the same difference between children and bullying/ Some say, they wonder why you bullied me, but I laugh/ "Cause I know that you know that we will never never know why they hate the bullyings."

As roupas que Benjamin Clementine veste não são as mesmas. Com este I Tell a Fly, procura outras abordagens musicais, pinceladas de humor no dramatismo que percorria o seu primeiro (e aclamado) álbum e pontuadas de uma biografia tão colorida como inesperada. Mais do que sobreviver em Paris com o seu piano, Clementine fala da sua infância religiosa e casta, em que a cultura pop era quase banida uns por pais ganeses católicos. "Acreditem-me, ainda é possível", escapar a este mundo que borbulha entretenimento por todos os poros. "Olhem para os mórmones. De certa forma aprecio-os porque fui protegido de muitas coisas que de outra forma teria feito."

Talvez por isto se descubram referências tão clássicas e ascéticas num trabalho tão pop. Basta fazer rewind: olhem para as mãos e ouvirão a voz.

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