As novas polifonias tribalistas

Disco e filme em DVD marcam o regresso de Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte juntos, de novo como Tribalistas, numa só voz 15 anos depois do primeiro álbum e quatro anos depois de uma canção dos três. Agora com Carminho a embalar

É quase um fantasma que por instantes deixa o ecrã, fugidio, de vestido pérola, a afastar-se do microfone e a pousar os auscultadores e a sair de copo na mão. Carminho, é ela, a cantora portuguesa, acabou de cantar Os Peixinhos com os Tribalistas e sai de cena - deixando a sós os três loucos, "loucos não, Tribalistas", corrigem eles entre gargalhadas, sentados num alpendre, a noite escura, e eles de óculos escuros. É assim que fecha o filme que acompanha a gravação das dez novas canções do trio que junta Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, num DVD lançado em simultâneo à edição em CD, 15 anos depois do seu primeiro álbum.

Tribalistas é também de novo o nome do álbum, sem necessidade de dizer mais e é, mais uma vez, uma espantosa combinação de vozes, polifonias soltas e em uníssono, em que Arnaldo é Arnaldo, Marisa é Marisa e Carlinhos é Carlinhos - e depois vem Carminho e é Carminho. Mas destas quatro vozes distintas faz-se uma só, Um só, cantam logo no segundo tema: "1 2 3, somos muitos, quando juntos,/ somos um só, um só".

A guitarra é dedilhada, enquanto se prepara a gravação, e Marisa impacienta-se por começar, "depois a gente vai fazendo outras vozes", e Arnaldo avisa, "depois tem as loucas". Sim tem, concorda Marisa. "Depois que fizerem as de vocês, a gente faz as loucas", e as vozes entram em Diáspora, canção que retrata êxodos destes tempos, onde há migrantes e refugiados - "atravessamos o mar Egeu/ um barco cheio de fariseus/ com os cubanos, sírios, ciganos/ como romanos sem Coliseu/ atravessamos pro outro lado".

Está dado o mote para um álbum onde se canta a política e o amor, eles que há quatro anos se juntaram para cantar Joga Arroz, uma quase-canção em que apoiaram a campanha pelo casamento igualitário, que é como quem diz o casamento alargado a pessoas do mesmo sexo. À época, o casamento civil igualitário, assim chamado no Brasil, já tinha sido regulamentado pelo Conselho Nacional de Justiça mas faltava a sua aprovação no Congresso e os três juntaram-se para fazer "uma música para sensibilizar os deputados, senadores e a sociedade brasileira em nome da liberdade de amar".

Talvez seja por isso que Arnaldo Antunes tenha explicado, em agosto ao jornal Globo, que este disco "não é volta dos Tribalistas, porque os Tribalistas nunca foram". "A gente sempre esteve aí", acrescentou. E Marisa Monte confirmou que os três foram fazendo trabalhos em conjunto nestes 15 anos, encontrando-se para compor, mas sem pensar num disco. "E há um ano e meio surgiu o desejo de fazer um registo juntos. Temos mais músicas juntos, mas essas pareciam mais potentes com a gente junto", contou. Juntos, nestas novas polifonias, de vozes e causas nossas.

O regresso anunciou-se com uma foto nas redes sociais e uma legenda - "Juntos somos um só", como em Um só: "A música fala da convivência com as diferenças. A gente vê um momento que está tudo muito dividido e a gente gosta de poder juntar as coisas e poder conviver com os paradoxos e viver nossas contradições", contou Arnaldo Antunes.

Daí o reencontro, 15 anos depois desse primeiro álbum dos Tribalistas, como se recorda a abrir o DVD: "Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte se reencontram para gravar suas novas parcerias - dez novas canções, uma canção por dia." "Vamos fazer isso agora, depois faz dez, depois mais dez e mais dez, e aí tem o "Tri", o "ba" e o "lista", a lista da tribo", sintetiza Carlinhos Brown no filme.

Mais à frente, o mesmo Carlinhos insiste em tocar uma flauta. "Tem que inventar algum som com o que tem", diz, "e usar o que tem", para "tirar do meu jeito". E tira do seu jeito qualquer som. Na ficha técnica de cada canção é delicioso ir tomando nota dos instrumentos que Carlinhos Brown toca. Ou com o que tem mais à mão: eletrónicos artesanais, palmas, cajóns, afoxés, karkabou, bacurinha, beatbox, berimbau, shaker, tamborim, conga, bongô, pandeiro, zampogna, ganzá, temple block, wood block, gongo, prato-condução, clave, timbau, pulseira, gã, tumbadora... - numa lista não exaustiva (que só atrapalhou o corretor automático do computador). "Todos os instrumentos têm alma", argumenta Carlinhos.

Este homem dos muitos instrumentos soma o mais importante deste álbum, a voz, à voz dos seus outros companheiros de canção. É essa a mais valia de um álbum que faz de Fora de Memória, Trabalivre (e há um diálogo delicioso no filme que dá conta de como surgiu o nome), Ânima ou Lutar e Vencer temas essenciais (para além dos já citados) deste trabalho.

E há, no fim, já dissemos, Os Peixinhos, uma lullaby de encantar, uma canção de embalar, com percussão de boca, na qual "os peixinhos são/ flores sem o chão/ nadam, boiam, fazem bolhas/ e bolinhas de sabão". E Carminho a puxar este fado-bossa nova que nos faz sonhar entre bolhas e bolinhas de sabão. De óculos escuros para melhor sentir os outros sentidos.

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.