Joias da coroa dos vikings tomam de assalto o Museu de Marinha

Mais de 650 peças, a maioria com mais de mil anos, revelam faces pouco conhecidas da era viking: uma sociedade complexa, de comerciantes e guerreiros sem chifres nos capacetes.

Uma sociedade guerreira, violenta, que praticava incursões e ações de pilhagem, usando uns grandes machados e capacetes com chifres. Essa é a imagem que a maioria das pessoas visualiza quando se fala em vikings. A exposição Vikings - Guerreiros do Mar, no Museu de Marinha, em Lisboa, desmistifica alguns dos estereótipos e revela outras facetas destes povos.

As cerca de 650 peças originais pertencem ao Museu Nacional da Dinamarca e a exposição, que conta ainda com seis vídeos e muita informação gráfica (tanto nas paredes como no chão), conta com "as joias da coroa das coleções do Museu Nacional da Dinamarca do período viking. E esta é uma das últimas oportunidades para se ver este conjunto porque terminando esta exposição, a maioria das peças regressa à Dinamarca onde o Museu Nacional da Dinamarca, que está a reformular a sua área de exposição viking, as irá integrar", sublinha o tenente Gonçalves Neves, chefe do serviço de investigação do Museu.

A primeira sala serve de introdução e, para além do vídeo de 13 minutos, legendado em português e inglês, é também possível tomar o peso de uma espada viking ou das cotas de malha que colocavam por cima das várias camadas de roupa de lã que vestiam.

Na sala seguinte, o segundo momento da exposição tem como protagonista o navio, "elemento que lhes permitiu projetarem-se para o exterior e chegarem não apenas à orla costeira atlântica mas também ao Mediterrâneo, ao mar do Norte, à Gronelândia, à Islândia e à Terra Nova". Os barcos que fizeram essas aventuras só se adivinham nas linhas desenhadas na alcatifa, mas não deixa de impressionar o comprimento: 37 metros de comprimento, tamanho do maior exemplar encontrado até agora, denominado como Roskilde VI. Já a largura era de apenas 4 metros. "Este era um dos gigantes dos mares da era Viking", assinala o também curador executivo da exposição.

Quanto à embarcação que se vê na exposição, uma réplica de uma original encontrada num local de enterramento (como a esmagadora maioria das peças da era viking que chegaram aos nossos dias), com apenas 9,5 metros, era uma embarcação de apoio. Mas tem uma história particularmente interessante: "Chama-se Joana e foi construída em Portugal, no pavilhão da Dinamarca, durante a Expo"98, com os mesmos materiais e técnicas com que os navios vikings eram feitos", conta o tenente Gonçalves Neves. "Construída em pinho e carvalho e com as velas em lã, impermeabilizadas com gordura animal, os cabos são feitos a partir de fibras de tília, com exceção da escota, o cabo que serve para manobrar a vela, que é feito de crina de cavalo, material que, apesar das temperaturas negativas, não congelava", explica o comissário.

Apontando para uma das peças originais de um navio na exposição, o tenente Gonçalves Neves explica que "a era viking é caracterizada pela utilização da vela nos navios. Até então, ao século VIII, as embarcações utilizadas eram sobretudo a remos. De acordo com os vestígios arqueológicos e documentais, é a partir do século VIII, que os navios começam a ser aparelhados com velas. É isso que lhes permite começar a percorrer distâncias cada vez maiores e aventurarem-se em águas onde até então nunca tinham estado".

"Essencialmente existiam dois tipos de navios: os de guerra, longos mas estreitos, e os de carga, os drakkar, mais largos para poder levar maior quantidade de carga", acrescenta. "A importância dos navios no quotidiano dos vikings pode ser vista pela sua presença em elementos decorativos", assinala, apontando para uma pregadeira e para moedas expostas.

A exposição prossegue com os guerreiros do mar, mostrando as armas que utilizavam: espada, escudo, machado e lança, mas também estribos, esporas e ferraduras, "porque o cavalo era outro elemento permanente na sociedade como elemento de diferenciação social, meio de transporte, e usado na estratégia de guerra."

O curador chama a atenção para o reduzido tamanho dos machados e para as espadas "não muito longas em relação às típicas espadas medievais". A razão é simples e de cariz prático: "Todo o armamento era muito portátil, facilitando o rápido embarque e desembarque". Falta juntar às armas, as cotas de malha e os capacetes... sem chifres. "Foram descobertos muito poucos vestígios de capacetes, o que significa que não seriam muito utilizados, e de todos os que foram descobertos, nenhum utilizava esses chifres. Essa iconografia dos vikings surgiu no século XIX quando estreou as Valquírias de Wagner, inspiradas nas sagas nórdicas, e o cenógrafo, como não tinha muitos elementos sobre iconografia viking, baseou-se nos povos godos, visigodos e celtas, esses sim utilizavam capacetes com chifres, para representar o viking."

