Dois romances devastadores prometem deixar marcas

Não faltam novidades literárias para chegar às livrarias na primeira metade do ano, estando confirmados vários romances de autores portugueses. O destaque, no entanto, vai para dois grandes romances estrangeiros - ainda se desconhece a temática do novo de Lídia Jorge: os livros de Gabriel Tallent e de Fernando Aramburu

O título português de My Absolute Darling já está escolhido: O Meu Amor Absoluto. É o romance de estreia de Gabriel Tallent, um autor mundialmente desconhecido mas que na rentrée literária norte-americana apareceu com o grande romance entre as novidades apresentadas. A editora Relógio d"Água comprou os direitos para Portugal e em fevereiro o seu valor literário já pode ser conferido pelos leitores.

Contrariamente a outros fenómenos de literatura fabricados pelas grandes editoras, tudo indica que O Meu Amor Absoluto não se fique pela propaganda, pois quem já o leu na edição inglesa - a Portugal chegaram alguns poucos exemplares - considera estar-se perante uma grande obra. Seja a nível de violência emocional, suportada por uma narrativa excelente, seja pela forma como o relato vai crescendo e confronta o leitor com um drama impiedoso numa história em que um pai transforma a sua filha a seu bel-prazer. Turtle é uma menina que aos seis anos recebe a primeira arma de presente e aos 14 tem muito melhor pontaria que notas escolares. Martin é um pai que prepara a filha contra todos os males do mundo, infligindo-lhe outros, como o abuso sexual.

Não se vai contar mais da história mas sim a do livro, sobre o qual no final de agosto a crítica do The New York Times dizia ser "um romance de estreia que desce à escuridão" e garantia que, num "mundo literário muitas vezes claustrofóbico, Tallent parece ter chegado [aos 30 anos] já formado". Entre os elementos biográficos, destaca-se a tradicional história do escritor esforçado que serve à mesa de restaurantes para pagar as contas e vive no interior até ao momento em que consegue vender o seu original à editora Riverhead em 2015. Nada disto importa, pois o romance ultrapassa todos os fait-divers montados para o promover.

Se a opinião da crítica é unânime, editores de todo o mundo têm feito fila para o ter no seu catálogo. É o caso de Francisco Vale, que espera uma boa receção ao livro: "Merece-o, mesmo que saiba que no caso da primeira obra a descoberta pelos leitores será provavelmente lenta e dependente da atenção dos críticos." Considera que O Meu Amor Absoluto "põe à prova as características dos leitores, pois só os melhores serão capazes de vencer a dificuldade inicial criada por descrições violentas. O tema do tratamento brutal de uma adolescente de 14 anos e a relação sexualizada que o pai lhe impõe não é um tema fácil. Mas Tallent transformou esse tema em excelente literatura".

Para o editor da Relógio d"Água, este primeiro livro de Gabriel Tallent é a revelação de um "grande autor", tanto pela escrita como pelo facto de ter "arriscado num tema difícil e sempre próximo do abismo". Francisco Vale alerta para o facto de nunca se saber se "uma excelente estreia será confirmada, mas o que se vê é a capacidade inicial de criar uma personagem notável, ameaçada pelo amor asfixiante do pai, que vive em perigo constante, mas nunca apresentada com uma rapariga passiva e inocente".

O segundo grande romance de 2018 será Pátria, do espanhol Fernando Aramburu, lançado em setembro de 2016 e que chega pela D. Quixote em maio. Um romance que trata das três décadas de conflito terrorista no País Basco, mais importante ainda porque o país continua envolvido na resolução das feridas provocadas pela Guerra Civil de 1936 e nunca saradas. O argumento é o seguinte: no dia em que a ETA anuncia o fim da luta armada, Bittori vai ao cemitério visitar a campa do marido, assassinado por terroristas. A mulher decide também voltar à casa de onde tinha sido obrigada a fugir e o seu regresso irá fazer ressurgir muitas questões entre moradores na povoação e o que as provocou.

