De onde vem Surma e porque está em todo o lado?

Não foi fácil encontrar Débora Umbelino em Leiria, cidade de onde a multi-instrumentista partiu para atuar na Holanda, EUA, Itália ou, em novembro, Islândia. Surma não para.

Ele chegava num carro velho, que conduzia sem carta, parava à porta de casa dela, e punha a tocar uma cassete dos Dire Straits. Ela sabia que esse era o código para escapar o mais depressa possível de casa e entrar no carro. Ele e ela, namorados desde os 16 anos e casados até hoje, são os pais de Surma, nome pelo qual hoje quase todos tratam Débora Umbelino. "Acho que foi muito por causa deles que hoje estou na música", diz a multi-instrumentista em cuja parafernália de instrumentos que sempre leva para palco se conta a sua voz, que tem qualquer coisa de infantil e de nórdico (já lá iremos, a essa geografia), usada numa fonética sem palavras a que ela, com graça, chama "surmês".

Conversamos em Leiria, onde nasceu e cresceu até, aos 17 anos, ir estudar para Lisboa. Demorou até que a conseguíssemos apanhar de passagem por ali. Hugo Ferreira, da Omnichord Records, editora de Leiria, ia avisando: "A Débora está... a Débora vai..." Ou estava no South By Southwest, em Austin, Texas, ou ia para o Algarve dar um concerto para bebés, ou preparava-se para uma digressão por Itália. Tudo isto depois de atuar no festival Eurosonic, na Holanda, ou ver o seu disco Antwerpen nomeado para disco do ano europeu, pela IMPALA - Associação de Empresas de Música Independente. Recentemente, o seu nome foi anunciado no cartaz do Iceland Airwaves, festival que acontece em Reiquejavique, em novembro, e por onde passarão artistas como Ólafur Arnalds ou Sóley. Antes disso, passará ainda por festivais de verão como o NOS Alive ou o Bons Sons.

Era de manhã e sentámo-nos no bar do Atlas Hostel, no centro histórico de Leiria. Enquanto pede o café, Surma combina com Luís Jerónimo dos Obaa Sima (igualmente Omnichord Records) a próxima partida. Depois sentamo-nos. "Agora algumas pessoas pensam que é o meu nome próprio", diz. "Surma é uma tribo da Etiópia. Eu tinha vários nomes num caderninho. Na altura via muito Discovery [Channel] e a National Geographic, gosto muito de ver documentários. Eu estava a comer e a ver um sobre tribos indígenas, e uma dessas tribos chamava-se Surma. O nome ficou-me na cabeça durante semanas e semanas a boiar. E decidi arriscar." Uma vantagem que o nome logo carrega é de ser facilmente pronunciável noutras línguas: "Em inglês dizem sarma, em francês zurma", ri-se.

Podia ter sido cantora de country

Voltamos ao princípio, aos pais. "O meu pai tinha uma rotina engraçada: eu tinha meses e havia um tapete velho - ainda o tenho, todo roto -, ele punha-o na cave, deitava-me lá e punha duas horas de vinil por dia, música country e jazz dos anos 1950. Acho que até hoje oiço os discos que ouvia antigamente, e não sei porque não sou uma cantora country agora, porque isso são as minhas verdadeiras raízes", conta Débora. Na memória ficou-lhe a voz de Hank Williams ou o contrabaixo de Charles Mingus. A mãe, por sua vez, "punha o rádio ao pé da barriga quando estava grávida". Débora lembra-se ainda de a ver cozinhar enquanto ouvia música italiana, como Eros Ramazzotti. Contem-se ainda os anos em que, todos os dias, às cinco da manhã, os três sentavam-se na carrinha de distribuição dos pais e lançavam-se à estrada. O rádio estava sempre ligado.

