José Espinho, designer industrial sem saber que o era

O seu trabalho está espalhado por Lisboa e o Museu do Design mostra, pela primeira vez, o seu percurso. Até 6 de maio

Não há volta a dar nem disso faz segredo Maria José Espinho Galamba. "O meu pai não foi reconhecido pelos seus pares." É uma mágoa que tem e que a exposição José Espinho. Vida e Obra até 6 de maio no MUDE - Museu do Design pode alterar, fazendo luz sobre o trabalho do designer que criou para hotéis como Ritz, o Mundial, o Tivoli ou o Estoril-Sol, que desenhou os estiradores que ainda são usados no Instituto Superior Técnico e as cadeiras onde os clientes se sentam na cervejaria Solmar.

A partir do trabalho de investigação da curadora da exposição, Graça Pedroso, sobre mobiliário português, desfia-se um percurso de 40 anos de trabalho de José Espinho (1915-1973), que começa na Câmara Municipal de Lisboa, onde trabalha com Leitão de Barros, nas marchas populares e na ilustração de livros, uma vez terminado o curso da escola António Arroio com a especialização em desenho de litografia.

"A obra é muito diversa, vasta e importante, sobretudo para a cidade de Lisboa", contextualiza Bárbara Coutinho, diretora do MUDE e cocomissária da mostra, mais uma dentro da prioridade estratégica do museu de abordar figuras da história do design português (por lá passaram António Garcia e Eduardo Afonso Dias).

Nada dado a academismos, chamava-se a si mesmo "a mulher-a--dias da decoração", revela Maria José, a mais nova de três filhos, que chegou a secretariar o pai no seu ateliê. Prometeu à mãe que um dia faria justiça à obra do pai. Enquanto percorre a exposição no piso 3 do MUDE diz várias vezes: "Não pense que digo que é preciso falar do meu pai como filhinha, é pelo trabalho."

Espinho nasceu no tempo em que ser arquiteto de interiores não era profissão, em que o design não era disciplina, não se falava em design industrial, e ele era "decorador". "Era designer industrial e não deu por isso", sintetiza Carlos Galamba, genro, também designer.

De Beringel para Lisboa

O talento de Espinho é notado por quem frequenta a mercearia da mãe, em Beringel, Beja. O pequeno desenha no papel de embrulho e um conhecido da família convence-o a ir para Lisboa estudar. Vive no Patronato para a Infância até começar a vender os seus desenhos.

Desenhava no papel de embrulho da mercearia da mãe

Em casa, tinham um pai "para a frente", que queria que os filhos "vissem de tudo", que adorava fotografia e filmar. Alguns dos seus filmes abrem a exposição. Mostram trabalho e o seu sentido de humor. Num deles, vemo-lo em Paris a dançar na rua. "O meu pai era assim." São filmes para ver sentado no cadeirão laranja da casa da família na Prainha, que Maria José recuperou. É obra de José Espinho, mas é mais do que isso. É uma parte da história do design português do século XX. Aqui se sentaram António Garcia, o dono dos móveis Sousa Braga e Daciano da Costa. Todos concordavam: "É preciso falar mais do teu pai."

Alma da Olaio

Sucedem-se, cronologicamente, as suas fases. Há uma marca historicista nos primeiros trabalhos, gráficos e de mobiliário, Espinho trabalha com o arquiteto Keil do Amaral, que lhe fala pela primeira vez nos móveis Olaio. O trabalho de mais de 20 anos para essa fábrica tem um cunho moderno, que a exposição salienta. Chegou a muitas casas portuguesas e a instituições públicas como a Escola Superior de Enfermagem ou a RTP e, no boom do turismo, a hotéis da cidade. Para a exposição vieram cadeirões do hotel Ritz. Do Estoril-Sol restam uma cadeira desdobrável e uma mesa de apoio. O que resiste atinge preços dignos de raridade e estatuto de obra de arte. É nessa qualidade que o trabalho de Espinho chega à galeria Bessa Pereira em 2013. Por estes dias também pode ser visto no Museu de Cerâmica de Sacavém, na exposição da fábrica de móveis Olaio.

José Espinho. Vida e obra no MUDE - Museu do Design e da Moda, de terça a domingo, das 10.00 às 18.00. Até 6 de maio. Entrada livre

"A arquitetura de interiores é a mais efémera e está mais sujeita à mudança de gosto, à transformação dos usos e à apropriação de cada um", explica a diretora do MUDE, abrindo a porta a um debate sobre o que deve, ou não, ser preservado. "Não temos sido capazes de avaliar o que são os espaços que merecem ser património classificado", considera. Não se trata de musealizar tudo. "É necessário conhecer os espaços e avaliar a sua representatividade e a sua importância para a nossa identidade e património."

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