O espanto de uma noite com os LCD Soundsystem

Na primeira de três noites no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, James Murphy explicou como é que a sua discografia tem tanto de curta como de essencial. Os corpos agradeceram

Já deviam ter adivinhado que a magia estava para acontecer na noite de Lisboa, com epicentro no Coliseu dos Recreios. E já deviam saber que para escapar a este verão que tardava a chegar, o melhor era mergulhar no calor abafado de uma sala que estava preparada para uma imensa festa de corpos a pedirem dança.

Foram avisados com tempo que os LCD Soundsystem se apresentavam esta segunda à noite (e ainda terça e quarta - parece que ainda restam alguns bilhetes) para fechar em Lisboa a digressão do mais recente American Dream.

O jogo de espelhos a partir da bola colocada no cimo do palco foi pretexto para James Murphy, músico, compositor, produtor e frontman dos LCD Soundsystem, nos inebriar com os sons que melhor destila na sua paleta sonora. Ao segundo tema, You Wanted a Hit, já as luzes revelavam uma massa desejosa de se mexer, que a espera tinha sido imprevisível e sem sal pela mão do dj set de Shit Robot.

Se em American Dream pudemos perceber os nomes de Lou Reed, Leonard Cohen, Suicide, David Bowie ou Talking Heads, na primeira noite de Lisboa tudo isto foi servido numa bandeja que passou pela sua discografia (que, com os seus quatros álbuns de originais, tem tanto de curta como de essencial) numa amálgama em que tudo ganha forma, em que tudo surge impresso nos ritmos e nos tempos certos, sem uma nota a mais.

Mesmo nos percalços, James Murphy é mestre-de-cerimónias. Quando avança para Radioactivity dos Kraftwerk um cabo não ajuda. "Finjam que isto não aconteceu" e retoma-se em I Can Change, para nova destilação de corpos devidamente amalgamados numa plateia a abarrotar.

Uma barragem sonora, em que bateria e percussões se misturam com os dedos de baixos, guitarras e teclas, cronometrados por um relógio num canto do palco. É o tempo certo para estes dias, que se vai escrevendo com Yr City's a Sucker, Daft Punk is Playing at My House, Someone Great, Tonite, Home, I Want Your Love ou How do You Sleep.

Num palco também ele entupido de instrumentos e amplificadores e cabos, James Murphy guia canções, palavras e sons, com aquela voz que é tanto de veludo como sobe ao alto sem vacilar e sem nunca facilitar nas linhas densas e pesadas que formam este cruzamento de rock e música das pistas de dança, uma claustrofobia de "canções muito tristes", como explicará já mais para o fim o homem que criou este soundsystem.

É por essa altura que falará de como gosta de Lisboa, "como que uma segunda casa", que agradecerá ao público a comunhão na festa, entre elogios aos pastéis de nata. "Lisboa é um bom sítio para tocar", já tinha atirado no início.

Antes, a antecipar a pausa para o encore, "depois desta canção vamos saindo", o homem que em 2011 se fartou de uma indústria que lhe pedia para fazer sempre o mesmo e se retirou por uns anos, anunciando um longo adeus, pediu paciência ao público. "Vá lá, vocês já estiveram em concertos, são crescidos. É para irmos à casa de banho, porque somos velhos. Depois voltamos para mais umas canções. Quero só deixar as coisas claras, sermos honestos."

O regresso faz-se de Oh Baby, Dance Yrself Clean e a euforia final de All My Friends. Somos todos amigos crescidos, já ninguém pede mais. Mas sabemos todos que o espanto tomou conta da noite em Lisboa. Bem-vindos ao futuro.

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