Na Fortaleza que já foi prisão as celas deram lugar a museus e ateliês

Durante o Regime do Estado Novo foi prisão política e albergou Álvaro Cunhal. Agora foi incluída na lista de 30 monumentos nacionais que serão alvo de concessão a privados. Os locais aprovam, mas ontem 400 pessoas, entre ex-presos políticos, manifestavam-se contra

À entrada da fortaleza, um cartaz publicita a "Fuga coletiva do forte de Peniche", de 3 de janeiro de 1960. A notícia da fuga de Álvaro Cunhal (e de outros presos políticos) de uma das prisões de alta segurança do Estado Novo foi censurada e contestada, na altura. Assim como está a ser a decisão governamental de concessionar a fortaleza a privados. Quatrocentas pessoas, entre ex-presos políticos e familiares, manifestaram-se ontem contra ela. Como históricos da política e das artes, como Manuel Alegre e Sérgio Godinho haviam já feito. E foi entre palmas e lágrimas, contava a agência Lusa, que ontem aprovaram o documento "Apelo ao Governo em defesa da Fortaleza de Peniche símbolo da repressão e da luta contra o fascismo".

Domingos Abrantes, ex-dirigente do PCP é o preso vivo com maior número de anos em detenção no forte. Diz que é "um insulto à memória", ver o forte de Peniche feito unidade hoteleira". Mas os habitantes de Peniche ouvidos pelo DN gostam da ideia de dar vida ao espaço em visível e acelerada degradação.

José Maria Pessoa da "colheita de 1940", como se apresenta, é um deles. Nunca se farta do passeio vespertino que teima em dar sempre pelo forte, mesmo que a vista lhe mostre apenas "um pedaço bonito". Por isso usa uma analogia quotidiana para "opinar e concordar" com a ideia, se for para fazer uma pousada ou hotel de charme, "nada de muito grande" dentro das muralhas. "Nós criámos um filho e ele, a certa altura sai de casa, mas o quarto dele não fica ao abandono. É limpo e arranjado e se vem alguém de família visitar-nos oferecemos a cama dele para dormir não é?", questiona José Maria Pessoa à espera de anuência. "O que se passou aqui ninguém apagará, está registado, mas as paredes não se retocam com memórias e por isso qualquer dia cai uma pedra, depois outra...", contou, atalhando a conversa para esclarecer que o projeto devia ter algum significado arquitetónico.

Xico Nico, um artista da terra, não podia concordar mais com isso. Trabalha dentro do forte, onde ocupa uma cela/estúdio vai para 22 anos, e foi "assistindo à degradação gradual" do monumento. Nas celas onde outrora havia presos, sofrimento e repressão, há agora ateliês e liberdade para criar. Mas o passado volta de vez em quando, para reviver esse tempo com Xico Nico. "Outro dia chegou aqui um senhor a dizer que se chamava Carlos Saraiva e que gostava de visitar a cela onde esteve preso. Era a 23. Emocionou-se. Contou-me a história dele e eu coloquei o seu nome na porta para dar voz aos presos anónimos que passaram por aqui", contou, mostrando o espaço que lhe serve de ateliê e depósito de material (a pedra e ferro que usa).

Xico Nico no seu ateliê, no Forte de Peniche

Ao fundo do corredor do espaço que serve a ALA, Associação Local de Artes, está a cela 22, outra com história, segundo o artista: "Entrou aqui um senhor de bengala, queria mostrar ao filho a cela dele. Era o pai do deputado do PS, João Galamba."

Quando lhe falta a inspiração é só sair da cela-ateliê e apanhar a maresia junto à muralha. O pior é no regresso, quando dá de caras com o bloco de cimento da antiga prisão. "Só arranjaram a parte do museu, aquela onde esteve preso o Álvaro Cunhal. Este bloco como foi desativado como prisão política, os serviços camarários deixaram de se interessar por isto. A manutenção aqui, foi feita por mim e os meus colegas da associação", revelou Xico Nico (na foto).

E lamenta o facto de Peniche não ter instalações de utilidade cultural. "Não há um teatro, se alguém quiser ir ao cinema tem de ir a Torres Vedras e não há uma sala de espetáculos digna para um evento com alguma envergadura. Na minha opinião aqui dava para fazer um centro multicultural espetacular, mas a visão não é essa e não sabemos o que o futuro reserva", lamentou o artista.