Mas se do lado esquerdo temos o viking com uma espada na mão, do lado direita, uma outra faceta - na outra mão transportavam sempre uma balança. O viking comerciante. Daí os mapas com as rotas de comércio que estabeleceram ao longo da orla costeira atlântica, entrando no Mediterrâneo, e através dos rios interiores da Europa estabeleceram rotas que chegaram ao Mar Negro e há até a informação da presença de mercadores nórdicos nos mercados de Bagdad.

Conseguimos também perceber como faziam o comércio: "cada vez que necessitavam de adquirir um produto, esse produto era valorizado em termos de peso de metal preciso. E para tal cortavam um troço de prata ou utilizavam um anel de prata", refere. A espécie de pulseira com o que parecem ser vários anéis enfiados que se pode ver numa vitrina "é uma espécie de porta-moedas da altura", diz. Também lá estão as balanças e os pesos que eram utilizados na negociação para se chegar ao pagamento. "Mesmo as moedas encontradas, muitas delas são talhadas porque para os vikings não valiam pelo valor facial mas pelo peso do metal em que eram feitas (sobretudo de prata e algumas em ouro)", assinala.

E exportavam produtos de produção local: põe exemplo, temos aqui recipientes de esteatite, uma pedra bastante moldável e leve, eram utilizados como recipientes; mas também foram encontradas peças de joalharia nórdica e outros produtos em locais como a atual França, Alemanha, demonstrando que havia uma procura e consumo desses produtos.

O terceiro núcleo da exposição é dedicado às crenças e religiosidade, destacando-se a réplica à escala real da Grande Pedra de Jelling, complexo residencial real na Dinamarca, de Harald Dente Azul, de cerca de 950 d.C., unificador dos povos da atual Dinamarca e Noruega, e que introduziu o cristianismo. Daí a imagem de Cristo na Cruz numa das faces, imagem que consta nos passaportes da Dinamarca. "Para os dinamarqueses, esta pedra é apelidada como o certificado de nascimento da Dinamarca moderna", explica.

Numa outra face desta pedra, "temos uma figura mitológica associada ainda aos cultos pagãos. Um momento de sincretismo religioso em que há a adoção do cristianismo mas uma permanência de alguns rituais pagãos tradicionais", sublinha.

A toda a volta da Grande Pedra de Jelling, em pequenas vitrinas, elementos de uso pessoal associado a cultos pagãos: o martelo de Thor, as Valkírias, os elementos femininos que combatiam ao lado dos guerreiros, e um bastão de uma feiticeira, de uma Völva, mediadoras entre as divindades e o comum dos mortais, eram também elas que realizavam as principais cerimónias religiosas. Vêm-se ainda amuletos associados a divindades do panteão pagão nórdico, figuras aladas e outros animais associados ao bestiário pagão. Todas estas peças são provenientes de locais de enterramento de indivíduos.

A seguir entra-se numa recriação de uma casa unifamiliar que permite perceber melhor a vivência desta sociedade encerra a exposição. "Uma complexa e hierarquizada sociedade, inclusivamente do ponto de vista da organização e distribuição social do trabalho, havia artesãos especializados no trabalho do metal (com ferramentas muito semelhantes às que ainda hoje são utilizadas), do osso, da lã".

Por fim, a exposição mostra que os vikings eram também construtores de superestruturas, terminando com um pilar original em carvalho de uma ponte que teria pelo menos 750 metros de comprimento, mas poderia chegar até 1 km de via superior assente em estacas como este pilar. "Seriam centenas destes pilares que suportariam a estrutura de ponte. Só uma sociedade altamente organizada conseguiria produzir estruturas desta dimensão. Se pensarmos que não tinham serras, era tudo à força de braços e machados que todos estes pilares eram talhados...", contextualiza o tenente Gonçalves Neves.

Informação útil

Vikings - Guerreiros do Mar

Museu de Marinha, em Lisboa

Todos os dias, das 10.00 às 18.00

Bilhetes: 11,2euro (a partir dos 13 anos),

8,6euro (entre os 4 e os 12 anos e maiores de 65 anos); grátis até aos 3 anos

Exclusivos