Esta vista será devolvida a Lisboa em 420 dias. E o MUDE também

São oito pisos, um deles no terraço, o outro na cave, que se preparam para receber o MUDE e pôr mais uma quarteirão da baixa a funcionar em pleno. Reabre em 2017

O prazo está escrito: as obras duram 420 dias a partir do dia da aprovação do projeto e dos seus gastos, no Tribunal de Contas, na segunda quinzena de julho. Estavam ainda pendentes de aprovação no dia em que o DN foi espreitar as entranhas do MUDE - Museu do Design e da Moda e conhecer o projeto que devolverá um quarteirão a Lisboa.

Instalado aqui desde 2009, apenas uma parte estava aberta ao público. Uma parte de 15000 metros quadrados de área total. O todo é esse quarteirão com entrada oficial pela rua Augusta e portas na rua de S. Julião, na rua da Prata e na rua do Comércio. A partir de 2017, previsivelmente em cima das eleições autárquicas, reabre. Será possível ir de uma rua à outra por dentro do edifício.
Também o seu terraço será usado quando as obras estiveram concluídas, o que não aconteceu nos últimos sete anos, desde que o MUDE ocupa a antiga sede do Banco Nacional Ultramarino (BNU). É uma vista nova: do antigo restaurante da administração descobre-se outra perspetiva a 360º de Lisboa. As estátuas do arco da rua Augusta, de costas, a olhar o rio; a Sé mais próxima.

Não são transformações profundas que se vão ver quando o museu reabrir, já com bilhete pago (um modelo que ainda está a ser estudado). O ar inacabado que se colou à imagem do MUDE é para manter, sustenta a diretora, Bárbara Coutinho. Reforçar a estrutura e manter o tijolo à vista "foi um desafio de engenharia", afirma, sobre o novo projeto. Luís Saraiva, arquiteto da câmara municipal que acompanha o processo e coordena o projeto com a diretora, explica que uma das novidades é uma estrutura de aço que vai ser aplicada nas ombreiras das janelas e portas.

Reforçar a estrutura é a expressão que mais se ouve enquanto se circula por este edifício com dois pais. O primeiro é Tertuliano Lacerda Marques (1883-1942), autor do projeto original, de 1935, com três pisos; o segundo, Cristino da Silva (1896-1976), nos anos 60, que já tinha trabalhado com o primeiro no projeto dos anos 30.

Estamos no piso 1, deixando para trás a zona térrea, até agora de acesso livre, e dedicada à exposição permanente. O balcão de mármore, que um dia, ainda banco, foi de madeira, é para manter. Agora como delimitação da zona de loja do museu. O mobiliário está a ser pensado pelo designer Marco Sousa Santos e a sinalética de todo o MUDE também já está a ser trabalhada por Pedro Falcão. Outra peça que se colou à identidade deste edifício que fica é o mural de vidro de Murano alusivo à epopeia marítima, de Guilherme Camarinha.

Bárbara Coutinho, que aqui tem trabalhado diariamente desde 2008, explica o projeto do MUDE como aquele em "a arquitetura e o lugar são entendidos como contexto museológico". "Num edifício dedicado ao design, o edifício é um objeto de desenho", sintetiza. Daí a opção de manter à vista o tijolo da construção dos anos 30 e a dos anos 60.

Fazer o percurso da entrada para o interior do museu, da rua Augusta para a rua da Prata, é uma viagem no tempo, alerta a diretora. Este edifício é um terço moderno, dois terços antigo. As palavras ganham sentido quando as portas do gabinete do governador se abrem. É um exemplar em madeiras exóticas, que sublinha a ligação do banco às antigas colónias, com veludo verde nas paredes. E cheio de segredos. Um toque na madeira, sai uma alavanca, abre-se um bengaleiro. Um toque na madeira, sai uma alavanca, encontra-se um mictório.

É um desses casos em que a divisão será "restaurada", explica o arquiteto Luís Saraiva ao DN. Fica tudo como está e será a futura sala dos Amigos do MUDE. "Este é um dos primeiros edifícios em betão armado", diz a diretora. Estudar o edifício mostrou como conviviam as maneiras de fazer pombalinas e as do início do século XX.

