João Pina: "A lógica da Cidade Maravilhosa não devia ser de conflito, mas é"

O trabalho realizado no Rio de Janeiro ao longo de quase uma década valeu ao fotojornalista português o prémio Estação Imagem em 2017. Agora compõe o livro 46750

Jovens traficantes fazem uma pausa e dão as mãos para uma oração durante a visita de um pastor evangélico, uma menina vê a telenovela numa tenda montada na igreja em que vive, o funk carioca transpira sexo, duas crianças voltam da escola e por elas passa a polícia com um homem já feito cadáver que resistiu à ordem de prisão, as crianças esperam as pipocas dadas pelos traficantes, Edilma Maria Ferreira, de 26 anos, está no chão, assassinada, grávida de sete meses; uma rapariga parece estar a rezar mas não, assiste a um jogo entre o Brasil e a Croácia; numa delegacia, Nossa Senhora da Aparecida parece piscar-nos o olho, ou não estar a ver bem. Tudo isto se passa no Rio de Janeiro tal como o fotojornalista João Pina o viu, entre 2007 e 2016. Movimentou-se ora com traficantes ora com polícias na Cidade Maravilhosa e nas suas favelas, lugar do mundo onde estes últimos mais morrem. 46750 (editado pela tinta da China) é o livro que guarda essas fotografias, acompanhadas de poemas de Viviane Salles, voz "de dentro", da favela Cidade de Deus.

O que estava a registar quando o Rio estava em euforia à espera de receber o Mundial e os Jogos Olímpicos?

Estava na violência pura e dura, nos conflitos entre traficantes e polícia, entre traficantes e os traficantes, entre as milícias, a tentar entender essa realidade paralela que é muito forte.

Que tipo de presença se tornou ali?

Era sempre um ser um bocado estranho ali. Era gringo, não era brasileiro, mas falava português. O facto de não ser brasileiro era muito bom porque tirava muita suspeição de que eu poderia ser um informador da polícia. O que eles chamam a grande media, os jornais grandes, é vista com bastante suspeição pela maioria dos habitantes das favelas.

Que tipo de permanência foi precisa para chegar a fotografias como aquelas em que vemos um grupo de traficantes em pose ou pessoas que acabaram de perder alguém próximo?

Tem muito que ver com o tempo, o momento e a paciência. Por cada foto em que existem traficantes com armas ou a fazer outras coisas, há dezenas desses momentos que eu não pude fotografar, porque ainda não era o momento, porque havia uma tensão no ar. Tinha de medir muito bem isso e sobretudo tinha de me preocupar com as pessoas que me conseguiram o acesso. Eu vou e venho, as pessoas que convencem o traficante a posar para mim, porque dizem que eu sou de confiança, ficam lá.

[A mulher grávida] Provavelmente é a foto mais brutal que eu fiz na vida, mas também era uma foto demasiado importante para contar este absurdo

Que sentido o grupo de traficantes atribuiu àquela fotografia?

Para eles, obviamente havia uma coisa de ego, é alguém que vem de longe e os fotografa, e havia uma questão futebolística. Se reparares, o que está no centro tem um casaco do Vasco da Gama, que é o clube dos portugueses no Rio. Toda a gente me dizia: "Você é do Vasco não é?" Eu na verdade sou do Porto... Depois fotografei outro que tinha uns autocolantes do Botafogo na metralhadora e comecei a meter conversa com ele, é o que está a jogar matraquilhos. Tem que ver com isso, com essa interação, com criar empatia com as pessoas. Isso vem da língua, mas sobretudo vem do olhar, de um esforço que eu fazia para saber estar numa realidade que não é a minha, mas respeitando as pessoas e dando um olhar que tenta não ser sensacionalista. E depois obviamente fazendo um contraponto disto: indo olhar para a polícia, para os bombeiros, para a população civil que está no meio disto neste ciclo absurdo. Como é que se mata uma grávida e não é nem meia página de jornal?

Pensou muito antes de pôr a fotografia da mulher grávida executada? Olha-se e o primeiro impulso é virar a cara.

Claro que sim. Aquilo está num esquema desdobrável. Existe todo um ato em que tens de fisicamente abrir se queres de facto ver. Pensei muito, debati muito e em conversa com várias pessoas cheguei à conclusão de que é uma foto brutal, provavelmente é a foto mais brutal que fiz na vida, mas também demasiado importante para contar este absurdo. Como é que isto pode acontecer? E não é uma nem duas. Como é que se mata uma mulher grávida, o ícone máximo da vulnerabilidade? No Brasil, ela vai no autocarro, ou onde quer que seja, e as pessoas levantam-se para lhe dar o lugar, ao contrário daqui. E isto acontece. São estes contrastes que me interessam.

Teve de conter alguma espécie de julgamento moral com os traficantes e com a polícia?

É muito mais justificado nas unidades de elite da polícia do que da polícia do dia-a-dia, porque a do dia-a-dia sabe perfeitamente que esta é uma guerra absurda, mas é a guerra que os mandam combater. Onde é que passa pela cabeça de alguém uma unidade de investigação da polícia, da PJ, andar de metralhadora no meio da rua à troca de tiros com traficantes? Para quem não tem noção: nós estamos na rua do Chico Careca [Restelo], eu dou um tiro daqui, facilmente ele vai parar aos Pastéis de Belém, um quilómetro e meio naquela direção. Um tiro de fuzil vai dois. Os tiros que não acertam numa parede vão acertar em alguém. Os 46 750 são isso, são as pessoas que todos os dias estão no sítio errado na hora errada e são vítimas de violência, a todos os níveis. Há qualquer coisa profundamente errada no facto de isto ter chegado a um momento em que as armas que estão a ser usadas nas favelas do Rio são as mesmas que estão a ser usadas na guerra do Afeganistão.