Os quatro guardiões do forte

Os amigos José Mendes, Edmundo Carriço, Manuel da Mata e Francisco Malheiros estão reformados e gostam muito dos bancos vermelhos encostados à fortaleza construída no século XVII sobre rochedos, em frente ao mar, para defesa da costa. Com o tempo perdeu interesse do ponto de vista militar e na década de 30 transformada em prisão política. "Dizem que havia aí presos políticos, mas a gente sabe lá..." atirou Edmundo, logo intercetado pelo amigo José Mendes a recordar que "costumava ver uma carrinha com presos sair do forte, iam fazer trabalhos pesados". "Esses eram os presos normais", interrompeu Francisco Malheiro.

Outro dos guardiões do forte, Manuel da Mata, limitou-se a ouvir e a acenar com a cabeça quando Edmundo diz que "a nova fortaleza de Peniche podia muito bem ser o surf", que tem trazido muito gente à região. Mas não a Peniche em particular, segundo Francisco Malheiro: "No Baleal é verão durante 10 meses, mas só temos turismo a sério três meses. Há muita coisa que falta para cativar as pessoas a ficar, por isso se o projeto trouxer vida a estas paredes e a Peniche é bem vindo." Pois, como referiu José Mendes, "nem um quiosque ou café há dentro do forte" e "as pessoas entram e saem em 15 minutos."

O flop da pousada de Álvaro Siza...

Em 1999, a autarquia concordou com a construção de uma pousada projetada pelo arquiteto Álvaro Siza, cujo projeto compatibilizava a preservação do património histórico, mantendo intacta a memória e os espaços associados às fugas políticas. Mas nunca saiu do papel. Álvaro Siza explicou, na altura, que foi afastado pelo Grupo Pestana (em 2003 entrou na administração na rede de Pousadas de Portugal com a privatização da Enatur), por discordar da intenção de criar uma pousada com mais do dobro dos 30 quartos que previa o seu projeto.

O caso foi-se arrastando e sem solução até agora. "O Governo (e bem) identificou o património que está para aí ao abandono e colocou-nos a questão: E a fortaleza? E nós dissemos, sim, desde que... Falta fazer o caderno de encargos, assinar o protocolo e uma declaração de intenção que servirá para trabalhar e para depois então, ver quem está interessado", explicou ao DN o presidente do município, António José Correia. E incitou mesmo "aqueles que acham que a fortaleza deve ter um legado exclusivamente nacional", como Manuel Alegre, por exemplo, ao dizer que "o forte de Peniche pertence ao país", a arcar com os custos de manutenção. "Não temos 7/8 milhões de euros para tratar daquilo. Se é o que querem as forças políticas que estão no Governo e os que estão a suportar o Governo, o PCP e o BE, que apresentem medidas concretas e cheguem-se à frente", desafiou o autarca da CDU em fim de mandato.

Segundo José Correia, a reabilitação patrimonial da Fortaleza sempre foi preocupação da autarquia: "As áreas sob nossa gestão estão a ser retocadas. Aquilo tem uns 20 mil quadrados e o que é para a área de alojamento são cinco mil e tal. Houve gente que fez declarações estapafúrdias sem conhecer o projeto e passou-se uma ideia de que era toda a fortaleza para exploração hoteleira. Não!" E deixou a garantia de que o conteúdo museológico local vai continuar lá. E com mais espaço para a componente da resistência, pois foi criado o Museu da Renda de Bilros, que vai sair de lá e libertar espaço. "Além disso já foi aprovado em assembleia municipal a construção de um memorial a todos os nomes dos quase 2500 presos políticos. E já foi orçada uma verba de 75 mil euros para tal", revelou ao DN, lembrando que "o bloco C (onde Álvaro Cunhal esteve preso) vai ficar intacto!"

Há muitos que desconfiam que assim seja e preferem lutar contra a exploração do espaço por privados. Como a União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) e o movimento "Não Apaguem a Memória", por defenderem que não se conciliam interesses turísticos com a preservação do espaço emblemático da resistência antifascista.

Ao DN Raimundo Narciso, do movimento "Não Apaguem a Memória", defendeu que "ninguém deve substituir o dever do Estado na preservação dos símbolos de memória". E, neste caso, isso passa pelo investimento na recuperação e em melhorar o espólio museológico, segundo Narciso: "Mas atenção não somos contra a criação de um centro de congressos, restaurantes e cafés no espaço". E já o disseram ao autarca de Peniche e esperam dizê-lo ao Governo, segundo diz ao DN.

Certo é que cerca de cinco mil pessoas já assinaram uma petição contra concessionar o monumento nacional a privados. Entre eles, o conselheiro de Estado do Presidente da República Domingos Abrantes, um dos muitos presos políticos do regime ditatorial de Salazar. Sérgio Godinho, José Barata Moura, Pilar del Río também estão entre as personalidades que assinaram a petição.

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