Estado gastou 101 mil euros em arte, Gulbenkian 500 mil

O buda da coleção de Victor Bandeira e Santiago e a Doadora são as mais peças mais caras que o Estado adquiriu. A Gulbenkian reforçou a coleção de portugueses.

Discípulo Escutando Buda estava na coleção do etnólogo Victor Bandeira, à guarda do Museu Nacional de Etnologia (MNE) desde 1975. Neste ano foi finalmente adquirida por 30 mil euros e pode ser vista na exposição Regresso à Luz patente naquele museu até 18 de fevereiro.

Em números absolutos, esta escultura, datada do final do século XVIII, início do XIX, é a mais valiosa entre as dez aquisições que a Direção-Geral do Património realizou no ano que agora termina, segundo a informação enviada ao DN. As novas aquisições vão integrar os acervos de sete instituições, para lá do Museu de Etnologia, e tiveram um custo total de 101 518,4 euros.

O Museu Nacional de Arte Contemporânea (MNAC), em Lisboa, é o que sai mais reforçado em 2017 com a aquisição de uma fotografia de João Francisco Camacho, de 1888, adquirida a Luísa Crick por 700 euros, e quatro obras de arte da coleção de Isabel Vaz Lopes (35 200 euros), que já estavam depositadas nesta instituição. Trata-se de duas peças da série Shelter, de Augusto Alves da Silva, uma da série S/T de José Luís Neto e Full Moon, de Júlia Ventura.

Da lista de aquisições consta ainda um conjunto de casula, estola, manípulo e véu de cálice conseguido num leilão da Cabral Moncada por 1106,64 euros que ficará no Palácio Nacional de Mafra, um monumento que assinalou em 2017 os 300 anos do lançamento da primeira pedra. Outro palácio, o da Ajuda, através da mesma leiloeira, foi reforçado com a aquisição de uma peça de louça no valor de 1721,40 euros. A esta juntam-se outras do disperso serviço D. Amélia (573,80 euros). Também esta peça veio de uma venda em hasta pública, via Palácio do Correio Velho.

Cerca de cinco mil euros foi quanto a DGPC garantiu ao Museu Nacional do Teatro e da Dança, para a aquisição de um cartaz do Grupo dos 5 (1200 euros) e de uma peça, rara, de ballet (3516,60 euros). Ao Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) chegou, em abril, Santiago e a Doadora, pintura em que Santiago é representado como peregrino, atribuída ao espanhol Juan de Borgoña. Era conhecida pelo menos desde 1954 quando o historiador de arte Luís Reis-Santos soube da sua existência. Após várias mudanças de mãos - de um antiquário para um colecionador sul-americano que permitiu que fosse exposta no Museu de Belas-Artes de Caracas, ao leilão em 2009 na Christie"s de Nova Iorque que o trouxe de regresso a Portugal, pelas mãos do colecionador Alexandre Volta e Sousa, a quem agora o Estado Português a comprou por 20 mil euros. Esta pintura fez parte da exposição Primitivos Portugueses 1450-1550. O Século de Nuno Gonçalves, em 2010. Estava atribuída ao Mestre da Lourinhã, pintor flamengo que trabalhou em Portugal nas primeiras duas décadas do século XVI.

Ao acervo do MNAA incorporou-se também o retrato de D. Frei José Maria da Fonseca Évora, uma pintura sobre marfim datada de 1730 e atribuída a Maria Felice Tibaldi. A aquisição da obra (10 mil euros) foi realizada pelos Amigos do MNAA, numa campanha de angariação de fundos num processo semelhante ao que o museu desenvolveu em 2016 com a Adoração dos Magos, do artista português Domingos Sequeira.

Do rol de obras adquiridas pela DGPC, e enviado ao DN, apenas uma foi para um museu fora de Lisboa entre as 23 instituições que gerem. No Porto, o Museu Soares dos Reis é agora proprietário da pintura Vestido Verde, adquirida a Maria José Barbosa Pinto Terrão por 7500 euros.

Entre as instituições que mais obras adquiriram, a Fundação Calouste Gulbenkian destaca-se pelo orçamento de 500 mil euros que disponibiliza para reforçar as suas coleções - a do Fundador e a Moderna.

Um conjunto de 323 desenhos dos herdeiros de Álvaro Lapa foi um das aquisições da fundação. "No relatório final da peritagem realizada foi considerada a sua grande relevância para o estudo da obra de Álvaro Lapa, pela importância que o desenho teve para o artista enquanto linguagem em si mesma e enquanto zona experimental no processo de criação da sua pintura", refere a curadora Ana Vasconcelos.

Da lista extensa constam também duas fotografias da artista portuguesa Manuela Marques, que vive e trabalha em Paris. As obras "integraram o trabalho apresentado na exposição temporária sobre a residência artística que efetuou em Versalhes, A Face Escondida do Sol, e que pôde ser vista neste ano na galeria de exposições temporárias do Museu Calouste Gulbenkian este ano.

