Gru, não tão Maldisposto assim...

Para quem tem crianças mais novas, e é obrigado a saltar para a versão dobrada: Manuel Marques é Gru e Dru, Rita Blanco é Lucy

Por onde começar? Pelo novo vilão, que surge diretamente dos anos 1980, com um cabelo e chumaços incríveis? Pela descoberta de que afinal existe um Dru? Pela birra dos Mínimos, ou pelo despedimento de Gru e Lucy da Liga Anti-Vilões? Ao terceiro filme (sem contar com a prequela dos bonequinhos amarelos), a rentável franchise criada pela Illumination dá sinais de alguma desorientação. Há demasiadas coisas a acontecer, e sem a duração para cada cena que nos filmes anteriores permitia construir zelosamente uma piada. Lembram-se daquela em que Gru, com ar simpático, faz um balão em forma de cachorro para um miúdo que está a chorar e depois lho rebenta na cara? É pouco provável que se encontre aqui algum momento com o tempo e o preparo dessa dramatização. E quanto à vileza do protagonista, é certo que está em crise. Mas, calma, nem tudo se perdeu.

Depois de dois Gru - O Maldisposto, em que os realizadores Pierre Coffin e Chris Renaud trataram de pôr a vida da personagem mais ou menos nos eixos, arranjando--lhe três filhas adotivas (Margo, Edith e Agnes) e uma mulher (Lucy), este número 3, que chegou ontem às nossas salas, vem alargar ainda mais a família com um membro desconhecido... A viver num castelo exuberante, situado num lugar rústico chamado Freedonia, vamos dar com a figura do irmão gémeo de Gru, que, tirando a estatura e o nariz, é o seu exato negativo: veste-se todo de branco, tem uma cabeleira loira e um sorriso exagerado. Com um arsenal de "brinquedos" sofisticados na cave, ele será a nova esperança de Gru para apanhar Balthazar Bratt, um mau da fita que parou na década de 1980 - altura em que foi uma criança-prodígio do ecrã - e que está de volta para destruir Hollywood com pastilha elástica, ao som de Mickael Jackson ou a-ha.

E não, o enredo ainda não acabou: a lidar com o desemprego (justamente por não ter conseguido apanhar Bratt na última oportunidade), Gru está deprimido, e isso faz que os Mínimos se decidam a ir por aí espalhar traquinagem por sua conta... Já Lucy e as meninas procuram encontrar o equilíbrio na relação de mãe e filhas, no meio da barafunda rural de Freedonia.

O Gru de Steve Carell

Com tudo isto a suceder praticamente em simultâneo, na passagem rápida de um gag para outro, quase que nos falta retina. O que, no fim de contas, não se revela nada de estranho, se já tivermos interiorizado que o cinema de animação, na generalidade das produções americanas, está rendido aos impulsos do consumo instantâneo, dando uma prioridade cada vez maior à velocidade narrativa. No entanto, é preciso fazer alguma justiça a Gru - O Maldisposto 3, ao reconhecer que, neste conjunto de pequenas tramas, afetos e ódios, nunca se perde o fio à meada. E há nostalgia que chegue para os adultos, a combinar com a diversão que será indiscutível sobretudo para as crianças. Além disso, na voz de Steve Carell (muito importante!), Gru continua a ser uma personagem suficientemente carismática, com o mau feitio sempre a resvalar para uma meiguice paternal. Como não achar adorável a sua tentativa de explicar à pequenina Agnes que não existem unicórnios?

Mas não esqueçamos os Mínimos... Até porque eles não se deixam esquecer. Neste "aprender a andar sozinhos" não se dão nada mal e, na verdade, o futuro da franchise vai passar por eles. Não por acaso, está agendado para 2020 um segundo episódio da saga dedicada exclusivamente às suas peripécias, no famoso dialeto desconhecido, mas compreensível. Resta saber se Gru conseguirá resistir a esta concorrência forte e amarela.

Gru - O Maldisposto 3 é assim uma dádiva para este início das férias do verão. A promessa de entretenimento que se aguenta de pé graças ao caminho já feito, e ao brilho particular das personagens. No que toca às altas expectativas da bilheteira, só podem tremer diante do novo Homem-Aranha, a chegar na próxima semana às salas portuguesas.

Para quem tem crianças mais novas, e é obrigado a saltar para a versão dobrada - com o prejuízo de não desfrutar da voz de Carell -, o elenco ajuda a que não se perca muito: Manuel Marques é Gru e Dru, Rita Blanco é Lucy, Pedro Miguel Ribeiro, o vilão Balthazar Bratt, Rui Unas e Inês Castel-Branco, entre outros, juntam-se à festa.

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