David Fonseca celebra 20 anos de carreira e quer ser como Springsteen

O disco novo de David Fonseca chama-se "Radio Gemini" e foi gravado em vinte casas diferentes: aviões, comboios, carros e quartos de hotel.

Ainda lhe custa acreditar que já tenham passado 20 anos. Afinal, para muitos e para o próprio David Fonseca, parece que foi ontem que um grupo de Leiria, chamado Silence 4, tomou de assalto as rádios e os palcos portugueses, com uma pop semi-acústica, cantada em inglês, de repente tornada num dos maiores fenómenos de popularidade da história recente da música portuguesa.

Na viragem do século, David, emancipar-se-ia da antiga banda, iniciando uma sólida carreira a solo, alicerçada em oito álbuns de originais e outros projetos laterais que também têm o seu cunho, como os Humanos ou o disco Bowie 70, de tributo a David Bowie. "Até me custa a crer, esta coisa dos 20 anos", desabafa logo no início da conversa com o DN. "Nem sequer esperava que durasse dois anos, quanto mais 20", insiste aquele que nos primeiros tempos se recusava a apresentar como músico profissional. "Sempre achei que um dia ia abandonar isto para ter outra profissão qualquer, que também gostasse, talvez relacionada com o vídeo e com a imagem", recorda.

Mesmo assim, um dia, teve de aceitar essa realidade e a partir daí tudo mudou. "Já tinham passados sete ou oito anos, quando assumi que a música era mesmo a minha profissão e a partir desse momento tudo começou a correr muito melhor, porque passei a levar este trabalho muito mais a sério, especialmente a parte da composição. A tentar não me repetir, a construir um percurso e um imaginário enquanto compositor. Vinte anos a fazer isto é uma sorte, porque não é um meio fácil, mas continua a ser uma profissão que me dá muitos mais sorrisos que preocupações, portanto estou no sítio certo", sustenta.

Não deixa de sublinhar que "continua a ser uma surpresa", o facto da música se ter tornado uma profissão. "Este trabalho permite-me englobar tudo aquilo que gosto de fazer, como conhecer pessoas, estar constantemente a sítios diferentes e ao mesmo tempo estar ligado à área do vídeo e da fotografia. Não podia ter escolhido algo melhor", diz com um sorriso.

Música nova para velhos tempos

Ao contrário do que é costume na indústria musical, David Fonseca não vai festejar as duas décadas de carreira com uma coletânea de êxitos antigos ou um grande espetáculo retrospetivo, antes com um disco de inéditos, literalmente cheio de música nova - são 21 os temas incluídos em Radio Gemini, o oitavo álbum de originais do artista leiriense, que já chegou às lojas e no qual volta a cantar em inglês, depois de ter optado pelo português no último Futuro Eu, de 2015.

"Quando se começou a falar deste aniversário, ainda durante o ano passado, disse logo que o desejava era festejar à minha maneira, com música nova. É isso que me define como músico e por isso o melhor modo de começar estas comemorações era com um disco novo, que olhasse para a frente e não para trás, até porque sou uma pessoa muito pouco nostálgica", lembra David Fonseca, que compôs e gravou o disco num tempo verdadeiramente recorde.

"É o disco mais espontâneo e rápido que fiz em toda a minha carreira. Creio que só o comecei a escrever no final do verão do ano passado". Tudo começou, conta, "de forma muito específica", depois de ter comprado "um sintetizador muito especial", que o acompanhou para todo o lado - daí dizer, no interior do disco, que o mesmo foi "gravado em 20 casas diferentes: aviões, comboios, carros e quartos de hotel", porque "foi isso mesmo que aconteceu".

Uma realidade que também ajuda a explicar as 21 faixas, um número também ele pouco usual, nos tempos que correm: "É de facto um álbum muito completo, porque estava sempre algo a acontecer e eu queria registar tudo isso. E mesmo assim ainda ficaram outras vinte de fora".

O processo de composição ficou concluído em dezembro. No início do ano entrou em estúdio "para organizar as ideias" e no final do fevereiro já tinha o disco concluído. "Cheguei à editora e disse-lhes "tomem lá, têm aqui o disco feito", que é algo que eu nunca faço, porque demoro sempre muito mais tempo". Uma mudança de paradigma que muito lhe agradou: "No disco anterior demorámos muito tempo. Estive sete meses sentado em cima dele, à espera do momento certo e não gostei".

Quanto aos novos temas, acredita que podem surpreender os fãs, mas sem os chocar. "Gosto muito daquilo que fiz no passado, mas também quero fazer coisas novas e isso acaba por ser um pouco contra a corrente, porque, com o passar do tempo, a maioria das pessoas apenas quer mais do mesmo. Dentro desse espetro tento sempre oferecer algo novo, que surpreenda, mas que ao mesmo tempo seja reconhecível. Depois, se as pessoas gostam ou não, se têm vontade de incluir estas canções nas suas vidas, isso já não depende de mim".

Mais que fazer um balanço, David Fonseca, prefere olhar para o futuro, pelo que se impõe a pergunta: Como espera estar daqui a mais 20 anos? "A fazer exatamente o mesmo. Se antes acreditava que ia fazer isto apenas durante algum tempo, agora posso afirmar com quase toda a certeza que nunca me vou reformar. Sempre pensei que, à medida que fosse envelhecendo, me começaria a acomodar, mas aconteceu exatamente o contrário dessa situação e se continuar assim, daqui a dez ou vinte anos ainda vou arriscar muito mais. Quero ser como o [Bruce] Springsteen, que continua a ser uma força da natureza. Não tem a ver com o tempo ou com a idade, é uma maneira de ser, que eu também tenho".

Radio Gemini
David Fonseca
Editora Universal
Music Portugal
PVP: 13,90 euros

Ler mais

Exclusivos

Premium

Brexit

"Não penso que Theresa May seja uma mulher muito confiável"

O diretor do gabinete em Bruxelas do think tank Open Europe afirma ao DN que a União Europeia não deve fechar a porta das negociações com o Reino Unido, mas considera que, para tal, Theresa May precisa de ser "mais clara". Vê a possibilidade de travar o Brexit como algo muito remoto, de "hipóteses muito reduzidas", dependente de muitos fatores difíceis de conjugar.

Premium

Pedro Lains

"Gilets jaunes": se querem a globalização, alguma coisa tem de ser feita

Há muito que existe um problema no mundo ocidental que precisa de uma solução. A globalização e o desenvolvimento dos mercados internacionais trazem benefícios, mas esses benefícios tendem a ser distribuídos de forma desigual. Trata-se de um problema bem identificado, com soluções conhecidas, faltando apenas a vontade política para o enfrentar. Essa vontade está em franco desenvolvimento e esperemos que os recentes acontecimentos em França sejam mais uma contribuição importante.