Como evitar o naufrágio de um romance?

O novo romance de Ana Margarida de Carvalho dá fim à deriva na literatura nacional ao recuperar estruturas e vozes das nossas letras em vez de experimentalismos pouco certeiros

Aviso ao leitor de escritores nacionais sobre o romance Não Se Pode Morar Nos Olhos de um Gato: este livro não é para menores. Destina-se aos que não aceitam que a língua portuguesa possa continuar a ser maltratada com textos em que se usam poucos vocábulos e o esforço intelectual do escritor morre ainda muito longe da praia, às mãos de leituras sem objetivo.

Nas epígrafes iniciais do livro está uma em que se diz: "Nenhum animal foi maltratado durante a escrita deste romance." A ser verdade, diga-se então que a crueldade da escritora esteve apenas centrada no maltratar dos leitores ao seu segundo romance, Não Se Pode Morar Nos Olhos de um Gato. Isto porque ao longo das 341 páginas não há um momento de sossego para quem as vai virando uma atrás da outra de forma urgente, tal é a forma como Ana Margarida de Carvalho maneja o chicote da escrita. Como se fosse o capataz da sua história a esfolar o escravo amedrontado, ou as mulheres distantes e os homens com medo, a lutarem pela vida uns à custa dos outros e contra a maldição do mar.

Não se assuste o leitor com este início de opinião, é que quando pegar no romance vai espantar-se ainda mais com o efeito em si do frémito criativo que ocupa todas as páginas. A escritora desfaz o cânone literário em vigor e oferece uma nova leitura àquilo a que se chama romance nacional - já o tinha conseguido em muito à primeira experiência ficcional - , trazendo à memória do leitor momentos que soam a José Saramago, a Gil Vicente, a António Lobo Antunes e a Miguel Torga. Até à ladainha das mulheres das aldeias perdidas e dos homens que gemiam antigamente a lavrar a terra, ou de missas desesperadas. Não é que imite esses escritores, antes se lhe assemelha na capacidade de redigir um romance em que o leitor é obrigado a lembrar-se destes nomes por esta ou aquela razão, comprovando que a nossa literatura tem uma corda que de vez em quando uns a vão pegando e não negando.

O argumento do livro é simples: um navio negreiro afunda-se ao largo do Brasil. Desse naufrágio salvam-se o capataz, o escravo, um criado, um padre, um estudante, uma fidalga e a sua filha e um menino pretinho. Também não "perde" a vida uma imagem de uma santa, Nossa Senhora de Todas as Angústias, que assiste a tudo o que se vai passar, umas vezes como observadora, noutras como puro objeto de madeira. A salvação, no entanto, não lhes sai barata, pois o rochedo onde se refugiam da água tem a maldição de a cada maré cheia submergir a pouca areia da praia e restar-lhes um buraco para se abrigarem e confrontarem os seus tabus.

Está o cenário posto e as personagens apresentadas logo a poucas dezenas de páginas, momento em que o leitor questiona como vai a escritora entretê-lo até ao fim. Não seria coisa difícil tantos os livros sedutores sobre náufragos, tantas as peripécias que os sobreviventes podem viver numa ilha deserta. Até porque como se diz à página 221, "o mar não é de confiança", daí que a narrativa pudesse seguir os caminho da História Trágico-Matrítima e estava tudo transformado em romance como seria previsível.

Ora se nenhum dos quatro autores clássicos já referidos o faria, porque há de a autora de Que Importa a Fúria do Mar ceder à facilidade, mesmo que o primeiro capítulo tivesse como título "E se já vão mortos porque temem o naufrágio?" e permitisse resolver a questão em duas penadas. Não, prefere colocar as personagens a nadar na sua própria história pessoal e retirar episódios dessas vidas para o acerto de contas final que os espera. Num tom que os mantém de forma irresistível como se fossem membros de um coro de tragédia grega, num afiar constante de vozes de carpideiras, numa missa católica descontrolada ou, porque não, num rito pagão, tais são os modos como os põe a falar ou se lhes ouve o pensamento em revolta.

Não se devendo desvendar mais do que o que já foi dito da trama, acrescente-se que o registo da narrativa, que consegue manter-se até ao fim, tem um odor de ineditismo. Que resultará de muito trabalho, como confirmam certas passagens e imagens literárias, como "o fio de tricotar horizontes" e "se se descoseu, foi por baixo, para dar à luz"; e nas partes brasileiras de certas letras que estão no (in)consciente da escritora.

Se houvesse que reduzir este livro a um conceito ele seria a realização de um auto de fé. Daqueles em que personagens são matéria a arder e o leitor sai chamuscado, mesmo com tanto mar à volta. Um livro impressionante e, principalmente, redentor.

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