O mais interessante desta narrativa é o modo como Aramburu consegue criar um elemento de suspense inicial - que manterá sempre - ao colocar o regresso da viúva em várias fases, possibilitando a compreensão de todo o cenário que irá dar razão de ser a este romance que já vai em 20 edições, premiado e elogiado por todos os setores da sociedade espanhola. Em outubro, Aramburu recebeu o Prémio Nacional de Narrativa, tendo o júri destacado a "vontade de escrever um romance global sobre estes anos complexos no País Basco". O registo deste Pátria segue o que já tinha utilizado num livro de 2006, Los Peces de la Amargura, que reunia vários escritos sobre esta mesma época e os motivos pessoais para se montar durante décadas uma sociedade em que o ódio e o mal eram as principais referências da realidade.

Muitas novidades nacionais

Entre as novidades nacionais, a boa notícia deste primeiro semestre é o regresso de Lídia Jorge ao grande romance. A escritora não revela título nem a história, mas (diz-se) prometeu à editora a sua entrega de modo a já estar presente na Feira do Livro.

Novidade, com a característica de ser uma recolha de textos dispersos, é um dos primeiros livros a chegar às livrarias em janeiro: Manobras de Guerrilha, de Bruno Vieira Amaral. O autor selecionou 288 páginas de escritos avulsos e dividiu em três grandes temáticas: retratos, reportagens e ensaios. Os temas são diversos, explica, e vêm de origens diversas: "Jornais, blogues, festivais literários... Quis reunir tanto bioficção como crónicas, reportagens sobre lugares onde estive, escritos desde 2008, e que, sendo de difícil catalogação, exigiram uma organização especial."

Entre os autores portugueses existem ainda vários novos títulos anunciados. É o caso de Um Muro no Meio do Caminho, de Julieta Monginho; o novo de João Tordo, Ensina-me a Voar sobre os Telhados; O Fogo Será a Tua Casa, de Nuno Camarneiro; o primeiro romance de José Gardeazabal, Meio Homem, Metade Baleia; Ecologia, de Joana Bértholo; um livro de contos de Isabela Figueiredo, e os sem título ainda de Dulce Maria Cardoso, Rodrigo Guedes de Carvalho e Rui Cardoso Martins.

De autores estrangeiros surge Homem-Tigre, do indonésio Eka Kurniawan, que esteve na lista inicial do Man Booker em 2016, bem como Aqui Estou, de Jonathan Safran Froer. Vão ser editados vários romances do Brasil, como o segundo de Fernanda Torres, A Glória e o Seu Cortejo de Horrores, que conta histórias dos bastidores da televisão e do teatro brasileiros; Adeus, Bangladesh, uma coleção de contos de Eric Nepomuceno, ou Eles Eram Muitos Cavalos, de Luiz Ruffato.

O policial continua em força, com destaque para um livro que está a fazer furor em vários países depois de ser apresentado na Feira do Livro de Frankfurt. Trata-se de O Homem de Giz, de C.J. Tudor, de que se diz ter influências de Stephen King e o toque de Irvin Welsh e conter uma narrativa diferente e um suspense levado ao limite. Também se destaca O Caso de Nero Wolf, de Robert Goldsborough, bem como Uma Reputação Perigosa, de Madeline Hunter, ou Em Queda Livre, de Simona Ahrnstedt, esta considerada (também) a rainha escandinava do género. No thriller virá Matar o Presidente, de Sam Bourne, que traz referências à atual situação naquele país, além do cenário de um conflito com o regime norte-coreano. Esperado é também Talento para Matar, de Robert Wilson, que é inspirado num episódio real protagonizado por Agatha Christie.

Entre os mais esperados de 2018 estará o novo de Yuval Noah Harari, Vinte e Uma Lições para o Século XXI, após o sucesso mundial de Sapiens e Homo Deus, com temas como a imigração e o terrorismo.

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