Carmen Dolores, a Teresinha que aos 19 anos morreu de amor

125 anos após a morte de Camilo Castelo Branco, a atriz lembra o papel de Teresa onde, na adaptação de Amor de Perdição ao cinema, morreu de amor aos 19 anos.

Carmen Dolores tem hoje 91 anos. Por vezes, quando olha o céu noturno, diz para dentro: "Simão, olha as nossas estrelas." A primeira vez que disse essa frase de Teresa de Albuquerque - e em voz alta - a atriz teria 18 ou 19 anos, feitos durante a rodagem de Amor de Perdição, uma adaptação da obra de Camilo Castelo Branco por António Lopes Ribeiro, em 1943. É uma frase de "quando ela está já a morrer. Já não o viu, morre pouco depois. E essa frase nunca mais a esqueci."

Quando, na sala de estar de sua casa, mostra as fotografias da época em que emprestou corpo e tudo à desditosa amada de Simão Botelho, lança: "Eu era muito mais triste e melancólica do que sou hoje. Acho que foi por isso que o Lopes Ribeiro me escolheu..." Além dessa melancolia, havia o seu nome. "Mas que extraordinário nome de cartaz!" disse o realizador quando a soube Carmen Dolores. Ele que por vezes a levava ao Teatro da Trindade (onde o filme estreou em outubro de 43) e que, olhando para o público, lhe dizia: "Olha, eles estão a chorar, estás a fazê-los chorar..."

Está rodeada de prateleiras que denunciam a leitora ávida que é (de Agustina Bessa Luís a Sándor Márai ou a Dostoievski, eterno favorito) e de fotografias de diferentes épocas da sua vida. A certa altura diz: "Estava a pensar na Teresa, já há muito tempo que não pensava..." Foi com ela que, após quatro anos de rádio, a atriz se estreou no cinema, a que se seguiriam os palcos, de que se despediu em 2005.

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