O frisson da escultura erudita e delicada de Leonor Antunes

Nascida e formada em Lisboa, berlinense por adoção, a artista portuguesa tem grande mostra individual na prestigiada Whitechapel Gallery de Londres. Em exposição até abril.

Radicada em Berlim desde 2005, a portuguesa Leonor Antunes continua a ser, algo estranhamente, uma artista plástica pouco reconhecida no circuito da arte nacional. Na última década, no entanto, Antunes afirmou-se a nível global e tem exposto com regularidade em museus e galerias internacionais de renome. Agora chegou a vez da capital britânica. No início do mês, a prestigiada Whitechapel Gallery, na zona leste de Londres, inaugurou uma exposição com trabalhos originais desta artista nascida em Lisboa em 1972. "A última exposição de Leonor em Inglaterra foi há muito tempo [2007]. A galeria decidiu que estava na altura de a convidar", explicou ao DN a curadora Lydia Yee.

A associação da Whitechapel Gallery ao nome da artista portuguesa foi vista com naturalidade. A galeria pública, fundada em 1901, é dirigida por Iwona Blazwick desde o início do século (Blazwick, que "descobriu" Damien Hirst em 1991, é presença habitual nos rankings dos mais poderosos do mundo da arte). Sob a direção de Blazwick, a Whitechapel Gallery voltou a ser um espaço apostado em manter ligações estreitas com a comunidade local. "Leonor Antunes, por sua vez, é uma artista que cria esculturas que são como que uma resposta, uma reação ao contexto histórico e arquitetónico do local onde são expostas", diz ainda Yee.

Leonor Antunes trabalhou durante mais de um ano nesta mostra londrina, intitulada The Frisson of the Togetherness [O Frisson da Intimidade], um título inspirado numa frase da arquiteta britânica Alison Smithson (1928-1993). A obra da artista portuguesa, aliás, faz frequentemente referência a figuras da história do modernismo, em geral arquitetos, designers e artistas do século XX - quase sempre mulheres - cujo trabalho foi esquecido ou desvalorizado. Leonor Antunes passou os primeiros seis meses a fazer investigação e a visitar museus e outras instituições um pouco por toda a Inglaterra. Para esta exposição na Whitechapel Gallery, inspirou-se sobretudo na vida e no trabalho de duas escultoras que viveram em Londres: a britânica Mary Martin (1907-1969) e a brasileira Lúcia Nogueira (1950-1998).

As esculturas criadas por Leonor Antunes ocupam integralmente a Gallery 2 da Whitechapel, um enorme salão vitoriano com paredes de tijolo e sem luz natural que antigamente funcionava como sala de leitura da biblioteca local. O espaço é ocupado por uma série de esculturas - muitas delas são trabalhos suspensos que descem até ao chão - feitas com materiais como corda, latão, madeira, metal ou couro. As linhas retas e os planos lisos transformam-se, quase sem se notar, em relevos escultóricos e em volumes que se torcem e retorcem.

Os objetos são iluminados por luzes igualmente desenhadas pela artista. As esculturas funcionam ao mesmo tempo como uma espécie de rede e como divisórias, interferindo dessa forma na própria experiência que os visitantes têm do espaço. O chão da galeria está coberto com um lindíssimo padrão geométrico, feito com cortiça e linóleo, inspirado num desenho de Mary Martin. O trabalho de Leonor Antunes está muitas vezes ligado de forma umbilical ao sítio onde é exposto. Ela investiga, estuda a história do local e cria instalações (atenção: ela não gosta da palavra "instalação") que desencadeiam um diálogo aberto entre o espaço e a proposta artística. "Através do seu processo de criação, ela [Leonor Antunes] volta a apropriar-se dos lugares, transforma-os, ao mesmo tempo que presta homenagem à arquitetura dos lugares que a acolhem", diz ainda a curadora Lydia Yee.

Quando se entra na Gallery 2 de Whitechapel nota-se de imediato o cheiro a corda e cabedal. Duas das esculturas penduradas no teto são compostas integralmente por rédeas de couro, importadas de Portugal, entrelaçadas até ao chão. Outras peças são feitas com corda. A escolha dos materiais usados nesta intervenção artística está diretamente ligada à história e à identidade do local da exposição (a zona da Whitechapel Gallery era antigamente um centro de cordoaria e de estábulos e picadeiros).

Nos últimos anos, o trabalho de Leonor Antunes esteve exposto em mostras individuais em museus de prestígio como o Reina Sofía (Madrid), o New Museum (Nova Iorque) ou a Kunsthalle (Basileia). A artista portuguesa, licenciada em Escultura pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, participou em grandes exposições internacionais como a 57.ª Bienal de Veneza (2017), que decorre até ao próximo mês.

Informação útil

Leonor Antunes - The Frisson of the Togetherness

Whitechapel Gallery, Londres.

Entrada livre. Até 8 de abril

Em Londres

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