Nuno Galopim. "O Festival da Eurovisão lisboeta vai ser todo à beira-rio. Com todos a bordo, all aboard"

Os oceanos estão na essência do Festival da Eurovisão 2018, recordando a Expo 20 anos depois. Quem o diz é este rapaz irrequieto que se licenciou em Geologia por preguiça e à primeira oportunidade passou das pedras para as pedras rolantes da música e do jornalismo.

Pratica a escrita todos os dias, como uma ginástica que dá endurance, e meteu-se na aventura - coletiva, insiste sempre - de renovar o Festival da Canção. Diz que é profundamente feliz com os seus livros, os seus filmes e os seus discos. E o cão Krisspi (homenagem ao desaparecido gelado), que é o único que o acompanha no processo de escrita de livros. E como tem pouco que fazer meteu-se também nos documentários e vai ter a partir de segunda-feira um pequeno programa de rádio sobre os anteriores festivais. A conversa está recheada de alusões culinárias, porque "quem gosta de sabores é mais feliz".

Salvador Sobral tornou-se um herói nacional, e por trás dele está Nuno Galopim?

Há muita gente a trabalhar. Oque aconteceu de inesperado, mágico e irrepetível - se bem que espero que Portugal possa voltar a ganhar a Eurovisão, naturalmente - foi o resultado do esforço de uma equipa. Uma equipa que começou a desenhar-se na RTP e depois se alargou aos compositores que aderiram ao desafio de renovar o Festival da Canção. Isso passa pela Luísa Sobral, pelo Luís Figueiredo que fez o arranjo e, naturalmente, tem o protagonista grande, esse grande artista que poucos conheciam.

A Luísa era mais conhecida do que ele?

Eu conhecia bem a Luisa, achava-a uma das melhores compositoras que temos, e de facto é-o, e nem sequer o conhecia pessoalmente o irmão. Descobri-o no primeiro ensaio da primeira semifinal do Festival da Canção de 2017. Ouvi-o e disse: "Uau! isto é o melhor ovni que já ouvi na vida".

Interrompeste a trilogia de ficções sobre reis portugueses por causa dos festivais?

É uma entremeada, para fazer uma metáfora culinária. A conversa fica mais saborosa.

A propósito: como são as tuas rabanadas? Ouvi falar muito delas.

São ótimas. São uma receita de uma amiga de família que trouxe do Porto uma receita conventual que acrescenta à rabanada habitual algo mais doce ainda, a calda de açúcar. Além de serem cozidas em leite com casca de limão, canela e açúcar, e fritas depois de passadas por ovo, vão a uma nova fritadela em calda de açúcar com laranja e canela. Ficam pequenos pudins.

És um dos responsáveis da organização do Festival da Canção e da Eurovisão. Como vai o trabalho?

Há um diretor criativo, o Gonçalo Madaíl, e eu coordeno a equipa com ele. Isto começou a andar na semana em que voltámos de Kiev e trazíamos literalmente o menino nas mãos.

Vinham a flutuar de espanto?

Sim, o menino estava a flutuar, depois mergulhou na água e agora rumará ao destino certo na hora certa. O Festival da Canção de 2018 é um segundo episódio do processo de remodelação que se pôs em prática em 2017.

Na verdade, em 2016?

Em 2016 parámos para pensar. A marca Festival da Canção estava a precisar de ser redirecionada para voltar ao convívio musical com aqueles que fazem a música de todos os dias os discos que passam na rádio, os artistas que tocam nos palcos aos quais acedemos para ver os concertos. Era preciso trazer de novo esses músicos para o Festival da Canção, como nos tempos do Fernando Tordo, Paulo de Carvalho, Carlos Mendes, Madalena Iglésias, Carlos do Carmo, Doce, Carlos Paião.

O país parava para o festival.

Porque aquela era a música que ouvíamos nos outros 364 dias. O 365.º dia era uma continuação, não era um extra. Era preciso fazer com que os 365 dias falassem todos para aquela noite de canções.

Como apareceu esse grupo de reflexão?

A ideia nasce na RTP com o Nuno Artur Silva e o Gonçalo Madaíl que depois a alargam a mim, ao Henrique Amaro e à Carla Bugalho, produtora e chefe de delegação de Portugal à Eurovisão. Este grupo foi pensando o que devíamos fazer. A primeira decisão que tomámos foi de lidar com compositores, tentando ter diferentes gerações, gostos e estilos musicais. O Henrique Amaro e eu fomos os interlocutores entre os compositores e a RTP, por sermos profissionais com anos de relacionamento com os músicos. Estávamos em família, a falar com aqueles com quem lidamos nos outros 364 dias. Na lógica de estarmos num espaço que é de todos, que é comum, que é continuado, não cai no céu naquela noite.

