Crânio com 400 mil anos chega ao Museu de Arqueologia

É o mais antigo fóssil humano até hoje encontrado em Portugal. No segundo semestre será mostrado numa exposição acerca da Evolução Humana

Amanhã o "Crânio da Aroeira", o mais antigo fóssil humano até hoje encontrado em Portugal, será entregue ao Museu Nacional de Arqueologia (MNA), em Lisboa, na terça-feira, pelo arqueólogo João Zilhão, que coordenava a equipa do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa que, a 14 de julho de 2014, durante os trabalhos de escavação no complexo arqueológico do Almonda, em Torres Novas, encontrou este crânio com 400 mil anos. Nunca se tinha encontrado um fóssil humano da altura média do Pleistoceno, que cobre o período desde há 2,5 milhões de anos até há 11,5 mil anos, num local tão ocidental da Europa.

"O crânio estava em brechas, estava envolto em pedra. Foi extraído o bloco com o fóssil lá dentro. Ao partir a pedra soltou-se uma lasca do crânio e viu-se que estava lá o fóssil e teve de ser escavado. A pedra envolvente teve de ser retirada, é um trabalho de especialista, muito moroso, demorou dois anos. E depois verificou-se que só estava um terço, mas com a vantagem que há diversos pontos conservados que permitem reconstituir a parte que falta, por simetria, de maneira quase completa. Acabámos por ficar com dois terços quase [virtualmente], a parte occipital é praticamente nula", explica João Zilhão ao DN.

O restauro foi feito num laboratório misto da Universidade Complutense de Madrid e do Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC). A DGPC, que ontem anunciou a entrega do crânio ao museu e adiantou que uma exposição acerca da Evolução Humana está prevista no museu para o segundo semestre do ano, acompanhou a investigação que, lia-se em comunicado, "acrescentou conhecimento ao estudo da evolução humana e gerou novos argumentos a favor da tese que defende a inclusão de todos os fósseis deste período, numa única espécie ancestral ao Homem moderno".

Além do crânio, a exposição, que será comissariada por João Zilhão, mostrará também a "Criança do Lapedo", achado arqueológico ocorrido na região de Leiria em 1998, bem como fragmentos de outros fósseis, provenientes da Galeria da Cisterna e da Gruta da Oliveira, em Torres Novas, e da Gruta do Caldeirão, em Tomar. "A exposição documentará o contexto tecnológico, cultural e paleoambiental das populações humanas representadas - as que habitaram o território hoje português entre 500.000 e 10.000 antes do presente", acrescenta a DGPC.

Depois da descoberta do crânio já foram feitas mais duas campanhas arqueológicas, afirma Zilhão ao DN, "mas não apareceu mais nada" do esqueleto a que pertenceria este crânio. Questionado acerca da procura dele, o arqueólogo diz que deverão ser feitas "talvez mais uma ou duas campanhas. Mas chega um momento em que há que parar. O objetivo da escavação não é encontrar fósseis: é uma escavação arqueológica. Os fósseis humanos são matéria extremamente rara. Quando aparece, aparece, e nós ficamos contentes, mas o objetivo da escavação não é esse. Não podemos andar aqui décadas à procura da agulha num palheiro."

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