Filipa César é outra artista cuja representação na Coleção Moderna é reforçada, através do filme Conakri (2013), com textos e performance de Grada Kilomba e Diana MacCarty, e da dupla projeção e instalação Le Passeur (2008).

"A obra de Filipa César no acervo da Coleção Moderna é um trabalho já antigo e menos representativo da direção que o seu trabalho foi tomando: muito informado pela démarche etnográfica, pela combinação de registos, recursos de pesquisa e protagonistas vários, pela forte presença da palavra", lê-se numa breve explicação que acompanha o texto sobre a aquisição, enviado ao DN por Ana Vasconcelos. "Obras como Le Passeur são fundamentais no seu percurso e estabelecem laços com a história do país, investidas de grande força testemunhal", acrescenta.

Obras recentemente adquiridas, das artistas Ana Cardoso, Sara Bichão ou Mariana Gomes, estão atualmente no piso 1 da exposição da Coleção Moderna. A estes nomes juntam-se ainda Nuno Cera, Ana Jotta, Claire Santa Coloma, Rui Sanches, António Júlio Duarte ou Carlos Bunga. Das 32 aquisições realizadas pela Fundação Gulbenkian (sem elencar os valores de cada uma), uma incorpora a coleção do fundador. Trata-se de um estudo preparatório a lápis de Sir Edward Burne-Jones para a pintura O Espelho de Vénus, que foi comprada por Calouste Gulbenkian em 1924 e já faz parte do acervo deste museu.

Entre as instituições contactadas pelo DN, a Fundação Serralves não quis divulgar as suas aquisições e no Museu Berardo não há registo de novas entradas. "O fundo de aquisições foi extinto, não estando previsto no novo acordo", disse fonte oficial ao DN. "Não foi feita, nem está prevista, nenhuma aquisição."

A representação de artistas portugueses em instituições públicas reforçou-se no ano que termina com as Galerias Municipais. As aquisições aconteceram durante a feira de arte ARCO Lisboa 2017 a diferentes galeristas, "num valor global que ronda os cerca de cem mil euros", disse fonte oficial destes equipamentos que vão da Galeria da Avenida da Índia, em Belém, à Galeria da Boavista, passando pela Cordoaria Nacional, Galeria Quadrum e Pavilhão Branco.

A lista inclui o fotógrafo Paulo Nozolino, cujo trabalho teve grande destaque na última edição da PhotoEspaña, Luísa Cunha, João Queiroz, Ana Manso, Paulo Brighenti, Susanne Themlitz, Pedro Calhau , José Loureiro, Fernanda Fragateiro, João Marçal, Alexandre Conefrey, António Júlio Duarte, Sara Chang Yan e Ângela Ferreira.

Os trabalhos destes 14 artistas foram comprados aos seguintes galeristas: Quadrado Azul, Miguel Nabinho, Vera Cortês, Pedro Cera, Pedro Oliveira, Ángeles Baños Módulo, Fonseca Macedo, Baginski, Graça Brandão, Belo-Galsterer, Pedro Alfacinha, Madragoa e Filomena Soares. As aquisições de 2017, e também as de 2016, serão mostradas durante a próxima edição da ARCO Lisboa, em maio.

Num trabalho que se desenvolve em "estreita relação com as galerias portuguesas e diretamente com os artistas nos casos em que estes não têm representação comercial", a coleção Cachola, em depósito no Museu de Arte Contemporânea de Elvas e no Museu Nacional de Arte Contemporânea, mantém-se como um retrato da produção artística visual portuguesa, sobretudo a partir dos anos 1980. Em 2017, foram incorporados 35 novos trabalhos. Entre estes, obras de dez jovens artistas que "ainda não estavam representados na coleção, um programa de aquisições promovido no âmbito das comemorações dos dez anos do MACE (do qual não foram divulgados valores): Ana Santos, Andreia Santana, Claire Santa Coloma, Diana Policarpo, Joana Escoval, Luís Lázaro de Matos, a dupla Mariana Caló e Francisco Queimadela, Mariana Silva, Pedro Neves Marques e Rita Ferreira. Atualmente, a coleção de António Cachola reúne 750 obras.

Por fazer: Vieiras da Silva fora das contas de 2017

Da lista de obras adquiridas em 2017 enviada ao DN, a Direção-Geral do Património Cultural deixou de fora seis pinturas de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) cuja aquisição tem vindo a ser negociada com os herdeiros do colecionador e dirigente desportivo Jorge de Brito (1928-2006). A sua compra foi anunciada em setembro e tem em vista a coleção da fundação com o nome da artista portuguesa e do seu marido, o pintor de origem húngara Arpad Szenes (1897-1985). A aquisição destas seis telas foi levada à audição do ministro Luís Filipe Castro Mendes. A verba são "5,5 milhões de euros de reforço do nosso orçamento por contrapartida das Finanças", especificou fonte do Ministério da Cultura em resposta ao DN.

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Nuno Artur Silva

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