Momo e os amigos Camané e Camelo, o "ponta-de-lança"

O músico brasileiro Marcelo Frota, que há quase dois anos está a viver em Lisboa, edita amanhã o seu quinto álbum, "Voá", dia em que também sobe ao palco do Teatro São Luiz

O brasileiro Momo (na música, Marcelo Frota na vida civil) já tinha estado em Portugal em 2013. Não lhe passou pela cabeça, porém, que um dia viveria em Lisboa. E estava longe de imaginar que o seu álbum Voá, editado amanhã, seria feito nessa cidade, a tantos quilómetros do seu Brasil, que seria produzido por Marcelo Camelo, ou que nele entraria Camané, cuja voz ele antes desconhecia.

Nessa altura, deixava o Brasil e ia para Chicago, no país onde, durante a adolescência, já tinha vivido durante um ano, e que se junta na cartografia a cinco anos da infância passados em Angola, consequência de ter um pai ligado à indústria do petróleo. Quando regressou ao Rio de Janeiro, "estava numa esquina do Leblon", o bairro carioca, quando passaram Marcelo Camelo e Mallu Magalhães, que então já se tinham mudado para Portugal.

"Eles começaram a me falar: "Você devia ir para Lisboa. É uma cidade muito calma, muito propícia à criação, não tem violência. Ao mesmo tempo, é uma cidade muito pulsante, está chegando muita gente.""Começaram a encontrar-se todas as semanas e, de repente - tanto quanto possível -, Marcelo estava a viver em Alfama. Bairro que agora dá nome ao tema que canta com Camané neste disco (e por mais que se saiba que a voz do fadista vai entrar, é sempre uma surpresa quando o faz). Quando o gravaram, já eram amigos.

Sentado numa pastelaria de Santos, o seu novo bairro lisboeta, Marcelo - que conta Patti Smith entre os seus admiradores - recorda a primeira vez que ouviu Camané cantar, e diz: "É muito tudo, muita densidade, reportório muito bonito, é tudo muito bem dito, é uma verdade, uma coisa..."

Repara que este disco não existiria sem Lisboa, sem Camané, sem Marcelo Camelo. Este último referia há dias a "sua voz de veludo e seu violão de marinheiro. Um canto tão particular quanto profundo mas num registro de beleza universal", na sua página de Facebook. "A gente começou fazendo maquetes, demos, na casa dele. Depois passou para um estúdio. Ele trouxe o olhar dele para o disco. Na nossa geração, o Marcelo é o nosso ponta-de-lança, o craque. Num team você tem um craque de futebol, é ele", lança Momo sobre o amigo que em Portugal formou a Banda do Mar com a companheira Mallu Magalhães e com o português Fred Ferreira. Momo percorreu o país com eles nas digressões da banda. Curiosamente, foi Camelo quem também produziu o último álbum de Dom La Nena, Soyo, a conterrânea que amanhã, como Momo, atuará no Teatro São Luiz, no concerto Avenida Paulista, inserido na Capital Ibero-americana da Cultura. Não se conhecem e, a menos que algo aconteça nos ensaios, não se deverão cruzar em palco. No dia seguinte, voltam a atuar no Cineteatro Louletano, em Loulé. Na terça, quinta, sexta-feira e sábado seguinte, o músico fará a primeira parte dos também brasileiros Mariana Aydar e Dani Black.

A Lisboa de Momo

"Eu lembro que quando o Marcelo me mandou a mixagem de Alfama eu estava no telefone, chegando em Alfama. Botei a música e comecei a chorar, subindo as escadinhas. Estava chegando perto de casa, no miradouro de Santo Estêvão, que era onde eu morava, e aí eu olhei de cima o bairro, aqueles prédios, aquelas cores, comecei a chorar. Que encontros felizes..." Além de Camelo e Camané, nesses encontros contam-se ainda Rita Red Shoes, que assinou com ele a escrita de Mimo, e de Thiago Camelo - irmão de Marcelo - que escreveu cinco canções do disco com Momo.

O seu nome apareceu pela primeira vez no álbum A Estética do Rabisco (2006). "Queria um nome que fosse fácil e que se pudesse falar em todos os lugares do mundo, no Japão, nos Estados Unidos... É um romance do Michael Ende, Momo e o senhor do tempo. E o momo é uma figura do Carnaval. Eu queria um nome que fizesse um contraponto àquele disco, muito confessional. Queria encontrar um lugar para me proteger. Na mitologia grega, é a deusa do sarcasmo."

Conta que "a qualquer momento" pode mudar de nome. Mas é improvável, nota. "Hoje em dia eu deixo mais isso para os discos, cada disco impõe um novo desafio, um novo Marcelo." Voá, o seu quinto álbum, traz cores não ouvidas em Cadafalso (2013). "Era um disco muito soturno, obscuro, muito delicado, voz e violão, estou muito exposto ali", explica. Este é um disco bem mais solar, mesmo que canções como Pássaro Azul ou Esse Mar carreguem a melancolia que lhe conhecemos.

Há quase dois anos que o músico não regressa ao Brasil. "Estou muito bem aqui, estou muito tranquilo." Acha que em Lisboa o tempo passa mais devagar, bem diferente da sua cadência em cidades como o Rio de Janeiro ou Chicago. "E não há muito barulho do mundo, dessas imposições, o sucesso, o dinheiro, não sinto muito o cheiro do dinheiro..."

Longe vai o tempo em que viveu em Angola, ou em que passava temporadas com o avô quando a mãe ia ter com o pai nos lugares onde este trabalhava. Contudo, a cartografia continua a ser importante no percurso de Momo. Mesmo aquela que diz respeito apenas a Lisboa. Recorda, por exemplo, o Tejo Bar, perto da casa de Alfama.

"Foi num domingo em que eu estava passando com um saco cheio de chocolates, ia passar um domingo vendo televisão, e aí disse: "Acho que vou dar uma chance para o Tejo Bar." Cheguei lá às sete horas, saí às quatro da manhã." Durante algum tempo, aquele foi o seu "laboratório", como lhe chama.

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