Não havia músicos na família, apenas a avó que cantava no coro da igreja, como ela própria faria. "Com 5 anos disse à minha mãe que queria aprender bateria, não sei porquê. Mas meteram-me na flauta. Estavam com medo, eu era hiperativa medicada na altura, e não pensava nas coisas, tinha também défice de atenção, e ainda tenho. Eu era muito desastrada e tinham medo das baquetas. Fiz uma birra enorme e acabei por sair, porque não gostava daquilo." Mais tarde, com 11 anos, haveria de tentar o piano e a guitarra clássica. "Acabei por desistir passados seis meses, porque nunca me dei com a teoria, e tinhas de estar numa pose específica para tocar. Eu nunca gostei disso, sempre gostei de tocar de maneira livre e sem pensar nas notas em si. Sempre fui muito de ouvido. Ouvia as coisas e tentava tocar por mim mesma."

Começamos a caminhar a passos largos para o que seria o projeto Surma. "Dos 11 aos 18 tive bandas de covers, de originais..." Pelo meio, aos 15 anos, Débora começa a ser autodidata na música. "Das eletrónicas foi tudo como autodidata. Ainda não percebo nada daquilo, mas tento: foi YouTube, tutoriais, a malta da Omnichord ensinou-me também a mexer nas coisas..." Aos 17 anos partiu para Lisboa, onde viria a estudar voz e contrabaixo no Hot Clube de Portugal. Esteve lá durante três anos. Depois deixou a banda que tinha na altura (que hoje são os Whales) e apareceu a Surma, com música feita no quarto, onde parecia caber o mundo inteiro, e sobretudo uma geografia em particular: o norte.

"Acho que foi aos 13 anos, se não estou em erro. Foi num trabalho na escola, de geografia, sobre montanhas. Abri uma página da Islândia e dos países nórdicos, e fiquei obcecadíssima com tudo aquilo: as paisagens, a cultura, as comidas, peixe branco e coisas assim muito saudáveis com muito bom aspeto. E decidi entrar mais a fundo nos países nórdicos, ouvir mais música islandesa e norueguesa. E acho que foi isso que me veio influenciar. Com 16 anos decidi começar a poupar dinheiro para fazer uma viagem pela Escandinávia. E isso aconteceu há um ano. Foi a minha viagem de sonho: uma semana e meia. Alugámos um carro, com um grupo de amigos. Foi incrível. Fizemos muitos amigos por lá." O Antwerpen, diz, tiraria muito dessa viagem - "quero viver lá durante uns seis meses, talvez daqui a uns anos tire um gap year e vá para lá" - como, de resto, da que fez a Antuérpia.

Mostra num dos braços a tatuagem que refere "Antuérpia conectada com Portugal". Pedimos-lhe que descreva as outras. "Aqui é a capa do álbum, isto quer dizer que eu sou muito transparente, isto quer dizer coragem em islandês, esta é porque me chamavam Dumbo na escolinha, quando eu era pequena. Tudo tem assim um significado. Foi uma amiga minha que começou a tatuar há uns anos, e eu era a cobaia."

"Vou na rua e oiço coisas"

Voltamos àquela música saída de um quarto, e de uma só pessoa, com os seus sintetizadores, samples, voz, guitarra, e por aí fora. Já ouvia interiormente aqueles sons a que depois deu corpo? "Tanto que eu vou na rua e oiço coisas na cabeça, tenho muitas ideias no telemóvel, gravadas. Muitas vezes levanto-me às quatro e tal da manhã com coisas a flutuar. Levanto-me meia zombie e gravo."

Desde quando ouve essa música na cabeça, que persegue depois com instrumentos vários? "Desde cedo. Para aí desde os 9 anos que tenho sempre coisas a acontecer na cabeça, é estranho. Sempre estive muito no meu mundo, já na escola andava sempre muito sozinha, a ouvir coisas. Aquilo ia e vinha. Os meus pais repararam. Tinha um défice de atenção enorme. Sempre tive muitas coisas na cabeça ao mesmo tempo. Agora já não tomo medicação. Chegou uma altura em que a minha mãe não me quis dar mais medicamentos. Cortou, e aprendi a controlar-me eu mesma. É o meu feitio também, e ela não quis mudar a minha personalidade. Sempre fui uma criança um bocado atribulada. Sempre a correr e a ouvir essas coisas estranhas."

