O serviço de chá da rainha e outras histórias de Winnie-the-Pooh

As aventuras do ursinho pachorrento e algo ingénuo encantam crianças e adultos há mais de nove décadas. Agora chegou a vez de o Victoria and Albert Museum, em Londres, contar a história de Winnie-the-Pooh numa exposição que inclui cartas, fotografias, manuscritos, desenhos originais e até o serviço de chá oferecido a Isabel II quando tinha dois anos

Depois de David Bowie e dos Pink Floyd, chegou a vez do ursinho Winnie. O Victoria and Albert Museum de Londres inaugura, hoje, uma mega-exposição dedicada ao urso simpático e bonacheirão que adora mel, criado em 1926 por A. A. Milne. A mostra Winnie-the-Pooh: Exploring a Classic ocupa uma enorme galeria do V&A, um dos maiores museus do mundo, e espera atingir os números recorde de visitantes alcançados pelas exposições que em 2013 (Bowie) e 2017 (Pink Floyd) dedicou a dois gigantes da música popular do século XX.

O público-alvo, desta vez, é a família. "Toda a gente adora o Winnie-the-Pooh. Ele mexe com todas as gerações", explicou ao DN Emma Laws, uma das co-curadoras da exposição, durante uma visita aberta à imprensa internacional. "Esta exposição permite fazer a descoberta, ou a redescoberta, de uma das personagens infantis mais famosas e mais populares de todos os tempos", disse ainda Laws. Esta descoberta pode fazer-se - convenientemente, dirão os mais cínicos - já em dezembro, a poucas semanas do Natal. A mostra prolonga-se até às férias da Páscoa (encerra a 8 de abril) e tal como aconteceu com Bowie e Pink Floyd, inclui uma enorme variedade de souvenirs, com preços entre 1 e 250 libras, que os visitantes podem comprar.

A galeria do V&A inclui cerca de 230 objetos ligados à história de Winnie-the-Pooh e dos seus criadores, o escritor e dramaturgo Alan Alexander Milne (1882-1956) e o artista Ernest Howard Shepard (1879-1976). Entre os objetos contam-se cartas, fotografias, manuscritos, os lindíssimos desenhos originais de Shepard, videoclipes e relíquias como uma gravação áudio de 1929 de Milne a ler trechos do livro Winnie-the-Pooh. Numa das salas faz-se a recriação do quarto de Christopher Robin. Os visitantes podem passear no Bosque dos Cem Acres, com paredes de cinco metros de altura pintadas à mão. Ou atravessar a ponte dos Poohsticks. A mostra tem uma mão-cheia de experiências multissensoriais, incluindo árvores que falam, um enorme chapéu-de-chuva debaixo do qual se ouvem histórias, os obrigatórios ecrãs digitais e dezenas de balões azuis ("Ninguém consegue ser desanimado por balões", escreveu uma vez Milne)

As histórias deste ursinho pachorrento e algo ingénuo, não muito inteligente, com uma predileção enorme por leite condensado e potes de mel, foram um êxito imediato. Em 1924, A. A. Milne publicou um primeiro livro de poemas infantis que incluia, entre outras, uma história sobre um urso (aparentemente Milne estava desinspirado e foi a mulher, Daphne, que o fez escrever "uma daquelas histórias de dormir, sobre o urso", que ele costumava contar ao filho Christopher Robin). Seguiu-se o livro Winnie-the-Pooh (1926) onde surgem, pela primeira vez, as aventuras do urso Winnie-the-Pooh e dos amigos Igor, Piglet, Coelho, Coruja, Kanga (e o filho Rú) e Tigre. Logo no primeiro ano venderam-se mais de 150 mil exemplares nos Estados Unidos. Outro livro de poemas, em 1927, incluía vários trechos sobre Winnie-the-Pooh. Em 1928, por fim, A. A. Milne publicou The House at Pooh Corner, como sempre ilustrado por E.H. Shepard.

Os quatro livros estão traduzidos em 46 línguas, incluindo uma versão em latim que em 1958 chegou a entrar na lista de best-sellers do New York Times (em Portugal, a primeira edição de Winnie-the-Pooh foi publicada em 1962 com o inesperado título de Joanica-Puff). O ursinho transformou-se num fenómeno global, sobretudo depois da entrada em cena dos filmes da Walt Disney Company, que comprou os direitos em 1966. Winnie-the-Pooh também inspirou livros de filosofia e de religião chinesa. Ainda hoje empresta o nome a bandas de punk/metal na Estónia ou de rock sinfónico na Itália.

Winnie-the-Pooh é igualmente uma enorme máquina de merchandising que gera milhões desde a década de 1930. O ursinho foi o pioneiro da moderna indústria do licenciamento, aperfeiçoada depois de o agente literário Ste-phen Slesinger ter adquirido os direitos para o mercado norte-americano. Slesinger lançou bonecos, jogos, puzzles, roupa, discos e mais tarde programas de rádio e de desenhos animados baseados nas personagens e nas histórias criadas por A. A. Milne. Em 1931, o negócio envolvia já 50 milhões de dólares anuais. Muitos destes produtos estão agora expostos no V&A, incluindo um bonito serviço de chá pintado à mão - com o ursinho, Christopher Robin e outras personagens - que em 1928 foi oferecido à princesa Isabel (futura rainha Isabel II) quando ela tinha dois anos. Este serviço, que a rainha agora emprestou ao museu, está em estado tão perfeito que é de duvidar que os dedinhos reais alguma vez tenham tocado na cerâmica.

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