Construção dos novos módulos do CCB pode arrancar no início de 2019

Um hotel e uma galeria com restaurantes, bares e lojas vão nascer a poente do Centro Cultural de Belém, completando o projeto original de Vittorio Gregotti e Manuel Salgado. A festejar 25 anos de vida, se não contarmos presidência portuguesa da União Europeia em 1992, o concurso internacional para os novos módulos será lançado dentro de semanas

A construção do hotel e das galerias comerciais que irão completar o projeto do Centro Cultural de Belém poderá arrancar no final deste ano ou início do próximo, decidido que esteja o concurso internacional para a obra e a exploração. Esta operação, segundo Elísio Summavielle, dará à Fundação CCB a autonomia financeira que, ao fim de 25 anos, nunca chegou a alcançar. Os novos edifícios respeitarão as linhas do projeto original da dupla Vittorio Gregotti - Manuel Salgado. O edifício sereno revestido a pedra de lioz de Pero Pinheiro vai prolongar-se até ao terreno da antiga universidade moderna.

A poucos dias de festejar os 25 anos de funcionamento como Centro Cultural - depois de ter albergado a presidência da União Europeia no primeiro semestre de 1992 - estão finalmente reunidas as condições para o lançamento do concurso. Este tem sido um objetivo anunciado pelas sucessivas administrações, que foram dando diferentes programas aos futuros edifícios, mas havia, segundo o especialista em património que ocupa a presidência há dois anos, entraves burocráticos que impediam que se avançasse.

Um deles era a definição da propriedade dos terrenos, situados a poente do edifício construído no início dos anos 1990. Para esta definição foi decisivo um acordo entre António Costa e Miguel Relvas quando ocupavam, respetivamente, os lugares de presidente da Câmara de Lisboa e de ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares.

O concurso público, a lançar em maio ou junho próximos, durará o prazo habitual de seis meses. Elísio Summavielle assinala que há vários promotores interessados e diz mesmo que estes têm contactado insistentemente o CCB com pedidos de informações.

Na realidade, a construção dos chamados módulos 4 e 5 do CCB não ficou em suspenso apenas por questões burocráticas. Estudos de viabilidade feitos na altura punham em causa a necessidade de um equipamento hoteleiro naquela zona e a viabilidade económica de mais uma grande obra. O custo da obra tinha, como é costume dizer-se, "derrapado" vertiginosamente - dos 32,5 milhões de euros previstos passou-se para perto de 190 milhões, num ambiente de enorme controvérsia não só sobre os custos mas também sobre a localização na vizinhança do Mosteiro dos Jerónimos.

Passados 25 anos, a ausência de vontade dos promotores turísticos deu lugar a um enorme apetite, com o boom do turismo dos tempo recentes. As reservas colocadas à construção na zona monumental de Belém desapareceram e o Centro Cultural tornou-se um polo de atração do público. Persiste um problema, sublinha Summavielle: a partir das sete da tarde o corropio de turistas desvanece-se e dá lugar a um ambiente de deserto nada acolhedor.

Assim, a ideia de construir ali um hotel e uma galeria comercial, como estava previsto no projeto inicial, ganhou novo vigor. O modelo de negócio agora escolhido é diferente do que se desenhara antes. Explica o presidente da Fundação CCB que o concurso internacional envolve o direito de superfície para construção e exploração: "Esta operação trará um apport financeiro importante em rendas anuais que nos libertariam dos constrangimentos da Lei Quadro das Fundações, que nos obriga a estar na esfera pública e a fazer concursos plurianuais para tudo e mais alguma coisa. E vai garantir-nos para o futuro uma receita bastante mais simpática."

Atualmente, o funcionamento do CCB é sustentado em parte por uma subvenção anual do Estado, no valor de 7 milhões de euros, mas na realidade o orçamento atinge os 8,5 milhões. A diferença é suportada pelas receitas comerciais geradas no CCB, com alugueres de espaços e outras iniciativas. Para Elísio Summavielle, uma receita maior permitiria que o centro cultural voltasse a ter uma programação competitiva a nível internacional.

O presidente do CCB sabe que há um enorme entusiasmo quer ao nível do governo, quer na Câmara Municipal de Lisboa quanto à ampliação do conjunto. Isso mesmo esteve patente ontem de manhã na conferência de imprensa que o ministro da Cultura Luis Flipe Castro Mendes e o presidente da Câmara Fernando Medina convocada para anunciar as obras do Palácio da Ajuda e em que o CCB também foi referido.

E mais entusiasmado ficou Vittorio Gregotti, o arquiteto italiano que fez o projeto do CCB em coautoria com Manuel Salgado, Em declarações ao DN, recordou que este foi "um projeto absolutamente excecional". E adiantou: "Eu considero sempre excecionais os projetos importantes, mas em Belém havia um contexto histórico e físico com o qual me relacionei de uma maneira muito forte. Foi um projeto que tinha de ter em conta a localização específica onde se situava." Está igualmente contente por ter uma visita programada a Lisboa no final do ano, para a inauguração de uma exposição sobre a sua vasta obra que está em preparação no próprio CCB.

Já Manuel Salgado, que hoje é vereador na Camara de Lisboa, está absolutamente claro que não terá qualquer relação com a construção dos módulos 4 e 5 não: "Não tenho qualquer intervenção nem no projeto nem na sua apreciação, estou fora". De facto, é o ateliê Risco, de que foi fundador mas do qual se desligou quando foi para o município, a assumir qualquer relação com o projeto.

Assim, não conhece o programa previsto agora, e recorda: "A ideia original era fazer um hotel e uma área comercial. No tempo em que Fraústo da Silva foi presidente, pôs-se a hipótese de ser um centro de formação na área dos espetáculos e uma biblioteca. Depois pensou-se que fosse uma ampliação da área de exposições, dada a falta de espaço que resultou da concessão do centro de exposição à Fundação Berardo".

Mas sublinha ainda que os novos módulos não criam a necessidade de alterações na rede viária, uma vez que sempre estiveram previstos. E esclarece: "Quando no ano 2000 foi feito o Plano Estratégico do Tursimo de Lisboa, foram delineadas três polaridades ao longo do Tejo: a Baixa, o Parque das Nações e Belém, que é um polo cultural por excelência. Faz todo o sentido desenvolver esse projeto e consolidar a ideia dos três polos. Hoje estes três polos tendem a fundir-se, o que é bom para a cidade."

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