Filhos de José Hermano Saraiva vendem espólio do pai

O historiador e figura da televisão foi um colecionador de arte não sistemático, mas apaixonado. A partir de hoje a sua coleção será leiloada no Palácio do Correio Velho, em Lisboa. Há um pouco de tudo nas peças que deixou

"Santas Mães foi a última coisa a sair da sala. E quando saiu eu pensei: a alma da sala foi-se embora. Foi aí que percebi: a casa está desfeita. E vi o meu irmão limpar uma lágrima do canto do olho." Rodrigo Saraiva, filho de José Hermano Saraiva, falava numa sala do Palácio do Correio Velho. Para lá da porta, dezenas de pessoas circulavam por entre quadros, de Silva Porto, José Malhoa, ou de arte sacra, esculturas como Santa Mães, do século XVIII que mostra Santa Ana e Nossa Senhora - avaliada entre 20 e 40 mil euros -, ou uma de Barros Laborão, representando o Menino Jesus, mobiliário, dois capitéis romanos iguais aos do Templo de Diana, em Évora - com preço-base de licitação de oito mil euros -, um baldaquino gótico de Rafael Bordalo Pinheiro, uma pequena caixa de prata com preço--base de 30 euros, uma mesa de jantar posta onde tudo está pronto para o leilão, que decorre entre hoje e sexta-feira, das centenas de objetos vindos de Palmela onde cada um foi, à sua maneira, quase uma pedra daquela casa que o historiador, ex-ministro da Educação, professor e narrador da história na televisão portuguesa que morreu em 2012, aos 92 anos, construiu para si e para a família.

"O meu pai não era um colecionador sistemático, que procurasse coisas intrinsecamente pelo valor que tinham. Colecionava com dois critérios, principalmente: a beleza das peças e a profundidade histórica que tinham, o que é que tinha acontecido na época em que aquela peça foi feita. Eram referências para o conhecimento do passado que ele tinha", considera Rodrigo Saraiva, professor universitário, que recorda que "lá em casa" as antiguidades não eram objetos de veneração ou adoração. "Nunca foi proibido mexer, e isso não foi nada bom nalguns casos", conta num sorriso, referindo-se a si e aos quatro irmãos, "partimos algumas, eram coisas que estavam à volta da família, literalmente vivíamos com aquilo".

Só tarde o filho se apercebeu de que, por exemplo, o porta-moedas que a mãe - Maria de Lurdes de Bettencourt de Sá Nogueira, que lhe contava histórias a partir da mitologia grega - lhe dera em miúdo era de ouro, e do século XIX; só tarde olhou para o arco do século XVII que figurava no escritório e disse: "Vou arranjar uma coisa destas. E aí é que me dei conta: mas onde é que eu vou arranjar uma coisa destas?"

João Pinto Ribeiro conhecia José Hermano Saraiva porque tinham o mesmo restaurador de móveis. "Não era um homem de estar nas leiloeiras onde havia uma venda importante, era mais de encontrar por acaso, no ferro-velho, em demolições. [Aí] era capaz de aparecer uma escultura do século XVI ou os [dois] capitéis romanos, relativamente raros." O CEO da leiloeira Palácio do Correio Velho conta que "numa das paredes de acesso à biblioteca tinha umas colunas muito bonitas enfiadas na parede, do século XVII. Na casa de jantar conseguiu pôr todo um altar renascentista coimbrão de grande qualidade. Não sei como é que terá vindo. Fez um assembling de pedras que trouxe de vários sítios, e foi aplicando", alvitra.

No catálogo as fotografias da casa de Palmela, captadas tal como esta foi deixada depois da morte do professor e da sua mulher, há menos de um ano, enquadram o que vemos nas salas do Correio Velho. Rodrigo Saraiva aponta para uma cabeceira, dormiu naquela cama, ao nosso lado está aquela que era a sua mesinha de cabeceira. A arte sacra é uma presença constante, para onde quer que se olhe. Sobretudo Maria com Jesus ao colo. "O meu pai tinha a mania das maternidades. Quando se casou disse: "Vamos construir uma cidade." Isto teve um paralelo lá em casa: o aumento do presépio. Começou com seis peças e todos os anos foi aumentando. [Hoje] são milhares." E não vão estar neste leilão.

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