"França perdeu o lado engagé, só protestamos no Facebook"

Estreia-se esta quarta-feira, 29 de novembro, no Porto, "120 Batimentos por Minuto". No Festival de San Sebastian, o DN esteve com o realizador Robin Campillo, o grande favorito aos European Film Awards deste ano.

O cinema ainda abana as pessoas. Quem esteve na sessão de estreia de 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo, em Cannes, terá ficado "abanado", arrepiado, quanto mais não seja pela espontânea ovação. Quem hoje apostar nesta sessão do Porto/Post/Doc (Rivoli, às 21.30, secção Highlights) ficará por certo esmagado. Nenhum outro filme da secção oficial conseguiu tão bem traduzir a importância sideral do cinema verdade nos nossos dias, mesmo que seja através de uma história de época, digamos assim - Campillo, inspirado nas suas memórias de voluntário da Act Up Paris, relata a forma como esta associação de homossexuais lutou contra a sida na França dos anos 1990, em plena tempestade da epidemia.

"Na época, a sida tocou sobretudo os jovens. É muito duro morrer jovem... Não estou seguro que fizesse o que fiz naquela altura se tivesse agora esta minha idade, tenho 55 anos. Todos aqueles jovens da Act Up tinham uma maneira muito forte de se manterem vivos. Ao mesmo tempo, a Act Up era um grupo político e muito radical. E batíamo-nos todos por uma razão muito forte! Não estávamos ali apenas como se fosse um emprego, também queríamos o lado da festa, da dança, do sexo! Tudo isso nos interessava... A doença era de tal modo injusta que dava ao grupo uma imensa vitalidade. Sem estarmos no grupo perdíamos toda aquela energia, entregávamo-nos ao silêncio", conta com emoção o realizador num hotel no centro de San Sebastian.

Em 120 Batimentos por Minuto, Robin Campillo está a filmar a excitação da sua juventude. E filma-o com um sentido de transe que se cola à pele. O que interessa mesmo no filme, para além de todas as conquistas formais, é ser todo ele um recado ao nosso ouvido, algo capaz de nos sussurrar: o amor ganha sempre à morte.

Em França, o filme funcionou acima das expectativas e criou um debate nacional, coisa que o cinema português já não consegue. Robin Campillo confessa a sua felicidade: "Correu mesmo muito bem e o que achei interessante foi o facto de os putos com menos de 25 anos terem ficado muito interessados no lado político do filme e da questão da liberdade da palavra. Claro, eu sei, é coisa geracional. Vivemos agora uma fase que é uma espécie de anestesia política. A França perdeu o lado engagé, só no Facebook é que protestamos. Macron aprovou umas leis de trabalho devastadoras, bem piores do que poderia ter feito um Sarkozy, mas não vi muita gente a sair à rua."

Este discurso do realizador faz sentido com a verve do filme, aliás faz também sentido com a acutilância dos diálogos de A Turma, de Laurent Cantet, para o qual trabalhou como argumentista.

120 Batimentos por Minuto tem uma carga militante acentuada, mas a câmara de Campillo nunca a exibe. Dir-se-ia que é um filme que nunca se vai abaixo por alguma tentação de exibicionismo. Talvez por isso consiga criar paixões galvanizadas um pouco por todo o lado, embora continue a sofrer com algum preconceito homofóbico, sobretudo depois de um polémico post nas redes sociais do produtor Vincent Maraval, que protestou de forma vulgar quando soube que não era o seu Le Redoutable, de Michel Azanavicius, a ser o representante da França nos Óscares mas sim o de Campillo. "A homofobia, é preciso não esquecer, antes matava as pessoas! Em 2017 é apenas embaraçante. Aquele comentário do Vincent obviamente enoja-me. Aliás, toda a história da lei da aprovação do casamento entre homossexuais em França mostrou bem a verdadeira face do meu país... Esse milhão de pessoas que saiu à rua a protestar contra lei fez o mesmo que a Act Up. Logo, temos sempre de continuar a lutar contra o preconceito", remata o realizador.

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