Ao mesmo tempo que descreve o seu défice de atenção, Débora conta que é comum passar "10 a 12 horas a ensaiar por dia", altura em que a concentração não é um problema, pelo contrário. Nessa altura prepara a base de loops para os concertos, em que improvisa bastante. "Às vezes a minha mãe tinha de me ir levar o almoço e dizer: "Débora, tu tens de comer, tens de ir comer." Eu esquecia-me. Não tenho noção das horas, apago." Outra característica dela é dormir pouco, foi Hugo Ferreira, que é como um segundo pai, quem nos avisou logo. Surma deita-se tarde e acorda cedo, dorme em média quatro horas por noite. Quem a vê naquela manhã, sorridente, a dar os bons dias na antiga tipografia Carlos Silva em que entramos para tirar uma fotografia, perto da Sé, com aquela T-shirt com as imagens de Serge Gainsbourg, não o adivinharia.

Agora que passa muito tempo na estrada, conta, "o palco em si transformou-se nos meus ensaios diários. Tenho ganhado um calo e um à-vontade incrível ao vivo. Tanto que faço coisas diferentes sempre. E sinto uma grande confiança no público que vai ver, sinto que estou em casa. Acho que criamos um nicho de amigos ali, da malta que está a ver. Sinto-me blessed [abençoada] mesmo." Depois há os "bons" danos colaterais, que Débora conta de olhos arregalados. "Falei com a Cláudia [Guerreiro] dos Linda Martini, ela começou a seguir-me desde o início de Surma, e veio falar comigo, a agradecer e dar os parabéns. E eu: "Oh meu Deus eu sou bué fã tua. Estás a falar comigo?" E acho que isso é das melhores sensações que podes ter, um ídolo teu vir falar contigo."

Snu vai ter a sonoridade de Surma

Quando conversámos, Débora Umbelino acabara de fechar a banda sonora para o filme Snu, centrado na história de amor entre Francisco de Sá-Carneiro e Snu Abecassis, realizado por Patrícia Sequeira e protagonizado por Inês Castel--Branco e Pedro Almendra, com estreia marcada para 27 de setembro deste ano.

"Tem sido um quebra-cabeças. Foi um convite da Patrícia, que é uma realizadora brutal. Quando recebi o telefonema nem acreditava que estava a falar comigo." Fora a experiência da banda sonora para a uma curta-metragem de uma amiga, este foi o primeiro trabalho do género para Débora que, haveria de contar, chegou a estudar pós-produção de cinema por alguns meses. Era o seu plano B, caso o projeto de Surma não resultasse. "A Snu era uma pessoa nórdica [dinamarquesa] e ela ligou essa parte nórdica à parte moderna. Resultou bastante bem. No início eu não podia ver imagens de nada. Comecei por criar alguns sons de ambiências. A Patrícia só me dizia, por exemplo: "Tens de criar um excerto para um pesadelo, um excerto para uma insónia, e outro para um amor enorme." Eu tentei visualizar imagens na minha cabeça e criar excertos de ambiências. Tive sorte. Acabou por resultar bastante bem." Além dessas "ambiências", entram ainda na banda sonora do filme sete músicas do disco Antwerpen.

"O filme está incrível. Resulta muito bem. Criámos um filme fortíssimo em termos de imagem e banda sonora. Além disso, sempre foi um sonho meu, ligar o cinema com a música. Oiço muitas bandas sonoras quando ando a limpar a casa. Amélie [de Yann Tiersen], por exemplo, é incrível."

Falamos do futuro em regime de toca-e-foge. Há esse objetivo de viver seis meses a norte. Por aqui fica o som de Hemma, que na viagem à Escandinávia Débora soube que significa "casa". E é o nome da sua avó.

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