Caetano apresentou Teresa. E a noite tingiu-se de samba

Voz e violão, ele e ela trouxeram uma noite de magia a um Coliseu dos Recreios, em Lisboa, com muito calor. Cantando, a tristeza vai embora

O pano subiu e Caetano fez mesmo as honras da casa: apresentou Teresa, como promete esta digressão, que ontem chegou ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa, onde hoje regressa para novo concerto. "Esse espetáculo resume-se a uma cantora, um violonista e um compositor" para melhor mostrar a essência e "a profundidade" do samba, disse o baiano referindo-se a Teresa Cristina, que vem da Lapa, no Rio de Janeiro, para cantar Cartola, o compositor sambista da Mangueira, com a companhia de Carlinhos Sete Cordas no violão.

A carioca disse um "boa noite" quase sumido, ela que já tinha confessado a sua timidez ao DN, e atacou Chega de Demanda ou O Mundo é um Moinho ou Corra e Olhe o Céu, para melhor explicar porque "o samba às vezes engana muito a gente". A dificuldade é mesmo a que canção nos agarrarmos.

Tingindo os sons de Cartola, sobrava o violão que enchia o palco e um corpo que, por vezes, apenas por breves olhares ou gestos quase indecifráveis, teatralizava as palavras de sambas que soavam familiares nestas versões descarnadas. Foi assim em crescendo, com o público a ser tornado cativo por aquela voz de magia, como a definiu Caetano - e também Over the Rainbow assomou para melhor nos enfeitiçar.

Houve humor, muito calor, risos e lágrimas, na emoção de estar num "sítio lindo". Houve também a canção que ela achava que "era dor de cotovelo" e afinal "é uma cantada" que é Senhora Tentação (Meu Drama), antes de Teresa Cristina apresentar um samba constrangedor como Evite Meu Amor e temas como Amor Proibido (Toda Culpa) e Tive Sim, que mostram que o samba que é samba também carrega nas notas de uma tristeza só.

Para a carioca, em Portugal, "a rua, a padaria, a farmácia, é tudo lindo". Afinal, ela trabalha com a língua, cantando, o que não acontece onde se falam outras línguas: "Aqui não, aqui penso com a minha língua e é isso que eu penso."

Já Caetano Veloso não precisa de quem o apresente ao público, mas despe o paletó (o calor, claro) para melhor cantar um repertório cujas palavras e acordes são tão familiares de todos. Também só com violão em palco, a voz aos 74 anos é tudo menos frágil e dança com a sensualidade de pronomes e verbos.

Caetano ironiza com a situação política do Brasil: "Vocês pensaram que eu ia dizer "fora Temer"" - e acabou a dizer, arrancando fortes apupos a Michel Temer, ele que lhe deu o mote para incluir Luz do Sol no alinhamento, por também o compositor usar mesóclises (o uso de pronomes no meio de verbos) como o presidente brasileiro.

A palavra é uma arma, já se sabe. Talvez por isso o espetáculo de Caetano Veloso comece por Um Índio e Os Passistas, antes de mergulhar em clássicos como O Leãozinho, Menino do Rio, Minha Voz, Minha Vida ou Cucurrucucu Paloma. Talvez por isso Caetano assuma o risco de cantar num português contido Libertação, o poema de David Mourão-Ferreira interpretado por Amália. Talvez por isso o baiano remate com A Luz de Tieta, pedindo o coro que o acompanha sem falhas, "quero ouvir outra vez", antes de regressar para dois encores.

Ele e ela: Caetano apresenta Teresa e os dois cantam Desde que o Samba é Samba porque "cantando eu mando a tristeza embora". O samba tinge a noite quente e Odara é interpretada já com o público a ocupar a frente do palco - "pra ficar tudo jóia rara qualquer coisa que se sonhara".

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