Le Consulat passa visto a artistas catalães

Dois fotógrafos catalães, Carmen Escudero e Miquél Llonch, mostram o seu trabalho na galeria de arte do hotel onde durante um século funcionou o Consulado do Brasil em Portugal. A ideia é dar espaço aos artistas do Mediterrâneo

Quem passa na praça Luís de Camões pode ficar (ainda) surpreendido por encontrar um hotel e bar naquela que foi durante um século a morada do Consulado do Brasil em Portugal. Mais surpreendido ao encontrar a indicação de galeria no primeiro andar. Esta sexta-feira à noite, inaugurou a segunda exposição com artistas da geografia do momento: Carmen Escudero e Miquél Llonch, da Catalunha.

Ambos fotógrafos, ambos interessados na natureza, foram escolhidos pela curadora da galeria do Le Consulat, Adelaide Ginja, conservadora do Museu Nacional de Arte Contemporânea e investigadora na área das artes digitais, para se apresentarem juntos. Com eles cumpre-se um dos papéis deste lugar. Ser um ponto de encontro da produção artística do Mediterrâneo - um chapéu que abriga Portugal (artistas emergentes portugueses estiveram na exposição inaugural), Espanha, França e Itália a partir das afinidades geográficas do proprietário. François Blot, francês, que vive entre Lisboa e Barcelona. Sem esquecer o Brasil, memória indelével da história do número 22.

O Le Consulat é um desses prédios em que uma sala dá para outra sala que dá para outra e assim sucessivamente. Albergam, até 19 de novembro, as obras dos artistas, convivendo com azulejos, antigas lareiras e os bastidores do hotel, como a copa ou a lavandaria.

Quinta-feira ao início da tarde, as paredes recém-pintadas de branco ainda estão quase nuas. Salvam-se duas fotografias de Carmen. "Paisagens imaginárias", chama-lhes autora. "São ilusões de ótica". Como chega a estes efeitos é segredo que prefere não revelar. Afirma, em contrapartida, "não há photoshop". Um dado também valorizado pela curadora Adelaide Ginga na hora de juntar os dois trabalhos. "Trabalham com a luz do momento", frisa. "São captação com uma grande acuidade, grande qualidade técnica", considera.

À medida que se avança pelas salas, o trabalho de Carmen Escudero torna-se mais concreto. E deixa claro um tema evidente no seu trabalho, admitido pela própria. "Tenho obsessão pela água".

Carmen Escudero, 55 anos, é psicóloga e coach. Durante 15 anos fez fotografia de moda. "Agora só faço quando me agrada, a última [sessão] foi para Jesús del Pozo. Há dez anos decidi fazer o meu caminho pessoal", conta. "Sou psicóloga e habituei-me a não esperar nada da fotografia. Dediquei-me aos meus projetos especiais e a verdade é que tem ido muito bem", reflete.

A curadora selecionou várias séries de ambos os artistas. A última afasta-se totalmente da água e do mar. É um trabalho que a artista realizou na Gâmbia, a convite de uma Organização Não Governamental (ONG). No dia antes de chegar, a escola que ia fotografar ardeu. O trabalho manteve-se. É uma série com retratos, única entre as imagens que trouxe para Lisboa. "Não quis prescindir do conjunto de África", salienta a curadora. "Elas estavam em choque. Para mim, é [um trabalho] muito emotivo", diz a artista. "

A segunda metade da galeria alberga várias séries de trabalhos de Miquél Llonch. Atrás do artista, há um fotógrafo que trabalha para um banco de imagens ("É difícil dizer o que influencia o quê", admite). "O que é fascinante no trabalho de Miquél é como as fotografias parecem negras e depois como a luz lhes chega", afirma Adelaide Ginga, enquanto o artista pendura um dos seus quadros, revelando uma paisagem natural. "Sente-se o silêncio nas fotos dele", diz, explicando assim o título da exposição, Silêncios, Vales e Ecos, a partir de um poema de Federico García Lorca.

"O que me atrai na fotografia é que, a partir da realidade, poder mostrar um mundo paralelo", explica o autor, 53 anos, garantindo não ser intencional esse encontro entre a paisagem natural e, longínqua, a cidade. A maioria foi captada nos arredores da cidade catalã de Tarrasa. "São lugares onde vou amiúde. Vivo na cidade, mas sinto necessidade de encontrar-me com a natureza".

Adelaide Ginga explica: "O Miquel explora padrões clássicos, vários planos de aproximação, pontos de fuga. Aquela ideia da fotografia que substitui a pintura, tem aqui a versão da fotografia que se encontra com a natureza pelas regras da pintura".

Esta série foi editada em livro, numa coprodução entre editoras de França e Espanha. Chama-se In Fields of Gold, um título em inglês para ultrapassar a questão idiomática. Originalmente, chamava-se, em catalão, Els Camps d"Or. O nome foi rejeitado, ficou o inglês, título da canção de Sting.

