Bob Dylan. Isto de ver deus ao vivo tem que se lhe diga

Altice Arena esgotada para ouvir as palavras do Prémio Nobel da Literatura de 2016. Um espetáculo onde a roupa com que vestiu as palavras de sempre baralhou os fiéis

Isto de ver deus ao vivo tem que se lhe diga. Os fiéis podem apressar-se cegamente a louvá-lo sem qualquer espécie de crítica, como também podem descobrir que deus é afinal humano, eventualmente com pés de barro, que prefere as palavras das canções às palavras acessórias ditas para o aplauso da plateia.

Bob Dylan (é este o deus de que se fala) chegou esta quinta-feira à noite a Lisboa para um concerto na Altice Arena de 20 canções, 18 no corpo do concerto, duas já previstas para o encore - o alinhamento deste concerto, o primeiro na Europa da digressão Never Ending Tour, foi praticamente o mesmo dos que o americano fez na América, mexendo sobretudo na ordem de algumas canções. O que baralhou mesmo foi a roupa com que Bob Dylan vestiu as suas canções, apanhando (quase) de surpresa quem o ouvia. Houve mesmo Blowin' in the Wind, no encore, e só a letra tornou reconhecível a canção do álbum The Freewheelin' Bob Dylan (1963).

Foi de surpresa que deus entrou no palco: às 21.06, as luzes apagaram-se de repente e logo assomaram as guitarras e o piano, de onde praticamente não saiu Dylan. Com a banda vestida de casacos brancos, não havia truques no cenário que ajudassem: na imensidão da arena, os cinco e Bob pareciam prontos para cantar num club, entre o blues e o rock'n'roll, pitadas de jazz, algum rock e aqui e ali swing para agitar os corpos.

Os fiéis foram reverentes: com deus sentado, os movimentos resumiam-se a acompanhar de forma muito compostinha a adrenalina de Highway 61 Revisited ou Summer Days e o esgalhanço de Autumn Leaves, uma versão de Yves Montand. Se a rebeldia do americano já ficou arrumada há muito no armário, quem foi ao concerto também não se agitou muito - talvez outras idades fizessem da Altice Arena uma enorme pista de dança para rock'n'roll e alguns slows.

Não ajudou o som da sala, que lá foi deixando de ser a amálgama inicial, para tornar mais clara o que é a voz de Bob Dylan hoje (deus é falível). E não ajudou que não houvesse qualquer ecrã que mostrasse o seu rosto (nem as fotografias foram permitidas para a imprensa). Sabe-se que deus não se deixa revelar de modo fácil, só as palavras (ele que também é Nobel da Literatura) e a música são importantes. E não há palavras a mais: nem um "boa noite", nem um "obrigado", nem a apresentação dos seus cinco apóstolos, a his band que o acompanha nesta digressão.

Bob Dylan não facilitou. Tangled Up in Blue foi tão swingada que houve quem não se desse conta do que cantava deus, que permanecia atrás do piano. Em Honest with me meneou a cabeça e carregou nas teclas. E quando saltou para a frente do palco, pela primeira e única vez, já perto do fim, para uma deliciosa versão de Why Try to Change Me Now (de Cy Coleman Jazz Trio), alguém desabafou, "finalmente".

Ao fechar o alinhamento de 18 temas, saíram como tinham entrado: na escuridão. Regressaram na semiobscuridade para o tal encore em que Blowin' in the Wind é surpreendente entre as guitarras e o contrabaixo e a bateria a dar-lhe um toque de swing irresistível, que deixa de lado qualquer nota de protesto. Não há rajadas de vento, apenas uma brisa de blues.

Cá fora, no final do concerto, um bob dylan de guitarra e harmónica juntou uma pequena multidão para lhes dar os clássicos como sempre foram. Quem queria ir ao céu, parecia desiludido com deus e certamente cantarolou Now I'm trying to get to heaven before they close the door. Bob Dylan não fechou porta nenhuma, abriu outras. Senhoras e senhores, nem sempre são fáceis as palavras de deus. E isto de ver deus ao vivo tem que se lhe diga.

[texto atualizado sobre o facto do alinhamento não ser exatamente o mesmo dos concertos nos EUA]

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