Marianne, "acho que vou seguir-te muito em breve"

Leonard Cohen escreveu em agosto uma carta à sua antiga paixão e musa, a mulher da música "So Long, Marianne"

"Sabes Marianne, chegou este tempo em que estamos realmente tão velhos e os nossos corpos estão caindo aos poucos que acho que vou seguir-te muito em breve. Sei que estou tão perto de ti que se esticares a tua mão, acho que consegues tocar na minha." Leonard Cohen escreveu estas palavras em julho para Marianne Ihlen, uma antiga paixão e musa inspiradora de músicas como Bird on a Wire ou So Long, Marianne, que estava à beira da morte.

Foi pouco antes de esta norueguesa, que conheceu na ilha grega de Hidra na década de 1960 e com quem viveu um romance, ter morrido, vítima de leucemia, a 29 de julho. Segundo revelou o amigo Jan Christian Mollestad, Leonard Cohen respondeu-lhe por escrito a uma carta em que o informava do estado de saúde desta.

Antes de morrer, Marianne ouviu a mensagem que Cohen lhe enviou, na qual lhe declarava amor eterno. "Sabes que sempre te amei pela tua beleza e sabedoria, mas não preciso de dizer mais nada sobre isso porque sabes tudo sobre isso. Agora, só te quero desejar uma boa viagem. Adeus velha amiga. Amor sem fim, vemo-nos no fim da estrada", terá escrito, segundo contou Jan Christian Mollestad à rádio canadiana CBC.

O realizador escreveu depois a Cohen informando-o da morte de Marianne. A mensagem foi publicada no Facebook do músico, a 2 de agosto, e dizia que esta ainda estava plenamente consciente quando ouviu as suas palavras. "Quando a lemos em voz alta, ela riu-se à gargalhada como só ela sabia fazer", contava. "E levantou a mão quando lhe disse que estava mesmo perto dela, perto o suficiente para a tocar", continuava.

Jan Christian Mollestad garantia que o facto de Cohen saber do seu estado de saúde dera paz de espírito a Marianne. "E a sua bênção para a viagem deu-lhe força extra", acrescentava, explicando que, depois de a sua "alma ter pairado pela janela fora para novas aventuras", os amigos beijaram-na e sussurraram umas últimas palavras: "So long, Marianne.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.