Há muitos anos que não havia tanta gente a interessar-se, a torcer por, a pensar no assunto.

Correu bem, foi mobilizador. Vimos que qualquer coisa estava a acontecer quando, em janeiro de 2017, chamámos ao Coliseu dos Recreios a imprensa para apresentarmos o projeto do Festival da Canção 2017 e apareceu uma enorme quantidade de jornalistas. As semifinais chamaram atenções, lançaram-se polémicas. Notámos que havia qualquer coisa de invulgar em volta da canção do Salvador Sobral. As outras tinham também o seu público e seduziram também os nossos ouvidos. Mas aquela lançou-nos um encantamento especial, que começou entre nós, logo nos ensaios. Os técnicos deixaram-se também encantar, antes de, na noite da transmissão, a mostrarmos ao público.

Logo nos primeiros ensaios já tinha o arranjo espetacular do Luís Figueiredo?

Sim, já era aquele arranjo que dá à canção algo que é único e que devia servir de reflexão para muitos músicos o espaço. Quando temos uma grande voz e um corpo que sabe cantar porque estas canções não são só de ouvir, são de ver, nascem no contexto televisivo se o arranjo der espaço, ajuda a canção, não a afoga. Às vezes o arranjo é como aquelas saladas que têm tanta coisa que já não sabemos o que estamos a comer. É preciso distinguir os sabores.

Depois o Salvador Sobral ganha e torna-se o menino com quem toda a gente se preocupa.

Estabeleceu-se uma relação empática com o Salvador, quase familiar. Ele é o boy next door, podia ser nosso vizinho. Tem algo de único como qualquer grande artista mas tem uma relação afável, atenta, amiga com qualquer um que se cruze com ele. As pessoas acabaram por abraçá-lo como se fosse um vizinho, alguém de quem se gosta, com quem se convive, e parece que o conhecíamos há muitos anos.

É da família?

Temos ali garantidamente um grande artista. Já o vi em palco fora do contexto dos festivais e, tendo a vivência do jazz no sangue, ele consegue fazer de cada momento um acontecimento único e irrepetível. A cada interpretação, nos festivais, e a cada ensaio, o Amar pelos Dois era diferente. No filme que fiz com o Miguel Pimenta e mais elementos do Centro de Inovação da RTP para contar a história da canção, recentemente transmitido, convidámos o Salvador para fazer uma e ele dá-nos uma das interpretações mais arrepiantes É uma canção em permanente mutação.

Já a ouvi cantada pelo Fernando Tordo, no lançamento de um livro dele, e foi um momento especial por ser o Fernando Tordo e por ser aquela canção.

Tem as qualidades de um standard. O tempo o dirá. Estamos muito perto da data de nascimento, ainda não tem um ano de exposição pública, é um bebé. Mas vai crescer bem.

Tinhas acompanhado festivais antes como jornalista?

Desde criança, como espectador. Nunca lá tinha ido. Desde criança que vejo os festivais da Eurovisão e tenho uma história engraçada.

Chamaste-me a atenção para o facto de teres nascido no ano em que a Sandie Shaw ganhou [1967].

Descalça foi para a Eurovisão Sandie Shaw com Puppets on a String Nesse ano levámos o Eduardo Nascimento com O Vento Mudou. É uma canção que assinala um momento importante na história da relação de Portugal com a Eurovisão. Depois de ter havido já um flirt com a pop com o arranjo do Ele e Ela da Madalena Iglésias, com o Eduardo Nascimento e, no ano a seguir, com o Carlos Mendes começamos a ter um envolvimento da presença eurovisiva portuguesa com o novo rock que nascia em Portugal. Os dois vinham de bandas rock [Os Rocks e Sheiks]. Conseguimos contar um bocadinho a história da música portuguesa através da Eurovisão. De resto na Europa, desde 1956, há um percurso social, político mas também cultural, musical, passível de ser contado através da evolução do festival.

Esse será o próximo livro?

Está praticamente concluída a escrita, há de sair neste ano. Falta apenas ver o que será este Festival da Canção de 2018.

Como foi em Kiev?

Tendo nascido em 1967, quando não havia internet, a rádio portuguesa não tinha a profusão de programas que haveria de conhecer com o FM no final dos 1970, princípio dos 1980, eu estava muito exposto ao que a rádio mostrava ou à discoteca dos meus pais, que era muito de música francesa, José Mário Branco, Sérgio Godinho, José Afonso e ainda música clássica. Qual era a outra música que eu descobria? Era a da Eurovisão. Aos cinco anos, estando nós em Castelo de Vide para o casamento de uma prima, tenho um acidente em casa, caio dento de uma braseira, mas não deixei que me levassem para o hospital.

