O vencedor que nunca tinha visto um festival da canção

Salvador Sobral tem 27 anos e é o representante português na meia-final de hoje com o tema Amar Pelos Dois

Não esteve nos primeiros ensaios técnicos em Kiev, na Ucrânia, que decorreram na semana passada e quase que não chegava a tempo da passadeira vermelha. Os problemas de saúde impedem-no de estar tanto tempo fora do país. Mas, esta noite, Salvador Sobral vai estar no palco da Eurovisão, com a roupa feita pela mãe, e vai cantar, como só ele sabe, Amar pelos dois, o tema que representa Portugal neste festival.

Aos 27 anos, Salvador está onde nunca julgou estar. Ele que nunca viu nenhuma edição do festival da canção - "Sabia que existia mas estava muito longe" - e que admite que não tem qualquer empatia com aquilo a que se costuma chamar "música festivaleira", é apontado pelos especialistas como um dos favoritos à vitória. Com uma canção que foge a todos os estereótipos, escrita pela irmã, a também cantautora Luísa Sobral.

Salvador canta desde pequeno, em casa, incentivado pela família. A primeira vez que atuou em público foi aos 8 anos, numa festa da escola. Não se lembra o que cantou mas é provável que tenha sido um fado. Aos 10 anos, poucos se lembram, mas participou no concurso da SIC Bravo, Bravíssimo onde interpretou O Negro do Rádio de Pilhas, de Rui Veloso. Estudou no colégio dos Salesianos e depois no liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa. "Sou um beto que saí da caixa", explicou em entrevista à Notícias Magazine. "Não gostava de discotecas, não acompanhava os meus amigos - eles queriam beber e andar à porrada e eu não gostava disso. Com as miúdas, também não tinha muito jeito nem sorte."

Foi uma namorada que o inscreveu no Ídolos, o concurso da SIC. Salvador tinha 18 anos e jogou-se de cabeça. Apresentou-se ao público cantando For Once in My Life, de Stevie Wonder, e depois I Got a Woman, de Ray Charles - dois dos seus músicos preferidos. Chegou aos oito finalistas mas acabou por ser eliminado. O stress causado pela televisão e pelo reconhecimento público acabou por ser demais para o jovem. "O objetivo daqueles programas é entreter as pessoas, a música não é importante", explicou mais tarde. Isolou-se. A relação que tinha na altura não sobreviveu. Parou de cantar. "Fiquei maluco e tive de ir para Espanha."

Salvador Sobral nos Ídolos, da SIC

Voltou à música em 2011 quando estava em Maiorca, onde fazia Erasmus em Psicologia. Na altura os seus planos eram especializar--se em Psicologia do Desporto. Mas começou a atuar em bares e hotéis e percebeu que podia ganhar dinheiro a fazer algo que lhe dava prazer. "Era duro cantar das 8 da noite à meia-noite e meia mas compensava. A ilha é linda, todas as noites tocava (cantava) em hotéis e só pensava "vou ficar aqui o resto da minha vida". Mas depois veio o inverno maiorquino e foi duro porque não se passava nada. Achei que tinha de fazer alguma coisa." Mudou-se para Barcelona e foi estudar jazz na Taller de Musics. Foi lá que descobriu Chet Baker e que aprendeu muito do que hoje sabe sobre música e que considera essencial. Frequentador do Hot Club, é um apaixonado pelo jazz: "É uma conversa entre os instrumentos, temos de ouvir os outros e tem uma grande componente de improvisação. Como na vida."

No ano passado, Salvador lançou o seu primeiro disco, intitulado Excuse Me, em que quase todas as composições são suas e do venezuelano Leonardo Aldrey. Um dos temas, I Might Just Stay away, é da irmã. Tencionava continuar a digressão e depois começar a pensar num outro disco. Mas os planos acabaram por ser alterados pela participação no Festival RTP da Canção.

Ele não queria voltar a participar em concursos na televisão. Tinha ficado traumatizado com o Ídolos. Foi a irmã, Luísa Sobral, quem lhe telefonou a dizer que tinha feito uma música e queria que ele cantasse. Salvador percebeu que este ano o festival teria músicos como Samuel Úria, Márcia ou Pedro Silva Martins e ficou a pensar no assunto. "Ela mandou-me a música. Achei-a lindíssima, não dava para dizer não."

Acabou por ganhar. "Ao princípio foi um bocadinho caótico, não só lá fora como interiormente", contou à Grande Entrevista, da RTP, referindo-se às reações à sua vitória, mas também às questões que se colocou: "O que é isto que eu estou a fazer?"

A debater-se com graves problemas cardíacos, Salvador não gosta de falar sobre a doença. "Tenho muito mais coisas boas do que más. Esta doença que tenho é um problema pequenino na minha vida, na verdade será o único problema que tenho. Mesmo se não resolúvel totalmente é possível lidar com ela", disse a Daniel Oliveira no programa Alta Definição. Para se defender, saiu do Facebook e do Twitter, não lê os comentários aos seus vídeos no YouTube. "Isto passa. Daqui a uns tempos as pessoas vão-se esquecer e vão ficar os fãs da minha música, que são os me interessam."

Também por causa da doença, aprendeu a viver um dia de cada vez. Hoje está feliz. Se conseguir passar esta meia-final, irá estar sábado na final da Eurovisão. Gostava de viajar pela América do Sul, de viver em Paris. "Lançar discos e ser feliz, é o que quero. E ter saúde."

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