Miguel Palma. A nova vida das coisas que ninguém quer

Ele avisa: estou a inventar agora, amanhã sou capaz de dizer outra coisa. As peças dão novas vidas a objetos que um dia perderam a utilidade, novas histórias contadas na língua que sai da cabeça dele. Em exposição no Museu do Chiado

Era uma vez um isqueiro com a forma de busto de Winston Churchill, uma mecha de pano a sair-lhe da boca como um charuto, embebida em petróleo armazenado na base. Posto em cima de um molde de um tanque de guerra para fundição, com lagartas e rodas novas, o busto é outra coisa. É uma das peças da exposição Miguel Palma. Recolector Transgénico, até 3 de junho no Museu do Chiado.

Com curadoria de Adelaide Ginga, esta mostra repõe a instalação que no ano 2000 ocupou uma sala do mesmo museu, na Exposição de Ocasião (Mil Contos de Publicidade). Mas essa é apenas a última parte do Recolector Transgénico, que recebe o visitante com uma publicidade à Kodak, uma placa metálica com as cores e os dizeres da marca, colocada a uma altura que obriga os mais altos a desviar a cabeça.

No dia anterior à inauguração, o artista percorreu as salas explicando cada peça, mas avisou a meio: "estou a inventar tudo à medida que vou falando, amanhã sou capaz de dizer outra coisa". Não é bem assim, porque ele tem, na sua voz tranquila e falando sempre baixo, uma ideia muito segura sobre o que está a fazer. Fala de artistas e de génios, mas diz que só conhece o mau génio, e não é coisa que tenha.

As duas salas da nova exposição trazem do armazém de Torres Vedras onde Miguel Palma acumula - ele é recoletor, não esquecer - coisas que vai encontrando no lixo, ou nos entulhos das obras, ou que lhe aparecem através de amigos. Coisas de muitos tipos, desde uma máquina de escrever em Braille complementada por um delicado tripé de máquina fotográfica do tempo da Grande Guerra, até um globo terrestre insuflável ligado a um compressor, mas que não consegue ficar redondo porque está apertado numa caixa em acrílico transparente.

Miguel pode explicar o que quer dizer com esta última peça, ou com a anterior, ou com o isqueiro-Churchill-com-tanque-de-guerra, mas na verdade cada visitante vai percebê-las como quiser, porque ele não vai dar livro de instruções. Prefere explicar como chegou a esta exposição. Mais do que refazer a instalação de 2000, queria utilizar muitos dos objetos que acumula: "Não são coisas valiosas, são coisas que me interessam. Coisas que vou guardando, às vezes de uma forma muito emocional, não sei muito bem por que razão. Mas vivem comigo e por viverem comigo mais tarde ou mais cedo fazem parte do trabalho que faço."

Quem o conhece tem a tentação de lhe oferecer objetos destes que "ninguém quer", e Miguel aceita tudo, e depois dá-lhes vidas que ninguém esperava. Como o berbequim que surge na parede da primeira sala, numa instalação que é afinal um desenho gigante feito sem lápis nem pincéis, com fios a ligar diferentes objetos. Era uma ferramenta que pertencia a um museu, com a qual se habituou a trabalhar: ofereceu-lhes um novo e recebeu o velho em troca.

Agora esta ali na parede: "Faz parte de um trabalho que se aproxima mais da ideia do desenho. A régua marca uma espécie de cronologia temporal desde uma época mais do combustível fóssil. Estes objetos não têm uma relação direta mas falam de uma coisa que me interessa. Quando ando de avião penso naquela coisa de ar que nos pode ser útil e que nunca usei [máscara de oxigénio]. Ao lado, há uma caixa do final dos anos 1960, quando o Homem foi à Lua, depois um relógio para quem joga xadrez. E por aí fora. São tudo objetos que acho fundamentais. A raquette de badminton está por baixo de um grampo, que é uma coisa que tem uma força brutal."

Miguel Palma diverte-se, sempre com o ar contido de quem vê tudo com grande normalidade, quando o confundem com "um romeno ou um bielorrusso", a procurar coisas no lixo. "Se me fazem perguntas, falo com sotaque e digo que gosto muito de lixo e que ainda bem que vivo num país rico".

Uma vez revelou que é artista plástico, quando remexia no entulho de uma obra na rua onde mora. "Apareceu o dono da obra e perguntou o que eu estava ali a fazer. Estou à procura de lixo, porque sou artista plástico. Tive que explicar para ele ter algum respeito e não me tratar pior. Ele tirou o capacete, sorriu e disse: conheço o seu trabalho, já estive para comprar uma peça sua. Fiquei a pensar, agora nunca mais me compra nada, está a ver-me a mexer no lixo. Mas ele convidou-me para jantar passado um tempo, depois ainda nos encontrámos mais vezes e ficámos próximos."

Esta foi uma situação insólita, mas ainda assim relacionada com o que Miguel procura: "O trabalho que faço muitas vezes não é trabalho de ateliê, é um trabalho de sair de casa. Quando se sai de casa, sai-se do contexto em que nos sentimos mais confortáveis".

Como pode determinar se um objeto banal se torna uma obra de arte e tem cabimento num museu? "Tem cabimento num museu porque está num museu. Se estivesse numa loja vintage com um café, podia ser em Brooklyn, seria uma curiosidade, não era arte. Mas isso não me interessa, não quero criar aqui coisas com molduras."

Não vai, isso é garantido, à Feira da Ladra. Primeiro, porque não acerta nos dias, terças e sábados. Mas sobretudo porque podem ser assustadores os motivos por que as peças estão ali à venda. "Tenho essa coleção de objetos e estou sempre a olhar para eles, cada um deles é quase um banco de imagens e ideias que vou juntando e reconstruindo as minhas histórias".

Outra história, esta feita de equilíbrios: Uma lata Esso com uma pequena balança por cima: "Vou sentir-me muito mais responsável, mais feliz, um dia que vá passear no meu carro elétrico. Continuo a gostar do cheiro a gasolina mas tenho consciência de que isso é mau. É como o meu almoço de hoje. Comi um bife com natas e depois uma rodela de ananás, como se pudesse equilibrar uma coisa com a outra, uma palermice."

Na segunda sala, há entre outras peças uma máquina de ler microfilmes. Miguel começa a imaginar que é possível levá-la para a mesa de um café e ficar a ver imagens. É claro que não é uma peça portátil, dada a grande dimensão. "Hoje um computador é muito diferente, já nem são caixas, mas isto ainda tem o formato de uma televisão antiga, é uma peça que dá para uma pessoa estar aqui dias. Eu queria era ver se encontrava microfilmes."

Noutro espaço de Lisboa, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (maat, Fundação EDP), é possível ver mais trabalhos deste artista, até 28 de maio. Em vez de instalações ou esculturas, aqui escolheu "um cardume de 320 desenhos", por sugestão do diretor Pedro Gadanho e com curadoria de Adelaide Ginga e de Luísa Santos. É a exposição Miguel Palma. A - Z, no Projetc Room daquela instituição.

Tem também obras expostas na coletiva Variations Portugaises, no Centro de Arte Contemporânea de Meymac (entre Limoges e Clermont-Ferrand, na Nova Aquitânia, França) até 17 de junho. E no próximo ano terá uma "exposição muito grande" no Museu Coleção Berardo, em Belém.

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