Isso não deve ter sido nada bom.

Olha que as mãos estão bonitas, o meu pai tratou delas. Mas eu não quis ir para o hospital porque era a noite do festival. Por Portugal, estava o Carlos Mendes, com a Festa da Vida, e ganhou a Vicky Leandros com o Après Toi, pelo Luxemburgo.

Isso para mim é um flashback, tu sabes isso tudo de cor. Mas chegaste a ir ao hospital?

O tratamento que o meu pai fez foi o suficiente para aquelas pequenitas bolhas não foi uma queda atroz, foi um toque que fez uma queimadela. Foi bem tratado. Nunca perdi esta relação com o festival mas Kiev foi a primeira vez em que finalmente lá estive.

E viste como é aquilo?

É maior do que eu pensava. E agora, estando a vivê-lo por dentro, tenho a clara consciência da dimensão de todo este universo. Não é apenas um programa aliás, três programas, porque há duas semifinais e depois a final, à qual temos acesso garantido este ano porque somos os organizadores, vencedores do ano anterior. Há um envolvimento da Eurovisão com a cidade que se projeta num espaço chamado Eurovision Village que, entre nós, vai ter lugar no Terreiro do Paço. Durante pouco mais de uma semana, ali haverá atividades diárias, algumas delas na forma de grandes concertos gratuitos, para que a essência da Eurovisão seja vivida pela cidade. Há programas sociais, há uma grande discoteca a funcionar para os jornalistas, os fãs acreditados e o staff durante aqueles dias.

Também no Terreiro do Paço?

Tudo à beira rio. Todo o Festival da Eurovisão lisboeta tem um mote, a expressão All Aboard, que traduz a ideia de estarmos juntos. A diversidade está connosco porque a queremos abraçar. E sugere automaticamente estar num barco, o barco comum que é o planeta com 70 por cento da superfície coberta por oceanos que temos de proteger. A ideia de relação com os oceanos por trás desta edição do festival da Eurovisão aponta para a tomada de consciência da necessidade de proteger os oceanos e não para uma vivência antiga dos 500 anos de celebração dos Descobrimentos. É esta relação atual, do século XXI, que queremos procurar.

All Aboard no Cais das Colunas?

Aí teremos o Eurovision Village. Não sei se terei tempo para lá dar um salto para ver o que está a acontecer. Todos podem passar por lá, é gratuito e a programação traduz a essência do conceito criativo central, uma narrativa da relação de Portugal com a Europa e com os oceanos, da relação de Lisboa com a multiculturalidade, a diversidade.

Um passo à frente da Expo' 98 que era sobre os oceanos e trouxe também a multiculturalidade?

E é 20 anos depois da Expo' 98, que foi um marco na vida da cidade.

Antes disso temos o Festival da Canção, onde será escolhido o representante de Portugal. É outro dos projetos que tens em mãos?

Estamos quase a divulgar algumas verdades até aqui escondidas. Já sabemos quem são os compositores, depois serão anunciados os intérpretes. Tal como no ano passado, houve o desejo de retratar a realidade da música portuguesa de todos os dias, cruzando gerações e géneros, e alargando a algo de novo os convites. O vencedor do ano passado escolhe e convida alguém, a Antena 1 escolheu alguém que não tenha qualquer gravação editada e abrimos vagas para qualquer um se candidatar. Alargámos a 26 o leque de compositores. Estão ali nomes como a Capicua, o Benjamim, a Isaura, o Diogo Piçarra, o Fernando Tordo, o José Cid, o Jorge Palma, o Paulo Praça, o JP Simões, o Armando Teixeira. É absolutamente entusiasmante o leque de nomes.

Estreaste-te nos documentários, com o Sem fazer planos do que virá depois. É isso que queres fazer?

É mesmo. A ideia de escrever livros de ficção não me passava pela cabeça nos tempos em que tinha o dia-a-dia do DN. Não é fácil trabalhar num diário e ter a cabeça livre para escrever ficção, porque exige disponibilidade para criar a narrativa e dar-lhe espaço e tempo. O primeiro livro nasceu do desafio do editor, o Francisco Camacho, que me picou mesmo: "escolhe um rei português e inventa uma história". Não me podem picar, fico logo: "ai é? nunca fiz, acho que não consigo, vou tentar". Escolhi o D. Manuel II para criar uma primeira narrativa, com um pé no jornalismo e outro na ficção

Porque é muito recente?