A derradeira sala desta exposição, patente até 19 de novembro, é dedicada ao retrato, replicando a mesma organização do trabalho de Carmen Escudero. A m ais antiga das imagens de Lloch é de 2005 e a protagonista é a sua filha. "Não queria o retrato tal e qual, queria algo mais onírico", defende. As pessoas não olham para a câmara. "Pouco a pouco encontrei o que queria, com a câmara no tripé e uma exposição muito longa". Os protagonistas continuam a ser gente que conhece. Amigos, família, conhecidos, ou, como prefere descrevê-los, "a tribo".

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Catarina Pires

Filha adotiva da Margem Sul

Nasci em Lisboa e cresci em Paço de Arcos. A primeira vez que passei a Ponte 25 de Abril seria adolescente e o destino seria provavelmente o Algarve. Só terei virado para a rotunda do Centro-Sul três vezes, antes dos 30: uma vez para ir ao Onda Parque, outra levada a uma praia da Costa por um namorado de Lisboa, outra para ver uma exposição na Casa da Cerca, em trabalho. Almada era uma cidade que desconhecia até escolhê-la como casa, há 15 anos, por amor e por causa do mercado imobiliário, que já na altura afastava a pelintragem de Lisboa e da linha de Cascais. Os meus filhos nasceram os dois no Hospital Garcia de Orta, no Pragal, e lembro-me de o meu pai gozar, quando foi do João, o primeiro: "Quem é que nasce numa terra que só tem os escritórios da Brisa?" O meu pai nasceu em Paço de Arcos, uma terra sem escritórios. Linda, minha e sem escritórios. A snobeira de quem tem como berço a linha do Estoril está inscrita no genes e não olha a classes sociais. Eu, por exemplo, ainda hoje dou por mim, de cada vez que digo a alguém de Lisboa ou da Linha que vivo em Almada, a usar a adversativa "mas", "mas sou de Paço de Arcos". E depois a sentir-me estúpida por isso. Faço-o à defesa, porque pressinto o preconceito. Que está tanto na cabeça deles como (ainda) na minha. E não há nada mais estúpido do que o preconceito. Sou de lá, mas também sou de cá, a terra que os meus filhos, que aqui nasceram, acham que é a melhor do mundo, "a margem certa". "Sou da Margem Sul", dizem eles com orgulho. Para eles é uma identidade. Como é para mim ser de Paço de Arcos, mas a identidade, sei eu (eles ainda não), é uma coisa em construção, onde cabem muitas. Podemos ser de muitos sítios (e de tantas outras coisas), que fazem de nós quem somos. E Almada talvez seja o lugar que mais contribuiu para quem sou hoje. Por isso, acho que é tempo de dizer que sou da Margem Sul. O Sul é a minha casa.

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João Céu e Silva

Corações estrangeiros na areia até o mar os apagar

Quando se fala em Sul no nosso país vem logo à cabeça a palavra Algarve e ninguém se lembra do Alentejo, a região que só usamos para se chegar ao mar. Se formos turistas, a situação é diferente, pois muitos dos que vão para lá passar férias aterram logo no Aeroporto de Faro. O que leva milhões de pessoas a encaminharem-se dos seus países para o Algarve, e algumas delas a ficarem por lá até ao fim das suas vidas, resultará de múltiplas razões. A principal, além das fotografias das praias, será o boca-a-boca que amigos transmitem uns aos outros. Tanto assim que os grupos formam-se e desaguam por ali por qualquer bom motivo, como o de despedidas de solteiras. São às dezenas! E de solteiros também. Aí, com a particularidade de os noivos serem na maioria gays, como se depreende das suas esfuziantes celebrações. O que os leva a todos até lá só um bom inquérito poderá esclarecer, mas assisti a uma prova viva que se me a contassem eu diria que era vinda de pessoas com uma boa imaginação e um certo toque de inventividade. O que foi? Ao caminhar pela praia vi um jovem casal de estrangeiros parado na areia da baixa-mar a fazer um desenho. Não estranhei que a arte representasse por um coração, mas foi impossível não ficar admirado quando observei que em vez dos nomes deles estava a palavra "Portugal" em letras grandes. É certo que depois acrescentaram os seus nomes - e tudo ficou bem. Certo, deveria ser um casal que estava em fim de férias algarvias e gostara muito da região, expressando deste modo o seu agradecimento durante umas horas até que a maré subisse e apagasse aquela declaração de amor. No entanto, dois dias depois voltei a ver outro casal - eram sempre casais - a imprimir na a areia um simpático "Love Portugal". Era o princípio de um padrão que me surpreendia. No dia seguinte, outro casal entretinha-se na mesma expressão de sentimentos, e lá estava a desenhar mais um coração com três palavras lá dentro: os de uma mulher e um de homem e de novo o país... As minhas férias acabaram, mas, se a moda pegou, quem foi a seguir continuou a descobrir estas mensagens inesperadas para nós, que estamos sempre a dizer mal de uma palavra que fica nos corações estrangeiros por alguma razão.