Os 710 metros quadrados de área aberta do 1.º piso são o próximo palco das exposições temporárias do museu. Este é o andar em que estão, e se vão manter, os gabinetes administrativos. O corredor, até agora agora reservado aos funcionários, será de circulação pública. Basta ver a zona de espera, com mármores, de Cristino da Silva, e o corredor com azulejos e temas nacionalistas - escudos e caravelas nas ferragens, para ver o trabalho de Tertuliano Marques. E daqui partimos para uma representação da evolução política, "relacionada com o passado colonial", que está na génese do banco.

Este é o piso mais nobre do banco, diz-nos, se dúvidas persistissem, a ornamentação da sala, alcatifa e lustres do gabinete do administrador Pereira Coutinho (grande impulsionador de obras do banco). É do tempo de Cristino da Silva, chamado para a ampliação do banco no seu centenário (1864-1964).Será o centro de documentação do MUDE, embrião de uma biblioteca dedicada ao design, em colaboração com universidades.

No piso 2, além de 600 metros quadrados de área exposição, resiste um auditório e cafetaria dos anos 90, desenhado por António Garcia com mobiliário Daciano Costa, que voltará a vida. Era aqui que estavam instalados os gabinetes dos administradores do banco, já depois da aquisição por parte da Caixa Geral de Depósitos. Estão guardados para o serviço educativo, com vista para o Arco da Rua Augusta, e residências de designers.

Subimos ao terceiro andar, aquele onde vai ficar a exposição de longa duração - 1300 metros quadrados de área. É para esta zona que está planeada a intervenção com mais impacto no aspeto visual do edifício: demolir o octógono marcado no chão, que foi, em tempos de Tertuliano Marques, uma claraboia. Fechada à época de Cristino da Silva, autor, relembre-se, de mais dois pisos. Esvaziando este espaço abre-se lugar "para peças que exijam pé direito mais alto", explica a diretora.

A hierarquia entra pela arquitetura. Empregados e administração entravam por portas diferentes - existem-nas em todas as ruas que circundam este prédio. No quinto piso, restam divisões pequenas, de pé direito baixo, quentes, onde funcionavam as oficinas. Servirá de zona cozinha e apoio à cafetaria no último piso. As velhas, e inutilizadas máquinas dos elevadores, exemplares de património industrial, vão manter-se por aqui no futuro WC, enquanto a diretora saúda a chegada de ascensores a sério, incluindo monta-cargas. "Permite a colocação de peças diretamente nas reservas".

O têxtil ficará na cave, a antiga sala dos cofres, que assim se manterá. Construída de forma a não deixar entrar a água, já reúne condições ideais para estas peças, algumas das mais frágeis do acervo do MUDE. As peças de design ficarão no quarto e quinto pisos. O quarto será visitável, como Bárbara Coutinho sempre planeou.

Um lance de escadas mais e é o céu: uma sala de azulejos, lareira, mais alcatifa, paredes de vidro e vista panorâmica sobre a cidade. Voltará a ser um local de refeições, planearam diretora e arquiteto.
O plano para esta casa começa na vivência do edifício, faz questão de realçar a diretora. "À medida que fui vivendo o edifício, que o fui habitando, percebi que era importante estudá-lo a fundo, perceber a sua história, a sua ligação funcional e que talvez estivéssemos perante um modelo mais de restauro de alguns componentes e diálogo entre diferentes tempos", explica, antes de se lançar edifício adentro. "Mais do que manter fachadas e fazer renovação integral do interior".

Luís Saraiva, que trabalha na câmara e já tinha estado ligado à reabilitação de edifícios da cidade entra, então, em cena. Colaborou com o MUDE no desenho de várias exposições. Conhece a sua "história operativa", diz a diretora. Primeiro passo: conhecer este quarteirão pombalino. Ele é a história da Baixa - da sua desertificação, da sua reabilitação e reanimação. "Este projeto fazia todo o sentido assim", diz Bárbara Coutinho. Assim, feito a partir da autarquia, que tutela o museu, sem barulho nem starchitects, é o que quer dizer. "É um processo mais representativo do que o MUDE é".

"Dá-me particular satisfação perceber que este projeto envolveu muitas pessoas de departamentos diferentes da câmara, apesar de todos os problemas das estruturas públicas. Esta equipa que se constituiu para o MUDE acabou por ser um laboratório de pensamento e de ação", explica. A obra, a cargo da construtora Soares da Costa, custará 6,5 milhões de euros. Falta a museografia. Que, como tudo até aqui, começa dentro de portas.

[Artigo corrigido às 17.15: O edifício tem 15 mil metros quadros e a diretora Bárbara Coutinho habita-o desde 2008, antes da abertura ao público].

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.