É muito recente e era a minha primeira tentativa na ficção. Uma das personagens de ficção era um jornalista. No fundo, meti-me dentro da história, para controlar um bocadinho os fios com que a trama eventualmente evoluísse. Para o segundo livro, sobre D. Afonso VI, aí deixei o escritor libertar a ficção e encontrar, na realidade do D. Afonso VI, uma fresta para meter um "e se?".

E se?

O "e se?" fez-me pensar que ele afinal teve um filho, ele que ainda por cima foi afastado do trono pelo irmão e teve o casamento anulado, sendo a sua infertilidade uma das razões, se não a principal, para o anulamento. E se ele tivesse tido um filho? Descobri que afinal posso escrever histórias e tenho uma terceira em mente

Também sobre um rei?

Também sobre um rei mas é como as rabanadas, ainda se está na fase do leite, é a primeira cozedura. Mas fazer documentários é uma descoberta mais recente, um desafio que me fazem quando volto de Kiev. Sugeri que era interessante contar a história da canção e disseram-me: "faz tu".

Tinhas muitas imagens que podias usar?

Trouxemos muitas imagens de Kiev, tínhamos muitas de bastidores do Festival da Canção, mas tivemos de fazer mais. Fomos buscar o coro de vozes que ajudasse a contar a história. Foi fundamental entrevistar com tempo o Salvador Sobral e a irmã, a Luísa Sobral, e depois o conjunto de figuras que na RTP estavam na equipa que remodelou o Festival da Canção e fez a aventura de Kiev. E ter aqueles que, estando fora, também estavam dentro, cantores que participaram em festivais ou figuras ligadas ao júri desta edição. Estava construído este coro. Gosto de chamar a este conjunto de entrevistados um coro que canta.

Já tinhas experiência de editar uma reportagem, de contar uma história

E é parecido. Eu tinha já feito um filme sem imagens, gosto de lhe chamar assim, que foi uma biografia sobre os 20 anos dos The Gift em livro. Nasceu de um conjunto de 74 entrevistas, desde os elementos dos The Gift aos vários que passaram pelo seu processo criativo ou vivencial, desde os agentes nos diferentes territórios ao Brian Eno, com quem trabalharam no último disco. Depois foi fatiar as entrevistas, como se fossem diálogos de um filme.

Às vezes temos informação a mais e é preciso cozinhá-la com os tais ingredientes da salada que não podem ser demasiados.

É ter os sabores e ter a condição da narrativa. O resto se não fizer sentido é melhor estar fora.

Podemos contar com mais documentários?

Há um em fase avançada de rodagem sobre os Pop dell'Arte, para a RTP. E vontade de fazer mais. E se calhar mesmo a possibilidade.

Como chegaste até aqui? És filho de um grande cientista, Galopim de Carvalho

Geólogo. Foi meu professor e do meu irmão.

Que também é geólogo, aliás gemólogo. O teu pai dedicou-se mais...

...à sedimentologia e depois teve muito uma relação com os fósseis. Trabalhou mais os fósseis pequeninos do que os dinossauros.

E tornou-se conhecido pelos dinossauros

Por causa do património que há entre nós, pegadas e registos fósseis de ossadas, e pelo trabalho que desenvolveu no Museu de História Natural para chamar mais pessoas, porque os dinossauros cativam o entusiasmo e a imaginação, sobretudo dos mais pequeninos. De resto, foi por causa disso que eu acabei por dar esta cambalhota.

Porque tudo fazia indicar que tu irias para...

Eu iria fazer um percurso na vulcanologia, a área da Geologia que me interessava mais, ou na museologia. O meu seminário de último ano era sobre a história da museologia ligada aos minerais. Mas fui a uma reunião na RDP com o meu pai, para falar sobre como a rádio pública portuguesa podia passar a mensagem de defender o património geológico, sobretudo dos dinossauros. E acho que passei a reunião inteira a maçar o diretor de programas sobre o facto de a Antena 2 não passar o Philip Glass, o Steve Reich ou o Wim Mertens nas quantidades que eu achava que faziam sentido. Ele apanhou um catraio com vontade de dizer coisas e desafiou-o "por que não vens cá fazer um programa"? No dia seguinte tinha um projeto para um programa na secretária e chamou-me para fazê-lo. Comecei na Antena 2, passei para a Antena 1 e desafiaram-me para escrever n' O Independente. Fui das rocks para as rolling stones e acabei a ver os Rolling Stones várias vezes.

Agora voltaste à RTP/RDP?

Os regressos a casa são muito emocionantes. Apesar de concentrados no trabalho profissional, há um lado emotivo de relação com os outros que é o que faz com que as equipas nos façam a nós também.