Em vez de morrerem, desaparecem. 'Não, ele se calhar foi com outra mulher.' A lógica era essa, igualzinha à das ditaduras militares.

Pode dar um exemplo?

A primeira operação que fiz com a polícia, em 2007, foi no Complexo do Alemão, e uma das coisas que eles apreenderam foi uma antiaérea, que é usada para abater helicópteros e aviões. Estamos neste nível. E há muita gente a fazer muito dinheiro com esta guerra. A maioria não é o traficante da favela. É esta lógica que não entra ainda no léxico do comum dos mortais no Brasil. Continuamos, graças a políticos populistas e a uma imprensa que eu acho pouco séria, a falar do bandido; não há presunção de inocência. A polícia diz: "Matámos um bandido." E ninguém vai lá verificar, toda a gente imprime isso. Por outro lado, existe esta noção de que a culpa é de todos em geral, e não é de ninguém em particular, que é uma coisa muito portuguesa. Existe a ideia de que é preciso mudar, mas ninguém faz ideia de como é que isto se muda. Então mandam-se 40 mil soldados, como se estivessem treinados para aquilo, fazer trabalho de polícia de investigação. É um delírio absoluto. Alguém que é branco, da zona sul, que não vive esta violência diária, que não é parado pela polícia por ser branco, não atribui grande relevância àquilo.

Vivem tranquilamente?

Não vivem tão tranquilamente, mas, há uns anos largos, li um estudo interessante que dizia que as duas ruas principais do Leblon e de Ipanema gastam mais em segurança privada do que a cidade do Rio de Janeiro gasta em segurança. Isto é revelador. O que interessa não é a cidade, é o "eu", e o "eu" blinda-se; o resto lá fora que se lixe. A culpa disto não é de meia dúzia que andam de chinelos, de granadas e de fuzil. O problema mais visível são eles, mas a culpa de as coisas estarem como estão não é deles. Eles vivem numa realidade em que o salário mínimo não paga nada numa sociedade que estimula o consumo em tudo. Muitos desses miúdos entram para o tráfico por causa disso, sabem que vão viver pouco, mas que vão viver uma vida cheia: festas, mulheres, cordões de ouro. Depois há um dia em que levam um tiro. No morro toda a gente conhece alguém que morreu. Tens graffiti na parede: saudades do não sei quantos que morreu. E agora, depois de 2010, quando supostamente se começou a pacificar o Rio, o número de homicídios baixou, grande sucesso internacional. E o número de desaparecidos? Quem é que foi lá ver esse número? Ninguém. Não havia registos. Em vez de morrerem, desaparecem. "Não, ele se calhar foi com outra mulher." A lógica era essa, igualzinha à das ditaduras militares.

Foi depois de decidir retratar este lado do Rio que percebeu que teria de fotografar tudo o que ele torna tão intenso, a alegria, a festa, o futebol, a dança?

Não, foi o contrário. Cheguei ao Rio em 2006 e fui literalmente tentar perceber o que era aquilo. Aluguei um quarto em Santa Teresa e um amigo que vivia nesta casa disse-me: "Estão sempre em guerra, portanto é muito normal veres traficantes. Aqui estamos bem porque não há muita bala perdida, mas três prédios ao lado..." O meu quarto era metido para dentro, por isso fiquei descansado. Entras nesta lógica de conflito aberto. Eu penso assim no Afeganistão. Ali, a lógica da Cidade Maravilhosa não devia ser essa, mas é.

Os papagaios de papel, pipas no Brasil, fazem parte da paisagem ou procurou-os?

As duas coisas. Na favela há uma cultura do papagaio, os miúdos adoram soltar pipa, como eles dizem. E eu quando era miúdo também adorava, claro. Há uma simbologia no próprio papagaio: se há operações da polícia, normalmente os papagaios descem. São um dos sinais para os olheiros, quem fica a controlar o que está a acontecer, o fogo-de-artifício é outro. É muito normal estares a entrar numa operação com a polícia e de repente começas a ouvir fogo-de-artifício, que é o sinal mais rápido. Toda a gente vai embora, as drogas desaparecem, as armas, tudo voa. A não ser que tenhas informações muito fortes de onde estão as coisas, vais lá ver a paisagem. Eu assisti uma vez a 1500 quilos de marijuana a serem apanhados na Mangueira, e eles foram lá direitinhos, porque tinham um informador com eles de cara tapada, braços tapados. Na foto do grupo existe o do centro, que morreu assassinado pela polícia, e outro rapaz que foi morto pelo tráfico, porque era informador, está no canto direito. É uma lógica de guerra, e eles são os inimigos; os inimigos morrem.

Como percebeu que era hora de fechar o trabalho? Isto continua. Podia ter ido para os militares a seguir.

Eu estive com militares, eles não são novidade no Rio. Nas ditas Unidades Pacificadores de Polícia no início o exército esteve presente em várias operações na Rocinha, Complexo do Alemão... Eu vi os militares lá dentro, não me interessavam particularmente. Não percebem a lógica da cidade. Quando é que decidi fechar? Era claríssimo que a seguir aos Jogos Olímpicos vinha uma crise enorme, não havia dúvida nenhuma disso. Para mim, fazia sentido fechar um ciclo. E é o meu retrato, é a minha visão do Rio. Há outras.

46750

Tinta da China

148 páginas

PVP: 44,91€

João Pina nasceu em Lisboa, em 1980. O seu trabalho tem sido publicado em órgãos como o The New York Times, New Yorker, Time, ou El País. Antes deste livro publicou Por Teu Livre Pensamento e Condor. Está a terminar um ano em Harvard como bolseiro da Nieman Foundation for Journalism, onde tem estudado áreas tão diversas como realização de documentário, direitos humanos ou realidade virtual.

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