A tua vida foi-se encaminhando, com bons e maus momentos, para esse regresso?

"Sem fazer planos do que virá depois", como diz a canção.

A única coisa solitária é a escrita dos romances?

Mais ou menos, porque escrevo em casa com o cão ao lado.

Como se chama o cão?

Chama-se Krisspi que era o meu gelado preferido. Tem as patinhas com a cor do gelado. O Epá era mais um gelado de praia, o Krisspi era um gelado de sempre.

Depois destas nossas derivas...

...sempre com sabores As pessoas que gostam de sabores são felizes na vida...

...tenho a pergunta de todos: como está o Salvador Sobral?

Está a recuperar bem, devagarinho, acho que não é inconfidência dizer que com vontade de regressar à música logo que possível. Ele estava a trabalhar num segundo disco, chegou a apresentar ao vivo umas novas canções maravilhosas. A evolução do estado de saúde não lhe permitiu para dar ao projeto Alexander Search, outra banda que o tem como vocalista, a vida de palco que espero que possa ter. Cheguei a vê-los ao vivo e são incríveis, completamente diferentes do que ele faz como Salvador Sobral a solo. Temos ali um músico com o qual vamos desenvolver uma relação de afeto muito duradoura. Temos ali alguém para, ano após ano, nos ensinar a ouvir outras músicas.

Esse lado de ele nos educar é engraçado.

É tão bom. Quando ele canta A Case of You, leva as pessoas a querer ouvir a Joni Mitchell. Isso é o que têm de encantador as versões, despertar a curiosidade para qualquer coisa que esta ali e vale a pena redescobrir. O jazz tem muito o prazer de retrabalhar as canções, dando-lhes, a partir do osso original, a carne de quem as canta de novo. Ele recriou A Case of You, que está no disco ao vivo, foi um encore no concerto de despedida da digressão Excuse Me, e ali vemos a fibra de um grande intérprete.

Quem te tirou das pedras para as pedras rolantes foi mesmo a música?

Confesso que fui tirar o curso de Geologia por preguiça. Se tivesse tirado o curso que gostava era o de História, porque foi o que li sempre e ainda hoje é o que leio mais quando não tenho de fazer leituras de trabalho ou ficção. Continuo a ler ficção e acho que é a ferramenta fundamental para quem trabalha com a escrita. Apesar das muitas coisas que faço, continuo a ter na escrita o meu pão nosso de cada dia. Este tipo de relacionamentos só nos abre horizontes. A Geologia era uma saída preguiçosa de quem queria fazer um curso para ter dinheiro para comprar discos.

Continuas a comprar discos?

Eu no carro uso o bluetooth e plataformas digitais, tenho sempre playlists preparadas. Mas em casa continuo a comprar sobretudo em vinil, nunca me desfiz da minha coleção.

Tens gira-discos?

Tenho. E tenho os discos desde criança, mais os que herdei dos pais. Aos três anos tinha autorização para usar os discos dos meus pais.

Não os riscavas?

Estraguei uns mas aprendi, estraguei várias Carmina Burana aos meus pais. Aprende-se. Ele não se importou.

Tens um grande pai, há um envolvimento familiar muito propício.

Ele viu-me a fugir e percebeu que eu tinha de fugir. Estava comigo naquele dia e percebeu "ele vai fugir daqui". Pronto, tudo bem, sou profundamente feliz e vivo com livros e discos e filmes à minha volta. Que bom.

Agora fazes parte do processo, deixaste o dia-a-dia de um jornal.

Mantenho com o jornalismo a relação periódica no Expresso, no jornalismo cultural como gosto. Também gostei muito, nos tempos do DN, de fazer também jornalismo desportivo na área do automobilismo, da Fórmula 1, outra das minhas paixões. Mas não estando num jornal diário tenho espaço para mais. Eu trabalho depressa, gosto de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, mas consigo.

Então como vai ser a vida alucinante deste ano?

Além dos dois festivais, da Canção e Eurovisão, tenho o livro sobre a Eurovisão, um documentário sobre os Pop dell'Arte. E haverá um programa na Antena 1, uns rebuçadinhos diários sobre os temas que passaram pelos festivais, e Expresso todos os sábados o Planetário dará conta do que se passa pelo mundo fora. Haverá dois blogues aos quais eu não deixo de estar ligado porque a escrita é como uma ginástica, se escrevermos todos os dias ela sai depressa e bem. E mantenho os dois blogues, maquinadeescrever.org e sound+vision.blogspot.pt E para já não há mais planos, sem fazer planos para o que virá depois. Cá estaremos.

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